Troca de favores. Infantino instado a explicar-se ao Congresso sobre laços com Trump
O democrata Jamie Raskin, que integra o Comité de Justiça da
Câmara dos Representantes, pretende que a FIFA
destape eventuais registos de contactos com o presidente norte-americano, a
Administração republicana ou negócios de família. A controvérsia em
torno da relação entre Gianni Infantino e Donald Trump continua a extravasar o
calendário do Mundial de futebol, jogando-se agora nos corredores do Congresso
dos Estados Unidos. Depois de o democrata Jamie Raskin, do Comité de Justiça da
Câmara dos Representantes, ter denunciado o que entende ser um caso de “suborno
explícito”, com epicentro na Casa Branca, o presidente da FIFA lançou-se contra
os detratores e rejeitou “boatos falsos”.
“Não houve violência, nem
incidentes; segurança total – 100% -, apenas alegria e felicidade!”.
A exclamação pertence a Gianni Infantino. Consta de uma mensagem publicada na
segunda-feira, em 15 slides, na conta do presidente da FIFA no Instagram – e
repercutida na conta do organismo que gere o futebol mundial.
A mensagem do número um da FIFA faz igualmente referência à
polémica suscitada pelo caso da suspensão de um jogo aplicada ao atacante
norte-americano Folarin Balogun. Decisão revertida pelo comité disciplinar da
FIFA sem mais explicações. Trump afirmaria, na sequência da reversão, ter
contactado Infantino com vista a pedir a revisão da suspensão de Balogun.
“É compreensível a insatisfação com algumas decisões tomadas
pelas autoridades competentes, mas peço que consultem os registos públicos: tais decisões são comuns em algumas das ligas mais
importantes”, escreveu Infantino.
“De facto, decisões arbitrais discutíveis ou decisões
disciplinares estranhas - como, por exemplo, cartões vermelhos ou amarelos
potencialmente equivocados ou decisões posteriores de não suspender jogadores
em certas situações - são rotineiras e amplamente aceites em algumas das
maiores ligas do mundo”, insistiu.
Justificações aparentemente insuficientes para demover o
congressista democrata do Maryland Jamie Raskin, que quer ver o presidente da
FIFA a explicar-se diante do Comité de Justiça da Câmara dos Representantes –
objetivo dificultado, porém, pelo facto de os democratas serem a força
minoritária.
“Troca de favores”
Raskin instou já Infantino a revelar ao Congresso “uma lista
de quaisquer itens de valor (incluindo transferências de dinheiro, presentes,
prémios, distinções ou aparições públicas) concedidos ao presidente Trump, a
membros da sua Administração, a seus familiares ou a qualquer entidade
associada a estes, como a Trump Organization”.
Recorde-se que Trump e Infantino mantiveram contactos
próximos na antecâmara do Mundial, tendo mesmo sido atribuído ao presidente dos
Estados Unidos, em 2025, o primeiro Prémio da Paz da FIFA. Uma distinção
“ridiculamente falsa”, na avaliação de Jamie Raskin.
“Vocês alugaram um escritório
no 17.º andar da Trump Tower - um espaço que poderia custar 600 mil dólares por
ano no mercado - embora fosse utilizado apenas durante o período de 39 dias do
Campeonato do Mundo. Isto equivale a mais de 15 mil dólares por dia. Estas
ações parecem ter sido planeadas para induzir o presidente Trump e a sua
Administração a tomarem decisões favoráveis à FIFA”, argumenta o
legislador democrata, em carta remetida no passado domingo a Infantino.
A carta de Jamie Raskin fixa o prazo de 9 de agosto para o
fornecimento dos documentos pedidos e o agendamento do depoimento.
A carta de Raskin alude ainda à decisão,
por parte do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, de “retirar as
acusações” em investigações sobre alegada corrupção no futebol mundial,
incluindo o processo desencadeado em 2015 contra mais de duas dezenas de altos
quadros da FIFA e gestores de marketing desportivo.
“A sua eleição para a presidência da FIFA deveria ter
marcado uma rutura definitiva - como um cartão vermelho - com uma cultura de
corrupção e escândalos que perdurava há décadas e manchava a reputação do
futebol mundial”, escreve Raskin na missiva, cujo teor é citado pelas agências
e jornais internacionais.
