Porque é que Jared Kushner é peça-chave no plano da UE para Gaza?
Na segunda-feira, dezenas de ministros dos Negócios
Estrangeiros de todo o mundo reuniram-se para discutir a reconstrução de Gaza
sob a égide do Grupo de Doadores da Palestina (PDG na sigla em inglês). Entre
eles esteve, por videoconferência, um controverso empresário norte-americano
sem qualquer cargo oficial no governo, mas que, na prática, é quem está a
comandar o processo.
A participação de Jared Kushner, genro do presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, tem um peso
significativo, disseram à Euronews várias pessoas
familiarizadas com o assunto.
Kushner é uma peça-chave no esforço internacional para
reconstruir a Faixa de Gaza. Desempenha um papel central no Conselho da Paz
(BoP na sigla em inglês), o órgão controverso presidido por Trump que deverá
supervisionar a reconstrução de Gaza com poderes quase ilimitados.
A UE não aprova o BoP e não quer conferir-lhe legitimidade,
mas, de uma forma ou de outra, todos os que pretendem operar em Gaza têm de
lidar com Kushner.
Influência, não dinheiro
Segundo diplomatas, a intervenção de Kushner na reunião do
grupo de doadores foi limitada. O responsável destacou sobretudo o papel dos
Estados Unidos na reconstrução de Gaza, elogiou a cooperação com outros países
e insistiu na necessidade de desarmar o Hamas como primeiro passo para arrancar com a
recuperação da faixa.
Um diplomata da UE descreveu o discurso como “muito
ensaiado” e não particularmente substancial, mas a sua mera presença
representou um avanço importante para os planos europeus na região. A
explicação é simples: qualquer iniciativa
europeia em Gaza terá inevitavelmente de interagir com representantes do
Conselho da Paz.
Durante a conferência, o PDG lançou um novo programa que
reúne países da UE e de fora da UE para disponibilizar 883,6 milhões de euros
em contribuições financeiras para “ações de recuperação precoce” destinadas a
apoiar a população civil de Gaza.
França, Alemanha, Reino Unido e Japão prometeram
financiamento, a par da Comissão Europeia, do Banco Europeu de Investimento e
do Banco Mundial. Austrália, Canadá e Irlanda deverão anunciar contribuições
adicionais nos próximos dias.
A iniciativa continua, no entanto, muito aquém do custo
estimado da reconstrução de Gaza na próxima década, que a UE e as Nações Unidas
calculam em cerca de 71 mil milhões de dólares.
Os Estados Unidos não aderiram ao programa, que, insistem
responsáveis europeus, “não concorre” com o plano de reconstrução a longo prazo
do Conselho da Paz de Trump.
Cada parceiro poderá canalizar o seu financiamento através
do mecanismo da sua escolha. No entanto, responsáveis da UE afastaram a
hipótese de os Estados-membros financiarem projetos através de contas bancárias
controladas pelo conselho.
Vitória de Šuica
Kushner foi convidado para a conferência pela comissária
europeia para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, que investiu um esforço
diplomático significativo em construir laços com ele desde a primeira – e até
agora única – reunião do Conselho da Paz, em fevereiro passado, em Washington.
Nessa altura, Šuica foi amplamente criticada por participar,
na qualidade de observadora, no polémico encontro inaugural, tendo o ministro
francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, chegado mesmo a afirmar
que ela não tinha mandato para representar a UE.
Mas a visita acabou por dar frutos. Segundo um responsável
europeu, a capacidade de Šuica para
estabelecer relações foi decisiva para garantir a participação
de Kushner nove meses depois.
Enquanto os Estados Unidos declinaram participar na anterior
reunião do grupo de doadores, em novembro passado, o genro de Trump aceitou o
convite, o que, segundo um diplomata de um país não pertencente à UE, não é um
feito menor.
Embora a UE não tenha apoiado o Conselho da Paz – que, até
agora, atraiu apenas um número limitado de Estados-membros –, Bruxelas procura
evitar a confrontação.
“Só um esforço coletivo pode ajudar a reconstruir Gaza”,
afirmou Šuica após a reunião, sublinhando a necessidade de cooperação entre
todos os atores presentes no terreno. No dia seguinte, encontrou-se também em
Bruxelas com Nickolay Mladenov, o antigo ministro búlgaro dos Negócios
Estrangeiros que é agora alto representante do BoP para Gaza, sinal de que o
diálogo com o órgão continua.
A ponte de Kushner para Israel
A importância de Kushner reside também na capacidade de reforçar contactos
com Israel, que tem a última palavra sobre quaisquer projetos de
reconstrução em Gaza.
Foi enviado de Trump para a paz, ajudou a negociar um
cessar-fogo entre Israel e o Hamas em Gaza no ano passado e desempenhou funções
de principal negociador dos Estados Unidos nos Acordos de Abraão de 2020, que
normalizaram as relações diplomáticas entre Israel e vários países de maioria
muçulmana, como Marrocos e os Emirados Árabes Unidos.
Os governos do Médio Oriente continuam a ver os Estados
Unidos como a única potência global com influência suficiente sobre Israel para
desbloquear progressos no terreno.
Na segunda-feira, Šuica anunciou os dois primeiros projetos
de recuperação a serem implementados em Gaza com
aprovação israelita, centrados nas infraestruturas de abastecimento
de água e na gestão de resíduos sólidos. Responsáveis da UE esperam que se
sigam mais projetos.
A UE continua a ser o maior doador de ajuda humanitária ao
povo palestiniano, tendo contribuído com 1,65 mil milhões de euros para os
territórios palestinianos desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, a 7
de outubro de 2023. Desde 1994, o bloco já disponibilizou cerca de 30 mil
milhões de euros em apoio à Palestina, de acordo com dados da Comissão
Europeia.
Fonte: Euronews, 15 de julho de 2026

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