Elefante Branco. “Ele é que escolhia as mulheres que entravam. Aos 30, esquece, já eram velhas”
Foi
porteiro da boîte por 22 anos e nunca falou sobre isso. Agora, Manuel Ribeiro
conta tudo em livro. A jornalista que o escreveu tem recebido telefonemas de
figuras públicas: "Têm medo de aparecer"
Inaugurado em novembro de 1978, o Elefante Branco, célebre
casa de diversão noturna de Lisboa, começou este ano a sua quarta vida. Ao
todo, o “Trombinhas”, como se celebrizou entre clientes e candidatos a, já
fechou e reabriu três vezes, com diferentes gerências, e está agora numa morada
e num espaço diferentes, que os novos donos decidiram apimentar com outrora
impensáveis espetáculos de sexo ao vivo.
Não é desse Elefante Branco que se fala em “O Porteiro do Elefante Branco”. Nem sequer do primeiro, inaugurado há exatos 41 anos, em novembro de 1978, no espaço onde antes tinha funcionado uma mercearia, no número 83 da Rua Luciano Cordeiro.
A ação do livro, editado pela Prime Books e assinado pela
jornalista desportiva Elsa Bicho, passa-se entre
1986 e 2008, anos áureos em que a casa ganhou fama dentro e fora de
Portugal, também pelo bife, cozinhado com natas e molho inglês, mas sobretudo
pelas mulheres que lá se podia encontrar — e trazer cá para fora, para um hotel
ou uma pensão próximos, mediante pagamento combinado no momento.
Nesses anos e durante décadas, à porta do Elefante Branco
ficaram os curiosos, os jornalistas ávidos de escândalos e todos os que não
pertenciam a uma elite política, empresarial e desportiva, de carteira recheada
e trato irrepreensível.
Agora, é Manuel Ribeiro, o “Lavagante”, um dos homens que
decidiam quem entrava e quem ficava à porta da boîte mais badalada da cidade,
quem franqueia a memória do espaço e revela segredos, episódios e alguns nomes,
não todos. “No final, cortámos alguns, para evitar processos judiciais e porque
o próprio Ribeiro quis assim. A condição dele para fazer este livro foi contar
as histórias, mas sem nomes. Afinal, o Elefante Branco sempre se distinguiu
pela privacidade que dava àquela clientela muito selecionada”, explica a
ex-jornalista do jornal A Bola.
Para reunir os episódios que desfia ao longo de 150 páginas,
Elsa Bicho encontrou-se com Manuel Marcelino Ribeiro Valente, agora com 73
anos, sete vezes, sempre da parte da tarde e em cafés na zona do Parque das
Nações, numa espécie de corrida contra o tempo: “Está
a ficar muito esquecido e doente”, avisou-a o editor quando lhe
confiou a tarefa.
Ao Observador, a jornalista revela tudo sobre os anos
dourados da boîte onde, numa só noite, chegaram
a estar estacionados 21 Porsches, por onde passaram figuras como
Ayrton Senna, Hugh Grant e Johnny Hallyday e onde celebridades como Magic Johnson e Romário chegaram mesmo a
ser impedidas de entrar.
Conseguiste a entrevista que, ao longo de décadas, muitos
jornalistas deste país quiseram fazer — eu própria tentei e não consegui. Como
é que fizeste com que o porteiro do Elefante Branco quebrasse o silêncio?
A história caiu-me no colo, na verdade. Ele não estava muito
para aí virado, mas tem um cunhado que é jornalista e que, finalmente,
conseguiu convencê-lo. O Jaime Cancella de Abreu, da Prime Books, chamou-me
para conversar e ofereceu-me o livro: “Tenho o porteiro do Elefante Branco, que
já é septuagenário e está a ficar sem memória, quem se senta com ele ouve
histórias maravilhosas. Preciso que alguém faça esse registo enquanto ainda é
possível, que consiga ouvi-lo e tirar o melhor dele”.
Quem é, afinal, este porteiro?
O Manuel Ribeiro é de Olhão, mas veio cedo para Moscavide. Não dava para os estudos, chegou a trabalhar
como mecânico mas era o típico bon vivant. Começou a trabalhar na noite porque
era taxista e apanhava clientes que queriam ir sair. Começou no Nina, que
também foi uma casa conhecida, e era daqueles que gostavam dos copos, do tabaco
e do ambiente da noite. Toda a vida viveu para aquilo. Tanto que ainda hoje é
solteiro, nunca casou e toda a vida viveu com a
mãe. Hoje que ela já faleceu, vive sozinho, dedicado aos sobrinhos e
à família.
Ainda sai à noite?