“Em vez disso, logo no início da sua gestão, desmontou os
mecanismos de salvaguarda ética da FIFA e neutralizou o comité de ética da
organização ao afastar a maior parte dos seus membros. Essa falta de
transparência e supervisão abriu caminho para que buscasse o favor da
Administração Trump por meio de táticas que um professor de direito da
Universidade de Nova Iorque e um ex-integrante do seu comité de ética
descreveram como suborno legal”.
“A mais recente troca de favores orquestrada pela FIFA e
pelo presidente Trump não é um crime sem vítimas. Ela prejudica os americanos.
A FIFA interpretou o status privilegiado que conquistou junto da Administração
Trump como um sinal de que poderia explorar seus consumidores - notoriamente, ao empregar práticas ilegais de preços abusivos e táticas
de venda fraudulentas para o Campeonato do Mundo”, acusa o
congressista.
No decurso do Mundial, acumularam-se os problemas com o
acesso de algumas equipas e adeptos à competição - Irão, Haiti, Senegal e Costa
do Marfim foram exemplos. O capitão da seleção iraniana, Mehdi Taremi, resumiu
mesmo o Mundial como um “desastre”. Recorde-se que a comitiva do Irão viu-se
forçada a estabelecer o seu quartel-general no México.
A par dos líderes de Canadá e México, Donald Trump juntou-se
a Gianni Infantino para a entrega do troféu do Mundial, depois do triunfo da
Espanha sobre a Argentina, na final. Foram ambos vaiados pelo público no
estádio de Nova Iorque-Nova Jérsia.
A par do processo liderado por Raskin, decorre uma
investigação dos procuradores-gerais de Nova Iorque, Nova Jérsia, Texas e
Califórnia sobre os preços dos bilhetes para o Mundial.
O porta-voz da Casa Branca Davis Ingle veio já responder à
carta do congressista democrata em comunicado divulgado pela publicação The
Athletic, do New York Times: “O insignificante Jamie Raskin é a ideia
que uma pessoa estúpida faz de uma pessoa inteligente. Nenhum outro presidente
na história teria conseguido realizar a façanha histórica que o presidente
Trump proporcionou ao povo americano e ao mundo”.
“Graças à sua visão ousada e liderança decisiva, o Campeonato do
Mundo da FIFA de 2026 gerou milhares de milhões de dólares em receitas,
impulsionou enormemente a economia das cidades-sedes e proporcionou uma
experiência segura e tranquila para milhões de adeptos e atletas de todo o
mundo. Sem dúvida, o evento ficará marcado na história como um dos maiores e
mais bem-sucedidos eventos desportivos de todos os tempos”,
rematou.
Fonte: RTP, 28 de julho de 2026
Donald Trump e Gianni Infantino enfrentam investigação
do Congresso dos EUA
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, desencadeou uma nova
vaga de controvérsia ao fazer uma defesa veemente do Campeonato do Mundo de
2026, ao mesmo tempo que se tornou alvo de uma investigação do Congresso dos
Estados Unidos devido aos seus alegados laços com o ex-presidente
norte-americano Donald Trump.
Infantino publicou uma declaração inesperada no site oficial
da FIFA e uma sequência de 15 diapositivos na sua conta de Instagram, na qual
atacou duramente os críticos da competição. Afirmou que aqueles que
escrutinavam o torneio estavam «consumidos pelo
ódio» e exortou-os a «meditar, rezar ou assistir a um jogo de
futebol» para «encontrarem a paz».
O presidente da FIFA garantiu que o Campeonato do Mundo de
2026, realizado na América do Norte, decorreu sem «qualquer ato de violência,
sem incidentes e com 100% de segurança e proteção». A declaração suscitou de
imediato críticas, tendo em conta os relatos de quatro adeptos que morreram
tragicamente durante as celebrações do Mundial na Cidade do México. Infantino
defendeu igualmente a atuação da FIFA relativamente à seleção do Irão, às
questões relacionadas com vistos e ao caso do cartão vermelho mostrado a
Folarin Balogun.
