Adolescentes criam nudes falsos de colegas com IA e casos já chegam aos tribunais portugueses

 

As nudificadas quando comparam o corpo com a criação digital deprimem, envergonham-se com os defeitos, perdem a autoconfiança. Os casadoiros que as querem para esposas dececionam-se com o desembrulho, que os leva ao desespero e à violência por se sentirem enganados.   

De acordo com a PJ, a "maior parte das situações" é comunicada pelas escolas e, por norma, "são referentes à criação destes conteúdos por outros adolescentes". Maioria das vítimas são meninas

Os adolescentes estão a criar e distribuir imagens de colegas nuas ('nudes') produzidas com Inteligência Artificial (IA). É algo que consideram uma brincadeira, mas que constitui crime e já originou condenações em tribunal, revelou a Polícia Judiciária (PJ).

"Têm chegado ao conhecimento desta Polícia Judiciária situações relacionadas com a manipulação de fotografias de adolescentes com recurso a IA (aplicações de nudificação)", confirmou, à Lusa, a força policial. "Os primeiros casos remontam" a 2024, precisa a Judiciária.

De acordo com a PJ, a "maior parte das situações" é comunicada pelas escolas e, por norma, "são referentes à criação destes conteúdos por outros adolescentes, na faixa etária dos 12 aos 16 anos". "Segundo os autores, trata-se de 'brincadeiras' em que se divertem a partilhar imagens de colegas, por vezes dentro dos grupos de WhatsApp da escola".

Embora em causa estejam imagens manipuladas - em que o corpo é falso mas o rosto é real -, a sua partilha "é suscetível de consubstanciar um crime de pornografia de menores", punível. Segundo o Código Penal a pena é de até três anos de prisão.

"Como a maior parte dos autores identificados são menores, as situações são comunicadas ao Tribunal de Família e Menores competente", acrescentou. Podem ser "aplicadas medidas que visam a reeducação do menor para o Direito, no âmbito da Lei Tutelar Educativa".

Ainda assim, há casos em que os suspeitos, por terem mais de 16 anos, foram constituídos arguidos. São "situações de perseguição online e/ou com o propósito de denegrir a imagem da vítima, em resultado do 'terminus' [fim] de relacionamentos amorosos".

Pelo menos alguns destes inquéritos deram origem a acusações e condenações, frisou a PJ. "Também foram identificadas situações em que as vítimas (jovens cujas fotos foram nudificadas) são coagidas a partilhar conteúdos autoproduzidos, sob ameaça de divulgação das fotografias manipuladas. Nestes casos, o objetivo é a obtenção de novos conteúdos de cariz sexual", salientou.

GNR vê "difusão generalizada" nas escolas

Presente nas escolas, a GNR tem-se também apercebido de uma "difusão generalizada de conteúdos gerados por IA, nomeadamente 'nudes'", corroborou, à Lusa, o chefe da Repartição de Policiamento Comunitário da força de segurança, que tem sob sua alçada o programa "Escola Segura". "Há outros crimes que podem estar associados, nomeadamente devassa da vida privada, difamação, coação, ameaças, extorsão. Estamos atentos", acrescentou, à Lusa, Sérgio Fonseca.

As vítimas são quase sempre raparigas e, por norma, na base dos conteúdos produzidos com IA estão imagens inócuas que estas tinham publicado nas redes sociais. Quem explica é a gestora operacional da Linha Internet Segura, gerida pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), à qual já chegaram igualmente casos desta natureza.

"Os colegas da turma ou da escola têm um alvo particular e este alvo costuma ser, em mais de 90% dos casos, uma rapariga. Vão buscar uma fotografia do Instagram e alterá-la", descreveu, à Lusa, Carolina Soares. Uma vez feita a alteração, a imagem falsa, mas aparentemente real, é publicada em stories, que desaparecem ao fim de 24 horas, ou chats ou grupos do Instagram e do WhatsApp, sendo depois transformadas em 'memes' ou 'gifs' e circulando, a partir de então, "com muita facilidade".

No final, mesmo que os grupos onde foram partilhadas as imagens sejam encerrados e removidos, as fotografias permanecem "nos equipamentos, nos telemóveis, onde for, de toda a gente", lamentou. "Sim, é possível retirar estes conteúdos, apesar de nada impedir que os mesmos voltem a ser partilhados", reconheceu a PJ.

Fonte: Diário de Notícias, 8 de agosto de 2026

Vítimas de nudes feitas com IA mudam de escola para escapar ao bullying

Imagens de alunos despidos feitas com recurso a inteligência artificial usadas para fazer bullying. Em muitos casos, pais mudam crianças de escola

Adolescentes vítimas de nudes (imagens com nudez) criadas por colegas com inteligência artificial (IA) e partilhadas nas redes sociais estão a mudar de escola para escapar ao bullying, lamentou a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).

“Vai haver uma tendência para [a vítima] querer deixar de ir à escola, se estivermos a falar de crianças. Muitas vezes, os pais simplesmente escolhem mudar, quando têm essa possibilidade”, disse à Lusa a gestora operacional da Linha Internet Segura, gerida pela APAV.

“É muito difícil, quando estamos a prestar apoio psicológico, quando ativamos o sistema, [constatar] que mesmo assim é essa pessoa que vai ter de mudar de escola”, desabafou Carolina Soares, admitindo que é muito difícil a sociedade garantir a proteção dessas crianças.

De acordo com a Polícia Judiciária (PJ), os adolescentes estão a criar e distribuir nas redes sociais imagens de colegas em situação de nudez (nudes) produzidas com IA, algo que consideram uma brincadeira, mas que constitui crime e já originou condenações em tribunal, sendo a maioria das vítimas, segundo a APAV, raparigas.

“A partir do momento em que aquela imagem começa a circular, a violência exercida sobre a vítima é uma violência 24 horas por dia”, lembrou Carolina Soares, precisando que é comum estas terem “uma sensação de perseguição, de ausência de controlo, de uma intimidade que é violada”, mesmo tratando-se de uma imagem falsa, uma vez que, embora o corpo não seja real, o rosto é.

Problemas de sono, distúrbios na alimentação e diminuição do desempenho escolar são outras das consequências para as adolescentes, com a forma “como veem o corpo, a sua sexualidade” e a “confiança no outro” a serem também afetadas.

Denunciar o caso a um órgão de polícia criminal é outra das dificuldades sentidas pelas vítimas, por terem de falar sobre o assunto “com uma pessoa estranha ou encarar um sistema muito burocrático, que tem uma linguagem muito pesada” e que “é moroso”.

Para o agressor, a decisão demora dois segundos, mas para a vítima, neste caso uma criança, afeta “o seu crescimento e a forma como se vai encarar mesmo quando for uma pessoa adulta”, frisou a gestora operacional da Linha Internet Segura.

Carolina Soares defende, por isso, uma aposta, além da prevenção, no trabalho “pelo menos desde o pré-escolar” do consentimento, da empatia e da responsabilização. “Todos estes são essenciais” para que o jovem que está a ponderar fazer um nude com IA não pense “é só uma brincadeira, não há aqui qualquer problema”.

Para a PJ, é também “importante estimular o pensamento crítico digital” das crianças e jovens, “por forma a promover o uso racional da tecnologia”, recomendando a instituição “que se tomem as devidas precauções para manter os perfis privados e, preferencialmente, apenas aceitar amigos virtuais que já se conhecem no mundo real”.

Fonte: Público, 8 de agosto de 2026

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