Não sai porque não pode! Tem problemas de vista e nos
pulmões e é claustrofóbico, tem receio de estar em espaços fechados. Já tem uma
saúde muito débil e anda num psiquiatra para ver
se consegue deixar de fumar —
fuma 44 cigarros por dia! É uma pessoa riquíssima. Chegas ao fim do livro e
ficas com carinho pelo porteiro.
Sendo que ele era o “mau”, deixou muita gente à porta…
Deixou muita gente à porta, arranjou muitos inimigos, mas
nunca vacilou. Fosse porque lhe oferecessem dinheiro, porque fossem filhos de
alguém ou porque fossem conhecidos — se não entrava, não entrava, ponto final
parágrafo. Conto a história do Johnny Hallyday, que lhe disse que em LA [Los
Angeles] lhe pagavam para ele entrar naquelas casas e ele respondeu “Isto é LC,
[rua] Luciano Cordeiro, não é LA!”. No início eu também queria saber os podres
e contar a história do Elefante Branco muito centrada nas mulheres e na vida
noturna, mas, depois de falar com ele, o livro transformou-se. Passou a ser
sobre aquela figura, que viveu a vida que nenhum de nós alguma vez viverá, que
desfrutou de todos os prazeres e assistiu de camarote àquilo que era a vida
mais boémia de Lisboa.
O Elefante Branco do livro já não existe, certo?
Existe um Elefante Branco, mas está totalmente remodelado e
já nem é na Rua Luciano Cordeiro, é uns números mais abaixo, onde antigamente
existia o Lobby. Mas não tem nada a ver, nem a decoração…
Só existe o nome? No livro explicas que foi vendido por
85 mil euros.
Parece que sim, foi isso. Não tem nada a ver com aquilo que
o Elefante foi no final da década de 80, início de 90. Eu própria nunca fui ao
Elefante Branco, mas também tinha curiosidade, foi uma coisa de que sempre ouvi
falar; o meu marido toda a vida foi dirigente
desportivo e ia lá jantar todos os dias, com os dirigentes do
Estrela da Amadora…
O teu marido ia ao Elefante Branco?!
Ele ia, toda a gente ia! Era ele, o presidente, o presidente
da assembleia geral… iam todos! Toda a gente lá caía, de todos os clubes, de
todos os quadrantes: políticos, comandantes, empresários, altos quadros, toda a
gente ia ao Elefante. O Ribeiro diz sempre que, na altura, conhecia metade da
Assembleia da República e não era de ver televisão.
Mas porquê? Não seria certamente por ser um bom
restaurante, que até só tinha dois pratos; o bife e o bacalhau.
Mas não eram só os homens que tinham curiosidade: as
mulheres, como sabiam que havia lá mulheres, também queriam saber como é que
elas eram, o que faziam… Além de portuguesas e brasileiras, havia russas,
nórdicas e algumas africanas, poucas, para agradar aos clientes nórdicos que,
de vez em quando, apareciam. Quando o Ribeiro pegou naquilo, em 1986, já lá
havia mulheres, o restaurante já estava como se viria a conhecer nos tempos
dourados, mas só nos anos 80, com uma nova gerência e com ele na porta, é que a
casa ganhou a fama que tem. E ganhou-a — ele frisa isso muito bem — graças à
clientela que passou a frequentar aquilo. Eram os anos em que se corriam os
grandes prémios de Fórmula 1 em Portugal e as escuderias apareciam lá todas,
com os gajos cheios de papel a beberem garrafas de Cristal, que era o champanhe
mais caro na altura.
Ele fala numa noite em que se juntaram lá o Ayrton Senna,
o Alain Prost e o Jean Alesi…
Que não se topavam, não é? Mas o Elefante albergava toda a
gente. Eles foram lá e deram renome ao espaço. Foi
numa altura de abastança, em que chegaram a Portugal subsídios da Europa,
em que havia a história da Dona Branca, que emprestava dinheiro… A economia
estava bem e havia dinheiro a rodos. E o Elefante Branco era o sítio onde
giravam as notas. Ele conta-me que, nessa altura, início dos anos 90, chegavas
a um aeroporto de Inglaterra, França ou Itália e, quando pegavas em roteiros
turísticos de Portugal, vinha lá o Elefante Branco. Tal como sugeriam ir a
Fátima e ao Mosteiro dos Jerónimos, também indicavam o Elefante Branco. O
Ribeiro também conta que uma hospedeira, vizinha do Elefante, lhe dizia que no
avião vinha tudo a perguntar como é que se ia para lá. Saíam do avião,
apanhavam o táxi, iam para o Elefante e, de manhã, apanhavam o voo de volta.
Havia malta a vir de propósito, tal era o nome que aquilo conquistou.
