Trump está focado numa "ameaça inexistente" da extrema-esquerda. "É importante que os países resistam à pressão"
A um mês de o governo dos EUA organizar um encontro com representantes de cerca de 70 países
dedicado à ameaça do “terrorismo de extrema-esquerda”, o
Departamento de Estado enviou um comunicado a mais de 20 embaixadas em
Washington DC – da Argentina ao México, passando por Itália e Albânia – a
solicitar informações sobre grupos de extrema-esquerda a atuar nos seus
territórios.
O memorando de meados de junho, noticiado pelo Washington
Post com base em duas fontes com conhecimento do assunto, obteve resposta
de “várias” das embaixadas contactadas, mas “nenhuma indicou concordar com a
avaliação do governo sobre a ameaça”, adiantou uma das fontes. Esse documento
surgiu após uma série de iniciativas com o mesmo intuito que, segundo o jornal
norte-americano, redundaram em baixa participação e nenhuma conclusão concreta.
Já este mês, a 16 de julho, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, inaugurou a reunião ministerial dedicada ao “ressurgimento do terrorismo político” com o aviso de que a violência de extrema-esquerda “já não pode ser negada”, apelando aos governos para tratarem o radicalismo de esquerda como uma prioridade de contraterrorismo e classificando-o como “um ressentimento venenoso disfarçado pela linguagem de igualdade e justiça”.
Como outros países, Portugal
acedeu ao convite mas fez-se representar apenas pela embaixada em DC,
sem ministro nem secretário de Estado. Um mês antes, o novo ministro português
da Administração Interna e ex-diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), Luís
Neves, tinha sido ouvido no Parlamento – e quando questionado pelo deputado da
IL Rui Rocha sobre quem representa a maior ameaça, se a extrema-direita ou a
extrema-esquerda, declarou que “a ameaça de extrema-direita é muito maior”
porque os seus membros “têm armas, matam, ameaçam, coagem”.
A audição parlamentar teve lugar a 17 de junho. No dia
seguinte, a CNN Portugal noticiou em primeira mão a acusação formal a
elementos do neonazi Movimento Armilar Lusitano que tinham planeado um atentado
contra Luís Montenegro com uma “granada disparada por uma janela”; um chefe da
PSP e outros oito arguidos estão acusados de um total de 29 crimes, incluindo
chefia e adesão a um grupo terrorista, com planos de ataque ao
primeiro-ministro e a uma série de outras figuras públicas e políticas de
Portugal.
"Politização perigosa"
No encontro da semana passada na capital norte-americana,
Rubio voltou a reforçar que o “terrorismo de extrema-esquerda” é uma das
maiores ameaças que os EUA enfrentam e que o combate à ascensão de “extremistas
de esquerda violentos, incluindo anarquistas e antifascistas”, é uma prioridade
fundamental da administração Trump. Isso já tinha ficado patente no outono
passado, quando o presidente chegou a assinar uma ordem executiva a classificar
o Antifa, um movimento descentralizado antifascista, como uma “organização
terrorista doméstica”, um rótulo retórico que, segundo especialistas, não tem
peso jurídico.
Vários ex-funcionários do governo federal e especialistas em
terrorismo e extremismos dizem que a estratégia da administração Trump não
encontra respaldo na realidade. “Não há evidências estatísticas de que o
terrorismo de extrema-esquerda esteja em ascensão”, diz à CNN Portugal
Jason Blazakis, professor do Middlebury Institute of International Studies
especializado em extremismo violento, que trabalhou no Departamento de Estado
entre 2008 e 2018. “De acordo com todas as avaliações e fontes confiáveis de recolha
de dados, desde a década de 1990, [a extrema-esquerda] permanece muito abaixo
das ameaças de extrema-direita e do jihadismo.”
Citado pelo Washington Post há um mês, Colin P.
Clarke, diretor executivo do Soufan Center, que já testemunhou no Congresso em
diversas ocasiões enquanto especialista em contraterrorismo, tinha invocado a
mesma ideia, acusando a atual administração de
“politização da inteligência”. “É perigoso, porque o que estão a
fazer é, basicamente, política partidária com o contraterrorismo e a olhar
apenas para uma pequena parcela da ameaça geral”, sublinhou o especialista.
Blazakis e Clarke estão longe de ser os únicos a falar na
“politização” de um tema sensível com repercussões potencialmente perigosas
para os EUA e o resto do mundo, com vários oficiais, atuais e antigos, da área
do contraterrorismo, tanto de administrações republicanas como democratas, bem
como oficiais europeus, a afirmarem que a ênfase da administração Trump está
equivocada.
Os vários responsáveis citados pela CNN Internacional,
pelo Washington Post e por outros média sublinham que a ameaça de
extrema-esquerda não chega ao nível daquela representada por grupos como o
autoproclamado Estado Islâmico (ISIS) ou por elementos da extrema-direita –
sendo que estes últimos foram totalmente omitidos da estratégia de
contraterrorismo que a administração Trump divulgou em maio. E há até quem,
entre os críticos da atual estratégia, manifeste preocupações com a aparente
tentativa de inflar a ameaça para poder visar aqueles que, à esquerda, se opõem
às políticas do presidente Trump.
