Fundadora do movimento das Mulheres Conservadoras: "Havia um vazio que precisava de ser preenchido"
“Há mulheres que seguem
tendências. Outras seguem princípios.” Foi com este mote que um
grupo de mulheres criou recentemente o movimento “Mulheres Conservadoras
Portugal”, um novo movimento político e social próximo da direita conservadora.
Entre as suas embaixadoras estão deputadas do
Chega e influencers portuguesas e brasileiras.
Apesar de pouco se saber sobre o grupo e de a sua
oficialização estar prevista para novembro, as “Mulheres Conservadoras” já dão
muito que falar nas redes sociais, em tertúlias televisivas ou em colunas de
opinião de jornais.
Um dos rostos que deu a cara pelo movimento, tendo sido
oradora no pré-lançamento do grupo, no dia 11 de julho, no Palácio Valenças, em
Sintra, foi a influenciadora Rute Sousa.
Alguns dos seus comentários, nomeadamente num programa de
debate na SIC Notícias, no âmbito da criação do movimento, têm adensado
a controvérsia. A especialista em comunicação
mostrou-se contra o aborto "em qualquer circunstância", mesmo quando
uma mulher é violada.
Mas, afinal, quem são estas “Mulheres Conservadoras”?
O grupo apresenta-se como um novo movimento político e
social com valores conservadores. Rebeca Batista, fundadora, indica que este
"nasceu de conversas entre mulheres
que já se conheciam e que foram percebendo, aos poucos, que havia um vazio que precisava de ser preenchido".
"Muitas deixaram de se rever no feminismo
contemporâneo", explicou à Euronews.
"O que questionamos é a deriva mais recente, em que uma
lógica de direitos universais foi sendo substituída por uma leitura identitária
e conflito permanente entre grupos. Isso torna-se concreto quando direitos
conquistados pelas mulheres com base no sexo, no desporto, nos espaços
reservados, no sistema prisional, e que colidem com direitos reivindicados com
base na 'identidade de género'".
Entre algumas das figuras envolvidas destacam-se as deputadas do Chega Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro; Lorena Gato,
criadora de conteúdos online que se autodescreve como “embaixadora do Reino de Deus vivendo contra a cultura do mundo”; a já referida Rute Sousa,
produtora de conteúdos e
defensora do Estado de Israel, que foi uma das influencers digitais
que viajou para Israel há poucas semanas, a convite do país. E a fundadora
Rebeca Batista, dirigente de uma fundação evangélica.
Entre as oradoras, na apresentação, estiveram também figuras
da direita nacional e internacional, como a chefe de gabinete do grupo
parlamentar do CDS-PP, Catarina Nicolau Campos, e a deputada brasileira
bolsonarista Priscila Costa.
Em entrevista à Euronews, a professora de Ciência
Política do ISCSP e socióloga Paula Espírito Santo considera que o movimento
conservador feminino pretende “repescar ou encontrar valores tradicionais de
uma família com um protótipo normativo que está muito fora da ideia do feminismo,
em que a afirmação da mulher faz-se para além da família e faz-se também pelos próprios valores daquilo que é a
identidade e das competências e daquilo que é a liberdade de escolha”.
Em abril de 2026, as investigadoras Sílvia Roque, Rita
Santos e Júlia Garraio publicaram um estudo sobre o papel das mulheres na
articulação e disseminação do discurso antifeminista na extrema-direita
portuguesa.
Em declarações à Euronews, as investigadoras
estabeleceram paralelos entre o novo movimento e a antiga estrutura “Mulheres
do Chega”, criada em 2020. Sílvia Roque considera que o atual projeto procura
ultrapassar o enquadramento partidário e assumir-se como uma estrutura “transpartidária”
e “profissionalizada” com embaixadoras e “ligações transnacionais explícitas ao
ecossistema bolsonarista/evangélico brasileiro”.
Para a professora de Ciência Política do ISCSP, Paula
Espírito Santo, o movimento vem formalizar-se “do ponto de vista organizativo”
e fortalecer algumas ideologias da extrema-direita.
“Eu acho que é um movimento
de afirmação, sobretudo simbólico. Estes movimentos não têm
propriamente uma força efetiva do ponto de vista formal ou político, mas acabam
por ser um respaldo às pretensões da religião, do catolicismo, do cristianismo,
da corrente evangélica, da ideia de preservação da vida e, no fundo, daquilo
que defende o Chega”, explica.
A relação com a extrema-direita
Paula Espírito Santo considera que o movimento surge como
mais uma “âncora para o Chega” - um dos partidos na oposição no parlamento, a
par com o PS - com o objetivo de chegar a outros públicos, como a comunidade
evangélica, e conquistar eleitorado.
“No fundo, é a diversificação da palavra política com
eventuais efeitos eleitorais, se pensarmos que isto pode agradar também a
outros grupos conservadores no plano religioso”, defendeu.