E era sobretudo pelas mulheres bonitas que lá andavam. Ou
não?
Era sobretudo… Quer dizer, o misticismo à volta do Elefante
Branco tem a ver com o secretismo que eles conseguiam criar da porta para
dentro. O Elefante Branco não tinha nada de especial: dizia-se que tinha um
varão, que tinha quartos lá atrás — tudo mentira. Era uma sala preta, com mesas
baixas, uma pista de dança no meio, bolas de espelhos no teto, com um bar de
pedra preta, uma coisa normalíssima.
Mas que estava vedada à maior parte das pessoas que lá
queriam entrar.
Lá está! Ele conta isso, diz que, na altura em que o
convidaram para ir para lá, lhe disseram: ‘A porta é tua e isto é para pessoas
que frequentam a noite, não é para pessoas da noite’. Ou seja, não era para
pessoas que andavam nos copos noites inteiras até caírem. Aquilo sempre foi
muito elitista. Não entrava lá qualquer pessoa. E
não entrava ninguém de ténis ou de calças de ganga — fosse quem
fosse!
O Magic Johnson foi um dos que ficaram à porta por causa
dos ténis, não foi?
O Magic Jonhson, imagina! Voltou para trás e foi buscar uns ténis pretos, para disfarçar. Calçava o 53 e não havia propriamente sapatos ditos de saída para ele…
Magic Johnson esteve em Lisboa em 1994, com o patrocínio da
Pepsi, para promover o basquetebol mas pelo meio teve de tempo de ir ao
Elefante Branco
Essa era outra: o Elefante Branco tinha mesmo uma
sapateira de emergência para os melhores clientes?
Sim, o Ribeiro diz que foi comprar uma data de sapatos ao
Calçado Guimarães, daqueles números que saem mais, o 42, 43, números de homem.
Quando aparecia algum cliente mais especial, que eles sabiam que gastava
dinheiro e que dava bom ambiente à casa, facilitavam a entrada e trocavam ali
os sapatinhos. Agora, o Magic Johnson, a calçar 53, foi impossível. Mas ele
voltou para trás e foi buscar uns ténis pretos.
Aconteceu o mesmo com o Romário, que apareceu de fato de
treino…
Claro, nem pensar! Ele não facilitava a ninguém. E o
ambiente era tão selecionado, tão selecionado, que as pessoas começavam a
pensar: “Que raio, mas o que é que se passa lá dentro?! O que é que acontece?
Porque é que ninguém consegue vislumbrar aquilo? Porque é que ninguém
fotografa?”. Não se passava nada!
Não seria bem assim, havia engate lá dentro…
Ok… então vamos pensar assim… aquilo que ele me diz — e ele
irritava-se muito comigo…
No livro contas que ele se irritava quando falavas em bar
de alterne. O Elefante Branco não seria um bar de alterne. Mas havia engate.
Havia engate…
Aliás, as mulheres não seriam escolhidas a dedo por nada…
As mulheres eram escolhidas por ele, era ele que dizia quem
entrava ou não. 18 aninhos, com tudo no sítio, muito bem; aos 30 não, esquece,
já eram velhas.
E entravam 100 mulheres por noite, em média?
Ele diz-me que houve uma altura, sobretudo quando havia
futebol europeu, em que chegava a perder a conta. Que o máximo que terão estado
lá ao mesmo tempo foram umas 200 mulheres, mas que, por norma, numa noite dita
normal — e a noite forte era a quinta-feira —, andava nas 100, 120.
E porque é que às quintas havia mais gente?
Porque à sexta-feira os deputados já não iam à Assembleia e
os políticos e os empresários iam para casa de fim de semana ter com a família.
A quinta-feira coincidia com o culminar da semana de trabalho, era véspera dos
tempos dedicados à família e era o dia em que se juntavam todos para fazer
negócios e para ir “lavar a vista”, como ele diz. Ele diz que a maior parte dos
homens ia lá “lavar a vista”.
Ficaste com essa ideia? Seria mesmo a maior parte? Não
seria mais 50-50?
Pois, talvez…
Ele também diz que havia alturas de mais movimento em que
muitas mulheres entravam e saíam duas e três vezes por noite, não é? Nesse
entra e sai, está subentendido que vão para algum lado fazer qualquer coisa…
Naturalmente. Havia lá mulheres, claro. Aquilo que ele me
garante é que o Elefante não lhes pagava nada para lá estarem, não pagava
jantares, nem sequer pagava bebidas. O Elefante deixava-as entrar porque sabia
que atrás delas vinha muito boa clientela, cheia de dinheiro, que gastava e
comprava e tinha garrafa. Ele conta que, no início, a vizinhança começou a ver
aquele corrupio de mulheres e carros e até fazia queixa à polícia, mas que
depois era a própria vizinhança que metia conversa e comentava as mulheres
bonitas que lá passavam. Ficavam à janela a vê-las desfilar, como se fossem
divas de um filme francês: “Aaaah, que bonitas!”.
