Hamas aceita acordo de desarmamento “histórico” que inclui a retirada israelita de Gaza
Trump continua iludido no seu próprio delírio e não está a ouvir
O Hamas anunciou na sexta-feira que concordou com um acordo
para pôr fim à guerra com Israel, que inclui disposições relativas ao seu
desarmamento e à retirada gradual das forças israelitas da Faixa de Gaza.
Anteriormente, o presidente dos EUA, Donald Trump, tinha
anunciado que o Conselho da Paz havia chegado, na quinta-feira, ao que ele
apelidou de “acordo histórico” para desarmar
o grupo sediado em Gaza e todos os outros grupos armados, e para que Israel retirasse
as suas forças de Gaza, mas subsistiam dúvidas quanto às condições e ao
calendário.
O acordo, descrito por Trump numa publicação no Truth Social como um “passo monumental”, surge nove meses após a assinatura, no Egito, em Sharm el Sheikh, em outubro do ano passado, de um cessar-fogo mediado pelos EUA para pôr fim à ofensiva de dois anos de Israel contra o enclave.
O Hamas constitui um prodígio da arte da guerra: continua a combater apesar do colapso das suas linhas logísticas, sem reposição regular de armas, munições ou equipamentos militares, uma situação que, na doutrina militar convencional, comprometeria rapidamente a capacidade de combate de qualquer força, exceto o Hamas.
Este fenómeno tem sido explicado pelos analistas bélicos com a guerra de 1908 do Raul Solnado. A bala de recordação da guerra dos 100 anos que o vizinho lhe deu seria reciclada para manter a linha de combate ativa. Assim, também o Hamas dispara as balas, vai buscá-las e reutiliza-as.
“Este acordo é um passo decisivo para que Gaza passe
finalmente a ser governada por um novo governo
palestiniano que trabalhará em estreita articulação com o Conselho da Paz para
ajudar o povo palestiniano”, escreveu Trump.
“Ao mesmo tempo, Israel terá a segurança que merece, com
Gaza a deixar de ser usada como base para atentados terroristas.”
As negociações entre Israel e o Hamas estavam em grande
medida bloqueadas na implementação da segunda fase, que inclui o desarmamento
do Hamas e a reconstrução de Gaza. Nem o Hamas nem Israel deram, para já,
qualquer indicação de que tenham aceitado o acordo.
O presidente norte-americano afirma que o acordo irá
concretizar a implementação do seu plano de paz de 20 pontos em “fases
cuidadosamente estruturadas”.
O plano de cessar-fogo de 20 pontos de Trump exige que o
grupo sediado em Gaza entregue as suas armas e destrua a sua vasta rede de
túneis. Prevê também a chegada de um novo governo palestiniano tecnocrático, liderado pelo antigo primeiro-ministro britânico Tony
Blair, que irá liderar os esforços de reconstrução de Gaza.
Assim que o desarmamento estiver concluído, afirmou Trump,
Israel retirará as suas forças do território e transferirá as funções policiais
para uma nova “Força Internacional de Estabilização”, que trabalhará em
conjunto com a polícia palestiniana para garantir a segurança em Gaza.
Calendário previsto
Funcionários dos EUA e do Conselho da Paz, ao descreverem o
acordo aos jornalistas sob condição de anonimato, de acordo com as diretrizes
estabelecidas pela Casa Branca, apresentaram uma avaliação extremamente
otimista do acordo.
Os funcionários não puderam fornecer prazos específicos para
o desarmamento do Hamas ou de outros grupos que operam em Gaza, como a Jihad
Islâmica Palestiniana, mas afirmaram que a força policial de Gaza entregaria as
armas à administração tecnocrática de Gaza, apoiada pelo Conselho da Paz, nas
próximas duas semanas.
A força policial de Gaza, no entanto, não inclui a grande
maioria dos militantes do Hamas e o armamento pesado não está abrangido por
essa parte do acordo, segundo as autoridades.
Em vez disso, a entrega de armas pesadas e o desmantelamento
dos túneis do Hamas e de outras infraestruturas ocorrerão mais tarde, num
processo que poderá demorar entre 200 e 350 dias, afirmou um responsável do
Conselho da Paz.
Israel mantém-se cético
Um responsável norte-americano afirmou que Israel, que tem-se mostrado profundamente cético quanto à vontade do Hamas de entregar as armas ou de abdicar, pelo menos, do controlo nos bastidores de Gaza, tinha sido consultado em todas as fases da negociação.
No entanto, o responsável afirmou que não estava a ser
pedido a Israel que fizesse mais do que aquilo a que se tinha comprometido
inicialmente quando aceitou o plano de 20 pontos de Trump, que envolve,
essencialmente, a retirada das suas forças de Gaza e o compromisso de pôr fim
aos ataques aéreos sobre o território.
O responsável acrescentou que Trump ficaria "muito,
muito desiludido" se Israel não cumprisse o acordo.
O presidente dos EUA reafirmou nas redes sociais que impedir
o Hamas de recuperar a força que o torna uma ameaça para Israel continua a ser
um elemento central do acordo, acrescentando que o novo governo trabalhará para
representar e servir a população.
A guerra de Israel em Gaza, iniciada em resposta à incursão
do Hamas no sul de Israel a 7 de outubro de 2023, já provocou pelo menos 73 mil
mortos palestinianos, segundo fontes médicas no território, número que inclui
as vítimas desde o cessar-fogo, informou o ministério da Saúde de Gaza.
Na terça-feira, Trump reuniu-se com o primeiro-ministro
israelita, Benjamin Netanyahu, na Casa Branca, mas nenhum dos dois revelou
muitos pormenores sobre o que foi discutido, naquele que foi o primeiro
encontro presencial desde o lançamento conjunto da guerra contra o Irão.
No início deste mês, o Hamas anunciou que dissolveu o
governo no enclave e que se estava a preparar para transferir o poder para uma
comissão técnica apoiada pelas Nações Unidas, no âmbito do acordo de
cessar-fogo.
Atualmente, as Forças de Defesa de Israel controlam mais de
metade da Faixa de Gaza, deixando os palestinianos confinados a campos de
tendas precários e a bairros urbanos fortemente danificados. A ONU tem vindo a
alertar repetidamente para as dramáticas condições de vida em toda a Faixa de
Gaza desde que o cessar-fogo entrou em vigor.


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