Trump chamou-lhes “animais” e “insurretos”. Agora, quase metade dos processos por ataques a agentes do ICE cai em tribunal
iCarly
(2007–2012) - Jennette McCurdy, Miranda Cosgrove
Tatyana Reisini procurava uma esquadra enquanto dois
automóveis sem identificação a seguiam pelas ruas de Charlotte, na Carolina do
Norte.
Aproximavam-se nos semáforos, tentavam colocar-se à frente
do carro e não a deixavam escapar. Ao seu lado estava Kristen Roos. As duas
mulheres, mães de crianças pequenas, mantinham-se ao telefone com o número de
emergência e tentavam explicar à operadora o que estava a acontecer. “Estão
literalmente a seguir-me. Estão a intimidar-nos.”
Tinham saído de casa nessa manhã de novembro para visitar um
mercado de Natal. Pelo caminho, viram agentes federais de imigração num centro
comercial ao ar livre e juntaram-se a um grupo que observava a operação e
gritava na direção dos agentes. Reisini, cidadã norte-americana de ascendência
equatoriana, e Roos faziam parte de uma rede de mães que acompanhava as ações
contra imigrantes e avisava a comunidade sempre que os veículos federais
apareciam.
Quando retomaram a viagem, perceberam que estavam a ser
perseguidas. A operadora do 911, o número de emergência nos Estados Unidos,
recomendou-lhes que procurassem uma esquadra ou uma bomba de gasolina, mas a
tentativa de chegar a um lugar seguro terminou numa rua sem saída. Os dois
automóveis fecharam-lhes a passagem. “Precisamos de ajuda agora. Eles vão
magoar-nos.”
Um agente aproximou-se da janela da condutora e começou a
parti-la com o cano da espingarda, apontado na direção de Reisini. Um morador
registou a cena em vídeo.
Na gravação da chamada para o 911 ficaram os gritos das mulheres e a breve troca de palavras que se seguiu. “Não fizemos nada, não fizemos nada.” Do lado de fora chegou a resposta: “Fizeram, sim. Impediram-nos. Secção 111 do título 18 [do Código dos Estados Unidos]. Condução errática”.
Reisini e Roos foram retiradas do carro, algemadas e
transportadas para as instalações locais do FBI, a polícia federal
norte-americana. Horas depois, saíram acusadas ao abrigo de uma lei destinada a
punir quem agride ou impede pela força um funcionário federal.
Gregory Bovino, responsável pela operação de imigração em
Charlotte, partilhou, entretanto, uma publicação de uma conta de
extrema-direita que classificava as duas mulheres como “terroristas liberais” e celebrou aquilo a que
chamou “excelentes detenções por agressão”.
O Ministério Público acabaria por retirar as acusações.
A história das duas mães é uma das mais de 550 reconstruídas
pelo New York Times numa investigação sobre a forma como a administração de Donald Trump tem utilizado a justiça
criminal durante a ofensiva nacional contra a imigração. O jornal
consultou documentos judiciais, transcrições de audiências e vídeos de dezenas
de encontros que terminaram em detenções.
Dos mais de 400 casos já encerrados, 213 — quase metade —
desmoronaram-se. Houve absolvições, acusações anuladas pelos tribunais e
processos abandonados pelos procuradores. Apenas quatro pessoas foram
condenadas por um júri. Das outras 22 que chegaram a julgamento, todas foram
absolvidas.
O resultado está muito abaixo do habitual na justiça federal
norte-americana, onde mais de 90% dos arguidos acabam por se declarar culpados
ou ser condenados. A investigação encontrou
agentes que iniciaram o confronto físico, versões oficiais incompatíveis com as
imagens, provas ocultadas ou destruídas e dezenas de acusações retiradas antes
de o governo ser obrigado a sustentá-las perante um juiz ou um grande júri.
No centro da ofensiva está a secção 111 do título 18 do
Código Penal norte-americano, que pune quem agride, resiste ou impede pela
força um funcionário federal. As penas variam consoante exista contacto físico,
ferimentos ou utilização de armas — e podem atingir os 20 anos de prisão.
Durante décadas, a lei foi aplicada de forma relativamente
limitada. Uma das grandes exceções ocorreu depois do ataque ao Capitólio de 6
de janeiro de 2021, quando serviu para acusar centenas de apoiantes de Trump
que enfrentaram agentes policiais.
Com o regresso do republicano à Casa Branca e o aumento da
resistência às operações migratórias, a administração passou a fazer uma
leitura muito mais ampla da mesma norma para deter pessoas que interferiam com
o ICE, o Serviço de Imigração e Alfândegas, ou com a Patrulha Fronteiriça.
Mais de duas dezenas foram
acusadas depois de filmarem ou seguirem equipas federais, buzinarem, soprarem
apitos ou gritarem avisos como “a imigração está a chegar”. Em
nenhum desses casos existia sequer a alegação de contacto físico com os
agentes.
Em mais de 100 processos, os procuradores não sustentaram
que algum funcionário federal tivesse ficado ferido. Noutros, as lesões tinham sido provocadas pelos próprios agentes
ou por colegas. Um juiz anulou a acusação contra um imigrante ao
concluir que o agente envolvido se cortara nos fragmentos de uma janela que ele
próprio tinha partido.