Isso era obrigatório, não é? Estarem sempre muito bem
vestidas, muito bem penteadas…
Sim, brutas minissaias,
casacos de peles, malas caríssimas, sapatos de salto alto, perfumes caríssimos
— que, muitas vezes, eram os homens que lhes davam. Ele conta isso também, diz
que houve muitos casamentos no Elefante, muitas mulheres que estavam lá
acabaram por casar com muitos dos clientes que lá andavam e saíram daquela vida
assim.
E casamentos desfeitos não houve também?
Também é capaz de ter havido alguns, não é? Havia algumas
mulheres que andavam ali à porta às voltas a ver se apanhavam os carros dos
maridos.
No livro há uma história dessas, de uma senhora que
chegou a entrar à procura do marido…
Entrou, levou uma amiga e fizeram lá um estardalhaço
desgraçado. Entretanto, um amigo do marido escondeu-o na casa de banho,
disse-lhe que ele não estava e que lhe tinha emprestado o carro. Depois saiu
com ela, para a empatar enquanto o marido fugia para chegar primeiro que ela a
casa. É verdade que as mulheres estavam lá. Mas não era como noutros sítios, em
que as pessoas entravam e elas iam sentar-se à mesa. Elas estavam proibidas de se meter com quem quer que fosse
— era uma das normas do Elefante. Eram eles que se dirigiam diretamente a elas
ou que, por serem clientes assíduos e já terem alguma intimidade com os
garçons, pediam que elas fossem ter com eles. Elas não tinham ordem para chegar
e oferecer-se.
Que outras regras existiam?
A apresentação era muito importante, elas tinham de estar
sempre lindíssimas, em modo diva. Eles depois também as protegiam muito: podia
ser o empresário mais milionário que houvesse, se se comportasse mal com alguma
mulher, se fosse indelicado, agressivo ou incorreto, nunca mais lá entrava, era
garrafa à porta na hora. Eles tinham esse cuidado e elas
lá sentiam-se deusas e faziam o dinheiro que queriam.
Foste tu que usaste a expressão: “Ali as notas rodavam”…
Sim, mas o Elefante nunca lucrou com o dinheiro delas, elas saíam, entravam, levavam o dinheiro que queriam, faziam o que queriam, onde queriam — dizia-se até que o Elefante tinha parcerias com pensões e hotéis, mas não, isso nunca aconteceu. O que havia era panfletos a fazer publicidade ao Elefante nos hotéis. Ele conta que havia russas que chegavam a fazer grandes festas em iates. Elas iam para onde queriam.
E, quando voltavam, contavam tudo.
Contavam umas às outras e ao porteiro. Que era quem via
tudo, quem entrava e quem saía — e com quem. Ainda que fosse um despistado do
caraças, que foi uma coisa que me deixou com muitos nervos…
Não percebeu durante vários dias que o Hugh Grant lá ia,
não foi?
Não deu pelo Hugh Grant, não deu pelo Johnny Hallyday… lá
está, ele diz que, para ele, eram todos comandantes, engenheiros, doutores. Não
fixava nomes. E vivia de noite (ainda hoje vive, diz que acorda às 16h e come
um iogurte), portanto não via televisão nem lia jornais. Podia ter o Khadafi à
frente, não sabia quem era.
O Khadafi também esteve no Elefante Branco?
O Khadafi não esteve, mas houve uma cimeira em Lisboa a que
ele veio — até ficou numa tenda, não quis ir para um hotel — e havia uma menina do Elefante que tinha livre-trânsito
para entrar na dita cimeira, que estava cheia de polícia e de
segurança. Portanto, depreende-se que tinha um bom padrinho, não sei se seria o
Khadafi ou não…
Ainda no departamento das mulheres, fala-se numa Carla
Açoriana que terá sido a que mais faturou no Elefante Branco.