A sua postura desafiante motivou uma resposta rápida e
contundente do presidente da La Liga, Javier Tebas. «Hoje, Gianni Infantino publicou uma mensagem patética na sua conta de Instagram e nas contas oficiais
da FIFA», escreveu Tebas na rede social X, acrescentando: «Ninguém põe em causa
que o futebol seja emoção e união. Mas a transparência, a boa governação e a
responsabilização nunca são ódio; são uma obrigação. As instituições fortes não
desacreditam quem faz perguntas; respondem-lhes. E deixo uma reflexão, Gianni:
quando um líder dedica uma mensagem inteira a desqualificar quem exerce um
escrutínio legítimo, é inevitável perguntar... porquê precisamente agora? Há
alguma razão para um tom tão defensivo? Está a acontecer alguma coisa que
desconhecemos?»
Escrutínio do Congresso sobre as ligações a Trump
A agravar a situação de Gianni Infantino, Jamie Raskin, o
principal democrata da Comissão Judiciária da Câmara dos Representantes, abriu
uma investigação formal ao presidente da FIFA, segundo o The Guardian.
Raskin pretende obter documentos que detalhem as ligações entre a FIFA e Donald
Trump e a sua Administração, tendo solicitado que Infantino preste declarações,
sob transcrição, até 9 de agosto.
A investigação aponta para vários aspetos considerados
preocupantes na relação entre Infantino e Trump:
• A FIFA inaugurou um escritório na Trump
Tower, no centro de Manhattan, em julho do ano passado.
• Trump recebeu um recém-criado «Prémio da
Paz da FIFA» no Kennedy Center, em dezembro, durante o sorteio do Campeonato do
Mundo realizado em Washington.
• Trump terá telefonado várias vezes a
Infantino para pressionar a FIFA a rever a controversa suspensão, por cartão
vermelho, do avançado norte-americano Folarin Balogun antes do encontro dos
oitavos de final frente à Bélgica. Posteriormente, a FIFA revogou a suspensão
de Balogun. A Federação Norueguesa de Futebol prepara agora uma queixa formal
junto da Comissão de Ética da FIFA sobre o alegado papel de Trump nesta
decisão.
• Trump, juntamente com os líderes do Canadá
e do México, acompanhou Infantino na cerimónia de entrega do troféu do
Campeonato do Mundo, após a vitória da Espanha sobre a Argentina na final.
Trump e Infantino assistiram ao jogo decisivo lado a lado numa tribuna de luxo
e foram recebidos com vaias quando entraram no relvado do New York New Jersey
Stadium.
A carta de Raskin refere igualmente a decisão do
Departamento de Justiça norte-americano de retirar as acusações contra alguns
arguidos envolvidos nas investigações do governo dos Estados Unidos sobre
corrupção no futebol mundial. Além disso, aborda a política de venda de
bilhetes da FIFA para o Campeonato do Mundo, alvo de críticas devido ao sistema
de preços dinâmicos, que provocou aumentos significativos dos preços e afastou
muitos adeptos. O modelo está já a ser investigado por vários
procuradores-gerais estaduais nos Estados Unidos.
Na carta, Raskin não mede as palavras: «O mais recente quid
pro quo orquestrado pela FIFA e pelo Presidente Trump não é um crime sem
vítimas. Prejudica os cidadãos norte-americanos. A FIFA interpretou o seu
recém-adquirido estatuto privilegiado junto da Administração Trump como um
sinal de que podia enganar os consumidores, recorrendo, em particular, a preços
abusivos ilegais e a práticas fraudulentas na venda de bilhetes para o
Campeonato do Mundo.»
A eleição de Infantino deveria representar uma rutura com
décadas de corrupção na FIFA. No entanto, Raskin recorda que, no início do seu
mandato, o dirigente «desmantelou os mecanismos de salvaguarda ética da FIFA e
esvaziou de funções a comissão de ética da organização, afastando a maioria dos
seus membros». Segundo o congressista, essa decisão «abriu caminho para que
procurasse conquistar o favor da Administração Trump através de práticas que um
professor de Direito da Universidade de Nova Iorque e um antigo membro da
comissão de ética da FIFA classificaram como “suborno legal”».
Embora mais de 200 federações nacionais tenham apoiado a
recandidatura de Infantino antes da eleição presidencial da FIFA, realizada em
março, a crescente pressão exercida pela investigação do Congresso dos Estados
Unidos e as críticas públicas de figuras influentes do futebol, como Javier
Tebas, anunciam um período particularmente difícil para o presidente da FIFA.
Fonte: Lente Desportiva, 28 de julho de 2026

Comentários
Enviar um comentário