Rita Santos, uma das autoras do estudo e investigadora na
Universidade de Coimbra, considera que, mesmo que o grupo não tenha sido criado
dentro de um partido, “uma organização deste género pode ser estrategicamente
muito vantajosa para a extrema-direita”, porque permite “apresentar
determinadas posições” não como sendo do partido, “mas como preocupações de mulheres comuns, mães, esposas”.
Esta ideia vai ao encontro de outro fenómeno relevante e
abordado pelas três investigadoras no seu estudo: a dimensão da voz feminina em
determinados contextos, como no discurso antifeminista. Ou seja, uma mulher
acaba por, junto de outras mulheres, ter maior legitimidade do que um homem
para proferir um discurso antifeminista.
“Se uma mulher que diz ‘o feminismo não me representa’
contribui implicitamente para a normalização do antifeminismo, um grupo ou
organização especificamente feminina multiplica esse efeito, permitindo que a
extrema-direita comece a aparecer como um espaço que dá às mulheres a
oportunidade de falar em nome próprio”, explica Rita Santos, especialista nas
áreas de Feminismo, Relações Internacionais e Estudos de Segurança.
A fundadora do movimento, Rebeca Batista, recusa
"qualquer relação institucional ou privilegiada com o Chega", apesar
de, atualmente, existir "uma presença mais visível de mulheres ligadas ao
Chega".
"O Chega assume hoje uma matriz conservadora mais
evidente, o CDS tem essa tradição, mas dimensão parlamentar menor, e o PSD é
historicamente abrangente", explicou, reforçando que o movimento conta
"com mulheres do Chega, do PSD e do CDS, e estamos abertas a mulheres de
outros partidos ou sem filiação nenhuma".
“Ser conservadora não significa automaticamente ser
antifeminista”
Nas redes sociais, tem sido muito debatida a configuração
deste movimento dentro do “conservadorismo”, com algumas vozes a questionar a
categorização do grupo.
Questionada se são um movimento antifeminista, Rebeca
Batista explica que o "antifeminismo é um
movimento político reacionário que se limita à produção de contra-narrativas",
indicando que "não é, nem de longe, isso que queremos".
"Reconhecemos, antes de mais nada, que existe um
sofrimento que é específico da condição feminina. Reconhecemos que ser mulher torna-nos mais vulneráveis, mais
dependentes da comunidade e dos homens e que, portanto, precisamos buscar
também na política a garantia de um espaço que possa integrar esse modo
específico de ser", explicou a fundadora do movimento.
Já as investigadoras dizem que o antifeminismo é uma das
bandeiras das “Mulheres Conservadoras Portugal”; contudo, deixam claro que “ser
conservadora não significa automaticamente ser antifeminista”.
Segundo Rita Santos, as participantes do grupo apresentam
“definições diferentes, contraditórias e mesmo não coincidentes com o
conservadorismo”.
“Uma mulher pode valorizar a
família tradicional, a maternidade ou a religião e, simultaneamente, defender a
igualdade jurídica, política e económica entre mulheres e homens”,
esclarece a investigadora à Euronews.
O mesmo acontece com a oposição ao aborto. Uma mulher pode
ser contra, mas essa ser a sua escolha individual, e defender que essa oposição
não seja “uma imposição para as outras mulheres”, explica. É isto que, por si
só, pode mostrar se uma pessoa é antifeminista.
A investigadora esclarece ainda que o que “transforma uma
conservadora em ‘antifeminista’” é “negar que exista desigualdade
estrutural/institucional de género”, bem como “enquadrar o feminismo como
ideologia adversária a combater e ameaça à família, nação e ordem social e
moral”.
Para as investigadoras, não há dúvidas de que o “Mulheres
Conservadoras Portugal” “é um grupo claramente antifeminista”, algo que é
facilmente percebido nos seus discursos, principalmente nos das três deputadas
do Chega analisados pelas investigadoras no âmbito do seu estudo.
Ligação com a Igreja Evangélica
Apesar de não existir uma ligação oficial e institucional do
partido Chega à Igreja Evangélica, em 2020 surgiram alegações de que o partido era apoiado por “lóbis evangélicos”.
Já em relação a este movimento de mulheres, a Aliança
Evangélica Portuguesa (AEP) veio, entretanto, distanciar-se: "Não podemos
aceitar em silêncio que um grupo inteiro de pessoas de paz seja denegrido, por
associação, com base em generalizações não fundamentadas sobre um fenómeno
político que lhe é, na sua esmagadora maioria, alheio", é possível ler num
comunicado, publicado no site da organização, que reiterou ser
"apartidária".
"Não nos associamos a movimentos políticos, não os
apoiamos nem os condenamos enquanto organização, e não recomendamos aos crentes
evangélicos qualquer voto ou filiação partidária".
Apesar da proximidade apontada com o Chega, o movimento de
“Mulheres Conservadoras” aproximou-se do evangelismo, até porque Rebeca Batista
é líder nacional da Foursquare Youth Portugal, estrutura ligada à Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular,
uma corrente do cristianismo evangélico.