O Ribeiro diz que, quando começou, em 1986, só havia a dita
mulher portuguesa, e a típica mulher portuguesa não é alta e esbelta, como são
as nórdicas, por exemplo. Naquela altura, as
portuguesas não seriam mulheres muito cuidadas, eram mulheres normais, ou com
buço, ou que trabalhavam, ou eram mães de filhos… Quando chegam as
brasileiras revolucionam aquilo tudo, porque têm outro tratamento, são mais
quentes, mais dadas, mais faladoras, mais estridentes…
“Uma brasileira analfabeta parecia doutorada ao pé das
tugas”, é o que diz o próprio Ribeiro…
Cá está: uma das condições para uma mulher andar no Elefante
não era só ser bonita, até porque, muitas vezes, clientes iam lá requisitá-las
para fazerem presenças e serem acompanhantes. Porque elas, além de serem
bonitas, sabiam conversar, eram cultas, opinavam sobre política, sobre
sociedade, sobre futebol. E isso arrumava com os homens, não era habitual cá,
infelizmente é verdade. Não estavam ali só para sexo, mas, nessa parte, também
faziam a diferença.
Como assim?
O que ele me dizia é que as brasileiras eram diferentes. Ao
início estava um bocadinho acanhado comigo, tive de lhe dizer para imaginar que
eu era um homem, para falar abertamente, disse-lhe que tinha 40 anos e que não
me ia chocar com nada. E ele só me perguntava “Mas tenho de te fazer um
desenho?”; “Tem, faça-me um desenho!”. “Porque elas eram diferentes, faziam
tudo, tudo!”, respondeu-me às tantas. Agora, no meio dessa maluquice toda
apareceu a Carla Açoriana, que era uma miúda de
18 anos — que, entretanto, se perdeu na vida, começou a fazer striptease,
meteu-se na droga, estragou-se.
Quem era ela?
Tentei descrevê-la ao máximo, mas é complicado pedir a um
homem de 70 anos, e que já está a perder a memória, vocabulário para descrever
a mulher que todos queriam… “Tinha tudo no sítio, tinha curvas, tinha o peito
perfeito e rijinho, e uma gargalhada…” Sei que tinha o cabelo comprido e loiro,
aos caracóis, olhos claros, um sorriso do tamanho do mundo e uma gargalhada que
ecoava no Elefante todo. Ela entrava e toda a gente ficava pasma a vê-la
desfilar e falar e rir. Andava sempre de decotes, saias curtas e embasbacava
todos. Ele diz que foi a rapariga que mais faturou no Elefante. E conta a história de ela ter recusado um sheik árabe que
chegou cá e queria sair com ela, mas a noite já estava no fim e ela queria era
ir para o Alcântara-Mar dançar com as amigas. Ele ofereceu-lhe o
equivalente a dois mil euros e ela não quis. Andou lá dias a fio atrás dela e
ela nunca lhe ligou nenhuma.
Essa é uma questão sempre muito presente: o dinheiro.
Falas no preço das garrafas, do bife, do valor que a casa faturava por noite,
era dinheiro que nunca mais acabava.
Sim, as garrafas, na altura,
custavam 18 contos [318 euros a preços atuais], o bife andava à volta
dos 40 euros atuais. Aquilo tinha muito requinte, os copos eram lavados com
vodka por causa das manchas, os guardanapos com o logótipo do Elefante tinham
de estar alinhadinhos, havia muito cuidado com os funcionários, que tinham de
ter os sapatos muito bem engraxados e de usar lacinho. Havia muito luxo, muita
elegância, aquilo era top, como agora se diz. E não era para todas as
carteiras. Também era muito usado para transações comerciais, para fechar
vendas de carros ou de casas. Quando queriam impressionar o cliente, levavam-no
ao Elefante, pagavam o jantar, muito bem servido, com pompa e circunstância,
apareciam as senhoras, que, de alguma maneira, tornavam o ambiente mais leve, e
assinava-se mais um contrato.
O Ribeiro diz que, no início, ganhava 60 contos de
ordenado e 500 contos de gorjetas [no total, com a taxa de inflação, o
equivalente a 9890 euros atuais]. É surreal, o porteiro teve um Porsche…
Teve três Porsches! E agora diz que está aflito da coluna por causa dos Porsches! Ganhou o dinheiro que quis e também o esturrou todo, ia passar fins de semana aqui e ali… Segundo ele, a pessoa que mais ganhava ali era a mulher que estava na casa de banho, para que nada nunca estivesse desarrumado ou sujo. Na altura, as notas andavam ali nos bolsos a rolar e iam-lhe dando. Ela e a senhora que estava no bengaleiro tiravam grandes ordenados.
Ribeiro à frente de um dos seus Porsche
Não havia cartões nem caixa registadora, era tudo pago em
dinheiro. Contas que eles guardavam as notas em caixotes de cartão…
Era arcaico, mesmo à filme, tinham os escritórios metidos lá
para o fundo de um corredor, cheio de caixotes e caixas de bebida, iam metendo
ali o dinheiro e, no dia seguinte de manhã, a senhora da contabilidade ia
depositar tudo ao banco.
Escreves que, em 1986, a casa faturava, em média e a
preços de hoje, 5 mil euros por noite e 150 mil euros por mês.