Sessenta e cinco processos foram retirados ou reduzidos
antes do prazo para que o Ministério Público apresentasse as provas a um juiz
ou a um grande júri, uma sucessão de recuos que antigos procuradores federais
consideram invulgar.
A administração norte-americana rejeita a conclusão de que
as acusações foram apresentadas sem fundamento. O Departamento de Segurança
Interna atribui o aumento dos processos a um crescimento “maciço” da violência
e das ameaças contra as forças federais, enquanto o Departamento de Justiça
considera correto que os procuradores responsabilizem os suspeitos “até ao
limite máximo da lei”.
Bovino, uma das figuras mais visíveis e agressivas da
ofensiva migratória, considera que o problema foi precisamente o contrário:
houve poucas acusações e demasiados procuradores perderam a coragem antes de
levar os processos até ao fim. “Fomos excessivamente criteriosos na escolha de
quem acusámos ao abrigo da secção 111 do título 18.”
A investigação encontrou, porém, dezenas de situações em que
foram os agentes a iniciar o contacto físico.
Quentin Williams, assistente de educação especial numa escola de Minneapolis, aproximou-se de um grupo que observava uma operação federal dentro do recinto escolar. Algumas pessoas filmavam, outras gritavam — e os vídeos mostram Bovino a correr na direção de Williams e a empurrá-lo. Na confusão, os agentes agarraram o funcionário pelo cabelo, atiraram-no ao chão e, segundo o relato que escreveu ainda nesse dia, apertaram-lhe o pescoço: “Não consegui deixar de pensar em George Floyd. Tive medo de morrer”.
Bovino apresentou Williams como parte de um grupo de “desordeiros e anarquistas” que se recusava a
cumprir ordens policiais.
O funcionário foi detido e libertado no mesmo dia, mas duas
semanas depois apareceu entre 16 pessoas acusadas de impedirem agentes
federais. Uma declaração prestada sob juramento alegava que tentara agarrar e
levantar do chão um elemento da Patrulha Fronteiriça. As imagens examinadas
pelo New York Times não mostravam esse gesto. O crime foi primeiro
reduzido a uma infração menor e, mais tarde, o processo foi abandonado.
Em mais de 20 casos perdidos ou retirados pelo governo,
imigrantes e manifestantes sustentaram que
aquilo que a acusação descrevia como agressão fora, na verdade, uma tentativa
de defesa contra a força iniciada pelos agentes.
Jaime Diaz, um hondurenho sem documentos, foi acusado de atingir um elemento da Patrulha Fronteiriça “duas ou três vezes” durante uma operação rodoviária no Texas. No julgamento, as imagens da câmara corporal mostraram o homem, de baixa estatura, a ser agarrado pelo pescoço, derrubado e atingido a soco por um agente muito maior.
O júri absolveu Diaz, que ficou depois sujeito a deportação.
O advogado Roberto Balli viu nas imagens uma inversão dos
papéis habituais: “Antigamente, com base nestas câmaras corporais, seria este
agente a poder ser acusado. Em vez disso, processaram o meu cliente”.
Os tribunais encontraram ainda problemas que iam além do uso
da força. Em mais de 30 casos, os juízes
criticaram agentes ou procuradores por ocultarem ou destruírem provas, violarem
regras processuais ou apresentarem versões falsas e exageradas, algumas
diretamente contrariadas pelos vídeos.
Ariana Guadalupe Garcia, norte-americana de 19 anos, foi
detida numa passagem fronteiriça em Laredo depois de tentar falar com uma
sobrinha pequena que estava retida numa zona de inspeção.
Durante o confronto com quatro agentes, tirou pelo menos uma
fotografia com o telemóvel. A acusação sustentaria mais tarde que a jovem
atingira dois funcionários. Garcia negou qualquer agressão. Depois da detenção,
um agente ordenou-lhe que apagasse a fotografia e observou enquanto a eliminava
definitivamente.
O processo começou a desmoronar-se quando o juiz perguntou
de que forma pretendia o governo provar os golpes alegados, sobretudo porque as
imagens de segurança captadas imediatamente antes não mostravam qualquer
comportamento violento.
A fotografia destruída acabou com o resto da acusação. “O governo
agiu de má-fé ao destruir as provas”, concluiu o tribunal, para o qual a
atuação dos agentes demonstrava ainda que os direitos constitucionais de Garcia
tinham sido violados.
No discurso de Trump e dos responsáveis pela ofensiva
migratória, os detidos foram apresentados como “animais”, “bandidos” e
“insurretos”. Nos tribunais, contudo, os processos revelaram uma realidade
menos linear: agentes que iniciaram confrontos, acusações sem feridos,
depoimentos contrariados por vídeos e procuradores que desistiram antes de
terem de mostrar as provas. Mais de 550 pessoas foram levadas perante a justiça
federal. Em quase metade dos processos já concluídos, porém, foi a acusação que
não conseguiu permanecer de pé.
Fonte: CNN Portugal, 18 de julho de 2026

Comentários
Enviar um comentário