O Saara está a chegar a Portugal. E os cientistas explicam porquê

 

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Portugal é um dos países europeus mais expostos ao aumento da poeira proveniente do deserto do Saara. Um novo estudo internacional concluiu que a concentração destas partículas na atmosfera tem vindo a crescer de forma sustentada, com impactos na qualidade do ar, na saúde pública e até na produção de energia solar.

Não é o deserto que avança, são as partículas

Apesar do título poder sugerir que o deserto está a expandir-se para a Europa, a realidade é diferente. O Saara não está a avançar fisicamente sobre o continente europeu. O que está a aumentar é a quantidade de poeiras minerais transportadas pelo vento desde o Norte de África para o sul da Europa.

Estas partículas conseguem percorrer milhares de quilómetros, chegando regularmente à Península Ibérica, França, Itália, Grécia e outras regiões mediterrânicas. Portugal está entre os territórios mais expostos a este fenómeno.

Estudo analisou quase 20 mil medições

A investigação foi publicada na revista científica Nature e contou com a participação da investigadora portuguesa Célia Alves, do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), da Universidade de Aveiro.

Os investigadores analisaram cerca de 18 500 medições diárias recolhidas entre 2012 e 2021 em 103 locais distribuídos por toda a Europa. Com recurso a modelos de aprendizagem automática, foi possível estimar a concentração diária de poeiras desérticas presentes nas partículas PM10.

Os resultados mostram que, no sul da Europa, a concentração média ronda os 5,28 microgramas por metro cúbico de ar, mais do dobro dos 2,09 microgramas registados no centro e norte da Europa.

Ao longo da década analisada, verificou-se um crescimento médio anual de cerca de 0,055 microgramas por metro cúbico, equivalente a um aumento acumulado entre 10% e 25%.

Portugal está entre os países mais afetados

Segundo os investigadores, Portugal, Espanha, Itália e Grécia destacam-se como alguns dos países mais afetados.

As massas de ar provenientes do Saara deslocam-se frequentemente sobre o Atlântico antes de infletirem para norte, atingindo diretamente a Península Ibérica. Em Portugal, os níveis mais elevados costumam ocorrer durante os meses de julho e agosto.

Curiosamente, o estudo revela que o número de episódios de intrusão de poeiras não aumentou de forma significativa. O que mudou foi a concentração média destas partículas, que é hoje superior à registada há uma década.

Consequências para a saúde

A presença destas partículas na atmosfera está associada a vários riscos para a saúde.

Os autores estimam que, durante os episódios de intrusão de poeiras no sul da Europa, exista:

Um aumento de cerca de 0,67% da mortalidade diária;

Um crescimento de 0,73% dos internamentos por doenças respiratórias em pessoas com mais de 15 anos;

Nas crianças até aos 14 anos, um aumento estimado de 2,55% dos internamentos por problemas respiratórios.

Estes valores correspondem a estimativas regionais baseadas em estudos epidemiológicos e não representam números específicos para Portugal.

Também afeta a produção de energia solar

As consequências não se limitam à saúde. A poeira reduz a quantidade de radiação solar que chega à superfície e acumula-se sobre os painéis fotovoltaicos, diminuindo a sua eficiência e reduzindo a produção de eletricidade.

Os investigadores defendem que previsões mais precisas destes episódios poderão ajudar os operadores das redes elétricas e dos parques solares a antecipar perdas de produção e a melhorar a gestão da rede.

Alterações climáticas podem estar a contribuir

O estudo aponta como principal causa o aumento da aridez e da degradação dos solos no Norte de África, bem como alterações na circulação atmosférica.

Os cientistas admitem que as alterações climáticas induzidas pela atividade humana poderão estar a favorecer estas condições, embora sublinhem que ainda não existe evidência suficiente para quantificar com precisão a sua influência direta neste fenómeno.

Fonte: Pplware, 21 de julho de 2026

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