Estamos a falar de outra época, era uma maluquice. Nunca
foram assaltados e dificilmente lá faziam rusgas, deve ter havido, no máximo,
duas ou três. E isto porquê? Porque os polícias estavam lá todos, os
comandantes eram amigos e clientes, tudo se resolvia em conversa, por amizades,
por padrinhos… todos lá estavam, portanto ninguém tinha telhados de vidro. Ou
melhor: todos tinham telhados de vidro!
Toda a gente ia ao Elefante — políticos, empresários,
príncipes e sheiks —, mas havia uma ligação muito forte ao futebol.
E não era só uma ligação ao jogador de futebol, era até, sobretudo, uma ligação aos dirigentes. Era lá que se faziam os negócios. E depois havia outra coisa que era prática corrente: os clubes de futebol, para os receberem bem, levavam os árbitros ao Elefante. E pagavam a conta, fosse do whisky, do jantar, do bacalhau à brás ou de uma saída com uma mulher. E isso era assumido: os clubes grandes em Portugal faziam-no, os pequenos eram clientes. O Estrela da Amadora ia lá, o Belenenses e o Vitória de Setúbal também, e os clubes lá de cima, quando vinham jogar a Lisboa, iam todos ao Elefante: iam os presidentes, os órgãos sociais e os jogadores. Depois era uma altura em que o Benfica estava muito bem ao nível das competições europeias e, quando recebia adversários de renome, aquilo era um pandemónio, caíam lá todos — todos!
A ligação ao Benfica era forte também graças a um dos
donos, que tinha a mulher a trabalhar lá, certo?
Era o Manecas. O Manecas era daqueles benfiquistas que
estava lá dentro, acompanhava a equipa para todo o lado, e era um mãos largas,
portanto levava para lá toda a gente do Benfica e não cobrava nada a ninguém.
Levava toda a gente, incluindo o “Senhor Ferreira”…
O senhor Ferreira, pois… porque no Elefante Branco ninguém
lhe chamava Eusébio! Por acaso há uma história que o Ribeiro me conta que acho
que pouca gente sabia: eram os funcionários do Elefante que estacionavam os
carros dos clientes e estranhavam muito uma toalha branca que o Eusébio tinha
sempre a envolver o travão de mão. Um dia perguntaram-lhe e ele explicou que
era uma superstição que tinha… Toda a vida se soube que, tal como na Tia
Matilde, o senhor Ferreira tinha a sua mesa e a sua garrafa no Elefante. Isso é
capaz de não estar muito explícito no livro, mas o Eusébio atravessou-se muitas
vezes com contas no Elefante: pagou muitas vezes as contas de malta conhecida
que ia para lá, se perdia no meio do fumo, da música e do cheiro a perfume e,
quando queria sair, não tinha dinheiro. Fala-se também de uma seleção da
Checoslováquia que lá apareceu eram 4h30 da manhã, mas o Ribeiro “desenrascou”
e lá os deixou entrar.
E era uma seleção incrível, não era? O Poborsky, o Cech,
o Nedved…
Era a nata toda, era a geração de ouro deles, durante o Euro
2004… Fala-se também do Cherbakov,
que foi ao Elefante no próprio dia em que chegou a Lisboa e ficou com uma ótima
reputação entre elas, diziam que ele era muito
bom de cama. Coitado, depois sofreu o infortúnio que sofreu… Cá
está, havia essa ligação porque o futebol é um mundo onde há muito dinheiro e
se quer agradar. O Elefante tinha a discrição, a privacidade e o ambiente certo
para eles estarem à vontade. No fundo, a questão é muito esta: quem entrava no
Elefante estava à vontade. É engraçado, tenho recebido chamadas de muita gente
que está aflita, com medo de ver o nome no livro…
Que tipo de gente?
Gente do futebol, gente da política. Houve um que me disse
“Olhe que a minha família sabia!” Por isso é que tenho algum medo que o livro
dececione as pessoas. As pessoas estão à espera de escândalo, de saber quem é
que dormia com quem, quem era a figura pública que gastava dinheiro em
mulheres…
Há bastantes nomes, diria eu…
Há bastantes nomes. E há histórias que se contam sem nomes e
os protagonistas das histórias, se lerem, vão saber que foram eles…
Nem terão de ser só eles. Lembro-me de uma descrição
bastante detalhada: falas num “músico que casou com a irmã de um cavaleiro
tauromáquico que morava na Costa”. Não faço ideia de quem seja, mas não
deve ser assim tão difícil chegar lá…
E há também uma história de um antigo internacional
português que levou um tabefe de uma rapariga, à frente de toda a gente e de
toda a seleção nacional, porque lhe começou a meter notas no decote. O
ex-jogador vai saber que foi ele, mas eu não vou dizer o nome. Uma das coisas
com que tivemos muito cuidado — e que foi uma das exigências do Ribeiro — foi a
proteção dos nomes e da privacidade alheia. Por exemplo, falo aí de um jornalista muito conhecido da televisão que
casou com uma mulher do Elefante — que até era a mais feia que lá andava, mas
foi aquela por quem ele se encantou. Não podia escrever nomes e
expor assim a vida da rapariga, não é?