Júlia Garraio, outra das investigadoras do estudo
“Mobilização feminina e enquadramentos discursivos antifeministas na
extrema-direita portuguesa”, considera que as igrejas evangélicas “têm assumido
um papel cada vez mais relevante na expressão política do conservadorismo e do
antifeminismo, em detrimento da influência, por exemplo, da Igreja Católica
que, apesar de ter criado o conceito ‘ideologia de género’, acabou por perder o
controlo desta agenda”, referiu à Euronews.
Para a investigadora da Universidade de Coimbra, contudo,
não se devem aglomerar “os evangélicos” e considera que aqui estão em causa
apenas “algumas redes e lideranças evangélicas conservadoras, sobretudo aquelas
que transformam questões como aborto, educação sexual, género e família em
temas de mobilização política”, esclarece.
Redes sociais e influencers são chave do movimento
As redes sociais têm desempenhado um papel muito forte e
crucial na propagação de vários conteúdos, principalmente porque conseguem
passar fronteiras.
“Uma influenciadora
brasileira pode ter uma audiência portuguesa
sem precisar de qualquer organização formal em Portugal. Conceitos,
slogans, vídeos e enquadramentos políticos circulam quase instantaneamente”,
relembra Sílvia Roque, destacando, por isso, o papel fundamental deste espaço
para “a participação das mulheres na disseminação do extremismo, do supremacismo
branco e da oposição ao feminismo”.
As redes sociais são o meio por onde passa a mensagem, mas
aqui temos sempre de olhar para o mensageiro e é neste contexto que surgem as
influencers.
“As influencers são talvez
uma das figuras mais interessantes deste processo porque estão na fronteira entre política e
quotidiano”, esclarece Sílvia.
Estas figuras acabam por chegar a outros públicos porque nem
sempre são políticos e não têm nem a imagem nem o discurso dos mesmos, que
muitas vezes afastam as pessoas da política. “Falam de maternidade, casamento,
educação dos filhos, religião, beleza, relações ou estilos de vida, e é através
desses temas aparentemente privados que determinadas conceções políticas sobre
género e sociedade podem ser normalizadas”, acrescenta.
As investigadoras referem estudos realizados sobre mulheres
influenciadoras, nos quais é analisada a presença nas redes sociais. “A forma
como promovem um estilo de vida dito feminino e incentivam
as mulheres a tornarem-se donas de casa tem sido crucial para
radicalizar as suas seguidoras, combater o feminismo e fomentar o nacionalismo
branco, concluindo que as mulheres da extrema-direita tornam o extremismo mais
próximo, familiar e identificável”, afirma Júlia Garraio.
Mulheres Conservadoras quererão constituir-se como partido?
Apesar de não se constituir como um partido, o movimento
pode desempenhar um papel de influência importante na vida pública e política
portuguesa.
"Ser apartidário não é ser apolítico. Sabemos que a
simples manifestação de uma opinião, qualquer que seja ela, já é, afinal, uma
forma de fazer política", explica Rebeca Batista. "Queremos
contribuir para o debate e apresentar propostas concretas, sobretudo na
proteção das mulheres, na maternidade e em políticas próvida".
Para a fundadora, o tema da Educação é também uma
preocupação do movimento, nomeadamente as reservas apresentadas sobre
"certas discussões sobre 'identidade de género'".
"Defendemos conteúdos
adequados à idade e um papel central das famílias nas matérias de
maior sensibilidade ética. Temos reservas quanto à introdução precoce de certas
discussões sobre 'identidade de género' junto de crianças muito pequenas: aos
cinco ou seis anos, a prioridade da escola é dar ferramentas para aprender e
crescer, respeitando o papel dos pais na
educação".
Após a oficialização do grupo, será o próximo passo a
criação de um partido político?
“Um partido próprio parece pouco provável e pouco racional,
pois perderia justamente a vantagem que procuram construir, que é ser um grupo
transpartidário e poder alimentar simultaneamente CH, PSD e CDS-PP sem competir
eleitoralmente com nenhum deles”, assegura a investigadora Sílvia Roque.
Júlia Garraio acrescenta que a vantagem de permanecer como
um movimento é precisamente criar “uma infraestrutura de mobilização” através
de “eventos, redes sociais, formação que pode ser ativada eleitoralmente sem
estar amarrada às contas ou à disciplina de um partido”.
Além disso, Rita Santos recorda que “uma mulher pode não
querer filiar-se no Chega ou sequer identificar-se como de extrema-direita, mas mobilizar-se enquanto mãe, católica ou evangélica,
defensora da família, contra o aborto ou contra aquilo que estes movimentos
chamam ‘ideologia de género’”. É uma identidade potencialmente mais
abrangente e socialmente mais aceitável”, conclui.
Fonte: Euronews, 27 de agosto de 2026



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