Questionado sobre quais considera serem as maiores ameaças
da atualidade, Blazakis invoca “grupos jihadistas salafistas, como o ISIS e
afiliados da Al-Qaeda”, que “representam as ameaças mais significativas” e que
estão “particularmente ativos em África”. Sobre as ameaças concretas aos EUA, o
especialista diz que a que mais o preocupa de momento “provém de grupos
patrocinados pelo Irão, que podem querer retaliar contra os ataques dos EUA ao
país – seguidos de indivíduos inspirados pelo ISIS e a Al-Qaeda, que
representam a segunda ameaça mais significativa, e em terceiro indivíduos da
extrema-direita no espectro político”.
"Política e pensamento mágico"
Em novembro, num prenúncio do encontro de há uma semana, o
Departamento de Estado anunciou a classificação de quatro grupos europeus como
“organizações terroristas estrangeiras”, incluindo um grupo militante na
Alemanha autodenominado Antifa Ost, a par de outros dois grupos na Grécia e um
em Itália.
Pela mão de Rubio, a classificação foi baseada em critérios
que incluem a avaliação de que os grupos representam uma ameaça direta aos
interesses de segurança nacional dos EUA. Contudo, a própria Alemanha não
identificou esse grupo, responsável por alguns atos de vandalismo no país mas
por nenhuma morte, como uma ameaça significativa.
“A avaliação das autoridades de segurança é que a ameaça
potencial representada pelo grupo diminuiu consideravelmente nos últimos
tempos”, declarou no mesmo mês um porta-voz do ministério do Interior aos
jornalistas em Berlim, ressaltando que os líderes e os elementos mais violentos
do Antifa Ost estão sob custódia ou já a cumprir penas de prisão.
Em larga medida, os governos europeus têm recusado
classificar o movimento Antifa como organização terrorista, apesar da pressão
de partidos de extrema-direita. No caso português, o
grupo parlamentar do Chega pediu ao governo em março que promovesse, junto da
UE e da ONU, a classificação do movimento como organização terrorista.
Nos Países Baixos, o governo de centro-direita rejeitou uma moção parlamentar
com o mesmo intuito, com o ministro da Justiça a afirmar aos deputados em maio
que o grupo não preenche os requisitos legais, uma vez que não existem provas
de que se trate de uma organização estruturada, antes um movimento amorfo.
Reagindo à convocatória para o encontro de há uma semana,
fontes de governos europeus disseram ao Washington Post não saber ao
certo porque é que foram convidados a estar presentes, com um diplomata a
declarar que “não temos Antifa”, outro a referir que não vê “motivo para termos
interesse em participar num evento como este” e um terceiro a declarar que as
autoridades de segurança do seu país “não têm concentrado esforços no
terrorismo de esquerda, pois não é considerado uma ameaça de alta prioridade”.
De acordo com o Washington Post, grande parte dos
países convidados para o encontro de 16 de julho não enviaram altas
autoridades, fazendo-se representar pelo seu corpo diplomático em Washington
DC, como foi o caso de Portugal. Mas Rubio não
se poupou a atirar aos que descartam a ameaça da extrema-esquerda “como um
delírio febril de direita ou, pior, como uma perigosa conspiração fascista”,
quando na visão do governo Trump o seu ressurgimento é “uma realidade inegável”
comparável aos ataques de extrema-esquerda durante a década de 1970.
“Podem autodenominar-se anticapitalistas ou
anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas, mas a natureza
fundamental é sempre a mesma”, declarou o secretário de Estado ao lado de
Stephen Miller, conselheiro da Casa Branca e arquiteto das políticas
nacionalistas anti-imigração do governo Trump, para quem o Antifa e a
extrema-esquerda correspondem ao “cancro fatal da civilização”.
No encontro, Rubio voltou a pedir aos países que trabalhem
com os EUA para “identificar e mapear essa ameaça e reconstruir a nossa
arquitetura de contraterrorismo para a derrotar”, pedindo a “partilha de
inteligência e informações e uma estratégia coordenada de aplicação da lei e
ações para desmantelar as redes financeiras que as sustentam”, por forma a
“destruir essas redes tijolo por tijolo” (coincidentemente, a mesma expressão
que utilizou quando prometeu que os EUA vão desmantelar o Tribunal Penal Internacional).
“Os governos estão a sofrer uma pressão significativa dos
Estados Unidos para classificar como terrorismo ameaças inexistentes
provenientes da esquerda”, ressalta Jason Blazakis à CNN Portugal. “É
importante que os países resistam a esta pressão dos EUA, pois é baseada em política e pensamento mágico.
A administração Trump não tem credibilidade quando se trata de questões
relacionadas com o terrorismo.”
Fonte: CNN Portugal, 25 de julho de 2026

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