Rodeada por cães de caça. Os bastidores da fotografia que corre o mundo

Uma fotografia de uma mulher afroamericana rodeada por membros do grupo supremacista branco Frente Patriótica tem estado a correr o mundo. Eis os bastidores da imagem

Uma fotografia de uma mulher afroamericana rodeada por membros do grupo supremacista branco Frente Patriótica tem estado a correr o mundo. Aliás, quando a imagem chegou ao feed da rede social Instagram de Paul Bowlding, o homem não resistiu a fazer zoom na única cara destapada. Afinal, tratava-se da sua irmã, Bernita Bowlding.

Na fotografia, captada no dia em que se assinalou o 250.º aniversário da independência dos Estados Unidos, a 4 de julho, a jovem de 33 anos encontra-se sentada num banco de uma carruagem lotada, a olhar de forma impassível para a câmara. À sua volta, membros do movimento Frente Patriótica com os rostos tapados seguem de pé e sentados, no metro de Washington D.C.

“É como se estivesse rodeada por cães de caça”, considerou Paul Bowlding, em declarações ao The Washington Post.

Naquele dia, a mulher, que é mãe de dois filhos, tinha informado um familiar que apanharia o comboio para Silver Spring. A família passou horas sem notícias, uma vez que, segundo disse a mãe de Bernita Bowlding ao mesmo meio, a filha perdeu o telemóvel e é normal terem de esperar até que ligue ou dê sinais de vida. No entanto, Paul Bowlding confessou ter ficado preocupado, porque há anos que a irmã luta contra doenças mentais. Pensou, inclusive, em ir à procura dela, mas não sabia onde é que poderia estar.

Ainda que a imagem esteja a ser amplamente partilhada e analisada na Internet enquanto símbolo do estado atual do país, com resquícios do movimento pelos direitos civis e do racismo associado à época, houve quem divulgasse a identidade da mulher, que acabou por ser criticada devido a uma detenção anterior. Importa salientar, contudo, que os registos judiciais indicam que a acusação foi posteriormente arquivada. Paul Bowlding assumiu, por isso, temer que a irmã se tornasse um alvo, e adiantou que as dificuldades por si enfrentadas no passado, incluindo a detenção, ocorreram quando se encontrava numa crise de saúde mental.

No domingo de manhã, Bernita Bowlding apareceu em casa da mãe, quase um dia depois de ter sido vista na carruagem do metro. A fotografia, essa, não foi mencionada.

Paul Bowlding e a irmã nasceram e cresceram em Washington. Apesar de terem um ano de diferença, ele protege-a como se fosse ela a mais nova. O homem assinalou até que a irmã é reservada e forte, o que lhe transparece na fotografia.

“Vejo-a como um exemplo a seguir, que transmite às pessoas… ‘Vai ficar tudo bem, porque Deus está connosco’”, disse.

Já na terça-feira de manhã, a família deu conta de que não tinha notícias da jovem desde que saiu para ir à igreja e às compras, no domingo.

O outro lado da objetiva

Na manhã de sábado, o fotógrafo Nathan Howard, da agência Reuters, deparou-se com relatos nas redes sociais de que a Frente Patriótica estava a percorrer a cidade. Decidiu, por isso, documentar as ações do grupo, com o colega freelancer Cheney Orr a seu lado.

“Sabendo que o tempo jogava contra nós, comecei imediatamente a recolher informações sobre a marcha e a falar com fontes que acompanham grupos extremistas. Encontrei uma transmissão ao vivo a seguir o grupo, publicações nas redes sociais de pessoas que os tinham encontrado e publicações no Reddit que ajudaram a identificar pontos de referência e sinais de trânsito, permitindo-me delimitar a sua localização aproximada”, contou.

A dado momento, a dupla deparou-se com centenas de membros do coletivo a dirigir-se para a estação de metro Eastern Market, assumindo posições nas duas extremidades de uma carruagem. Entre o mar de camisas azul-marinho, calças de caqui e máscaras brancas, uma mulher de t-shirt verde destacou-se.

“Enquanto fotografava os membros do grupo, reparei na mulher que se vê nesta imagem, sentada sozinha no meio deles. Inclinei-me sobre os membros da Frente Patriótica que estavam sentados, estiquei o braço e compus o enquadramento utilizando o ecrã da minha câmara”, explicou.

Na última paragem, em New Carrollton, os elementos do grupo desembarcaram e dirigiram-se para os seus veículos. Orr disse que não viu para onde é que a mulher da fotografia foi.

Fonte: Notícias ao Minuto, 11 de julho de 2026

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