Fonte: Observador, 24 de novembro de 2019
De Bryan Adams a Hugh Grant, as melhores histórias do
mítico Elefante Branco
O livro
"O Porteiro do Elefante Branco" junta os episódios épicos do
clube lisboeta contados por Manuel Ribeiro
Durante muitos anos, o Elefante Branco foi um dos maiores
ícones da noite lisboeta — portuguesa, aliás. O bar e restaurante da Rua
Luciano Cordeiro era visitado por altas figuras de várias áreas da sociedade e
estava nos guias turísticos da capital como um ponto obrigatório de passagem.
Isto se os turistas conseguissem entrar, claro. Quem decidia
se abria a porta ou não era Manuel Ribeiro, simplesmente conhecido como
Ribeiro, porteiro que começou a trabalhar no Elefante Branco em 1986, com a
segunda gerência do espaço — e por lá ficou durante mais de 20 anos.
Era um espaço elitista, exclusivo, glamouroso e fascinante
para políticos, desportistas, artistas ou empresários. A discrição era fulcral,
por isso é que atraía tantas figuras públicas, que simplesmente queriam beber
um copo em paz ou fechar algum negócio.
A casa sempre esteve associada à prostituição — não porque
tinha strip-tease ou salas privadas para clientes, isso são mitos — mas porque
era frequentado por várias prostitutas que conseguiam os seus clientes no
interior, apesar de não praticarem qualquer ato sexual dentro do espaço nem
serem contratadas pelo Trombinhas.
Hoje, o Elefante Branco já não é o que era. Depois de vários
anos em decadência, fechou em 2016. Em fevereiro deste ano, uma nova gerência
recuperou a marca e abriu outro Elefante Branco, noutro local, que tenta manter
o ambiente (e, claro, o famoso bife que é servido até às quatro da manhã).
Manuel Ribeiro dedicou a sua vida ao Elefante Branco. Nunca
casou nem teve filhos, viveu sempre com a mãe enquanto ela estava viva. Hoje,
aos 73 anos, tem uma saúde mais debilitada e está reformado.
Foi a partir das suas inúmeras histórias e memórias dos
tempos no Elefante Branco que a ex-jornalista Elsa Bicho escreveu o livro “O
Porteiro do Elefante Branco”, editado pela Prime Books, com 150 páginas.
Está à venda por 13,90€.
Em conversa com a NiT, Elsa Bicho explica que nunca na vida
entrou no Elefante Branco, mas que sempre ouviu as histórias deste mítico
espaço de Lisboa. O convite para escrever o livro partiu da própria editora,
que procurava alguém que pudesse traduzir em páginas todas as histórias de
Manuel Ribeiro.
A autora do livro passou seis ou sete tardes inteiras, entre
cigarros e cafés, durante mais de um mês, a conversar com o antigo porteiro do
Elefante Branco — natural de Olhão, no Algarve, e que veio para Lisboa com
apenas dez anos. “Foi curto mas intenso”, resume a experiência à NiT. “Ele
estava reticente, por isso era preciso avançar rapidamente, antes que ele
desistisse da ideia de contar estas histórias.”
Elsa Bicho explica que o livro também ajuda a desmistificar
a aura de secretismo que sempre existiu à volta do Elefante Branco — porque, lá
está, era muito difícil entrar. “Não tinha nenhum varão nem salas privadas, era
simplesmente um restaurante e bar requintado com uma pista de dança que recebia
homens de posses.”
A autora diz que os empregados do Elefante Branco — numa era
de prosperidade económica para Portugal — recebiam enormes gorjetas todos os
dias. “A senhora que limpava as casas de banho — porque havia um imenso cuidado
com a higiene no espaço — fazia o equivalente a centenas de euros por dia em
gorjetas.”
Também Manuel Ribeiro conseguia viver bem como porteiro.
Recebia gorjetas de forma frequente e chegou a ter três Porsches. “Aliás,
dizia-se que o melhor parque automóvel de Lisboa estava à frente do Elefante
Branco, porque havia sempre lá carros topo de gama.”
