Rei Zulu apela à imigração ordenada e nega que a África do Sul seja xenófoba
O rei Misuzulu kaZwelithini,
líder dos zulus, o principal grupo étnico da África do Sul, apelou a uma
imigração ordenada em África e negou que o seu país seja xenófobo, na sequência
dos ataques contra migrantes africanos em situação irregular.
O monarca, que representa mais de 10 milhões de pessoas que
vivem principalmente na província de KwaZulu-Natal (leste), fez estas
declarações após se ter reunido na segunda-feira, em Harare, com o presidente
do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, cujo
país tem sido afetado pelo repatriamento de milhares de cidadãos que fugiam dos
ataques xenófobos na África do Sul, segundo noticiaram hoje os meios de
comunicação locais.
"Toda a pessoa que entra legalmente noutro país, cumpre
as suas leis, contribui positivamente para a sociedade e respeita as
instituições dessa nação deve ser sempre tratada com dignidade", sublinhou
o monarca, que abordou com Mnangagwa a crise dos recentes protestos
anti-imigração no seu país.
"No entanto, a entrada ilegal, a falsificação de
documentos, o tráfico organizado de pessoas e as violações deliberadas da
legislação em matéria de imigração são questões de justiça penal e de
administração pública, não questões de raça ou
nacionalidade", referiu.
O rei Misuzulu destacou os laços históricos entre as nações
da África Austral, sublinhando que a história do seu povo transcende as
fronteiras da África do Sul.
"A identidade africana nunca se limitou às fronteiras
coloniais, e a nossa ascendência comum deve inspirar respeito mútuo. Nunca deve
ser utilizada para justificar o incumprimento das leis de imigração de nações
soberanas", argumentou o monarca.
O rei considerou também "inexato
apresentar os sul-africanos como um povo que odeia os africanos".
Na sua opinião, "ao longo de gerações, os sul-africanos têm acolhido de braços abertos estudantes, empreendedores, profissionais,
investidores, refugiados e visitantes de todo o continente".
O rei Zulu estava acompanhado por outro monarca tradicional
sul-africano, Ndamase Ndamase, líder
do reino de Amampondo, na província do Cabo Oriental (leste).
"Não estamos a dizer que os imigrantes ilegais estejam
a agir corretamente ao entrar ilegalmente na África do Sul, mas a xenofobia e a
violência não são algo que os líderes reais da África do Sul desejem",
afirmou o rei Ndamase.
Mais de 53 000 estrangeiros — na sua maioria malauianos, zimbabueanos e
moçambicanos — foram alvo de processos para deportação e repatriamento da
África do Sul, numa tentativa de combater a migração irregular e no meio de uma
escalada de tensão devido à onda de ataques xenófobos dos últimos meses,
anunciou no domingo o governo sul-africano.
Moçambique, a violência xenófoba matou 11 moçambicanos,
segundo dados do governo, que tem agora outros dois cidadãos gravemente feridos
num ataque armado realizado no passado dia 7 na província sul-africana de
Gauteng, associado à violência contra imigrantes, segundo o Gabinete de
Informação de Moçambique (Gabinfo).
Moçambique, que tem
cerca de 300 000 cidadãos residentes na África do Sul, recebeu 1363 cidadãos
repatriados vítimas da violência, além de 6156 malauianos que entraram no país
em trânsito afetados pela mesma situação.
A tensão na África do Sul tem vindo a aumentar nos últimos meses devido a uma onda de ataques xenófobos e protestos anti-imigração, que culminou no passado dia 30 de junho, quando milhares de pessoas saíram às ruas numa data que os organizadores tinham definido como prazo limite para que os imigrantes indocumentados abandonassem o país.
Os grupos anti-imigração
culpam os migrantes africanos pelos problemas económicos do país, pela
prestação deficiente de serviços públicos e pelas elevadas taxas de
criminalidade, tendo chegado ao ponto de impedir o acesso destes a
cuidados de saúde e à educação em instalações públicas.
O governo sul-africano condenou estes ataques, mas
reivindicou o seu direito de travar a imigração irregular.
Fonte: Lusa, 14 de julho de 2026

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