Entre as histórias que estão neste livro, muitas delas
escritas na primeira pessoa, encontra-se uma com referências a Bryan Adams,
músico canadiano que visita frequentemente o nosso País.
“No primeiro concerto que dá em Alvalade, em 1994, vejo
aparecer um tipo do lado do Conde Redondo, casaco castanho, colarinhos
levantados, um aspeto de gajo duvidoso. Chegou à porta, a falar português e
tudo, disse-lhe quanto era, dei-lhe uma senha, a casa estava cheia e ele
entrou… Passado um bocadinho começo a ouvir um bruá lá dentro. Gritos, palmas,
um escarcel! Eram elas todas malucas: Bryan Adams, o Bryan Adams!”
E acrescentou: “E sabe? Voltou lá, discretamente, depois do
concerto. Ia sempre sozinho. Nunca criou qualquer problema ou fez exigências.
Eu conhecia-o, mas era a cantar. Agora ali, parecia disfarçado. Não o
reconheci, se não, não lhe cobrava entrada, pois!”
Outra estrela internacional que passou pelo Elefante Branco
e de quem Manuel Ribeiro se recorda é o ator Hugh Grant.
“Outra vez apareceu-me um estrangeiro, muito cedo, eram
ainda nove horas da noite. Sozinho. Não gostei do aspeto do homem. Falei um
pouco com ele, para lhe tirar a pinta, mas acabei por lhe dar uma senha e ele
lá entrou. Importa dizer que a parte mais escura do Elefante ficava por baixo
da cabine do disc jockey, mesas que estavam encostadas ali ao sítio onde se
punha a música.
Esse indivíduo foi lá mais umas três vezes, até levava o
dinheiro logo na mão. Até que o DJ residente tinha entrado de férias e estava
lá um brasileiro no seu lugar. E o bendito homem continuava a sentar-se sempre
debaixo do DJ. Mandava vir uma garrafa de Moet & Chandon e ali ficava.
Bem, certa vez tive de ir à casa de banho e, como a do
escritório estava ocupada, fui à da cozinha, por trás da cabine do DJ. Quando
saí, diz-me o brasileiro que punha a música: Ó Ribeiro, o que é que este gajo
vem todos os dias para aqui fazer? Sei lá, o mesmo que os outros. Mas você não
sabe quem é? Eu não, sei lá eu quem é o gajo. Tu sabes? Claro, é o Hugh Grant!”
Há um capítulo deste livro só dedicado a futebolistas, já
que eram clientes assíduos do Elefante Branco. Ao longo dos anos, muitos deles
foram barrados e impedidos de entrar por Manuel Ribeiro porque calçavam
sapatilhas — o que não era permitido dentro do espaço.
O antigo porteiro lembra-se de, por exemplo, barrar Romário
e muitos dos seus colegas quando o brasileiro jogava pela equipa holandesa do
PSV. “Lá foram embora, voltaram aos hotéis, acho que, inclusive, andaram para
lá a pedir sapatos a empregados e regressaram. E só entraram bem calçados.”
Noutra ocasião, durante o Euro 2004 — que foi um período de
glória para o Elefante Branco —, Ribeiro lembra-se de que quase toda a seleção
da República Checa apareceu à porta do espaço às quatro e meia da manhã. Eram
jogadores como Karel Poborsky, Milan Baros, Pavel Nedved e Petr Cech.
“Queriam meninas. Não podiam entrar, já estava fechado. Só
lá estavam ainda alguns clientes habituais, que ficavam a conversar depois da
porta fechar. Eh pá, mas também não queríamos deixar de atender tão ilustres
visitantes. Telefonei a uma ou duas, essas ligaram a outras, e lá foram ter com
eles não sei onde.”
E acrescenta: “A propósito, e o Rosicky que vinha na mala do
carro? Saíam dos estágios às três da manhã e como o Rosicky, que estava no
Borussia Dortmund e depois foi para o Arsenal, era o mais pequenino, punham-no
na mala do carro, porque o Koller, aquele careca muito grande, para aí com uns
dois metros, ocupava todo o banco da frente. Tomaram-lhes o gosto, nem queiram
saber, depois éramos nós que lhes arranjávamos companhia para saírem!”
Também há episódios relatados que envolvem a Seleção
Nacional, claro. “E uma vez a Seleção? Tinham de estar todos às 23 horas no
hotel, sim, está bem está. Eles queriam era estar na conversa com elas. Outras
vezes apareceram lá jogadores da Seleção, já depois das quatro da manhã, sim.
Nós a querermos fechar a porta e ainda o Petit, o Deco e outros andavam à bulha
para ver quem pagava o bife e os copos. No fim, quem pagava era sempre o Deco!”
Fonte: NiT, 23 de novembro de 2019



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