Migrantes como "moeda de troca", "flashmob" em Ceuta e... EUA "irritados"
A crise
em Ceuta está a ser vista por alguns especialistas como "arma
política", havendo até quem defenda que possa ter tido influência de
Israel e dos Estados Unidos. Mas o que está em causa?
A crise em Ceuta, onde entraram 72 mil pessoas na semana
passada - e já só faltam regressar a Marrocos cerca de duas mil - continua a
dar que falar. E se, há dias, a questão era mais discutida de uma perspetiva
europeia, hoje, nem uma semana depois, o assunto já suscita uma possível
"irritação" nos Estados Unidos, nomeadamente, vinda do presidente,
Donald Trump.
Em declarações à CNN Portugal, o major-general
Agostinho Costa considerou que o "que vimos nestes dias foi,
fundamentalmente, uma flashmob de um conjunto de pessoas que vieram a correr na
sequência de - e hoje é ponto assente - de uma manipulação através das redes e
que entraram por Ceuta dentro para colocar um problema político, difícil e
grave a Espanha".
Na sua opinião, já se sabe quem são os "mentores"
desta situação, e, questionado sobre o assunto, respondeu: "Basta ver as declarações do representante de Israel nas
Nações Unidas, Danny Dannon. Basta ver as declarações de um conjunto de
personalidades norte-americanas e basta ver o que diz Marjorie Taylor Greene".
"Todas as circunstâncias são propícias a um incidente
desta natureza. Por um lado, a irritação que os EUA têm com Espanha pelo facto
de o governo espanhol não ter apoiado Trump na ação militar que está a conduzir
no Irão. A irritação que provocou em Trump o facto de Espanha ter sido o único
país que diz que não alinha nos 5% - na fantasmagórica e absolutamente
desmesurada regra que Trump impôs à NATO", exemplificou.
O comentador continuou a defender que o 'calcanhar de
Aquiles' de Washington estava a ser Madrid, dizendo que, na situação com a
Aliança acima referida, a posição de Espanha "irritou bastante
Trump". "O facto de o governo espanhol
de Pedro Sánchez ser muito crítico em relação ao genocídio em Gaza, à ação
israelita. E vê-se a irritação do governo israelita".
Recorde-se que o primeiro-ministro de Espanha, Pedro
Sánchez, esteve na Argélia para fortalecer relações dez dias antes da entrada
dos migrantes em Ceuta. Em 2021, sublinhe-se, as entregas de gás argelino a
Portugal e Espanha deixaram de usar o gasoduto que passa por Marrocos e
passaram a ser feitas exclusivamente pelo Medgaz, que já serve a Península
Ibérica.
E quanto ao 'timing'? "Porque agora é o momento certo.
A conclusão é da fraqueza da União Europeia. Neste momento viu-se a falta da
solidariedade europeia. E viu-se que numa crise que nem é dentro da Europa, é
em África, toda a retórica da União Europeia colapsou", respondeu,
referindo-se aos países que desde logo começaram a ponderar colocar Espanha
fora do Espaço Schengen.
Migrantes como "moeda de troca" e
"ameaça híbrida"
A possibilidade de os Estados Unidos e Israel entrarem para
esta equação como desestabilizadores tem sido um tema falado por vários
especialistas. À Lusa, Felipe Pathé Duarte, professor na Nova School of Law -
Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, disse que analisa
"factos e não especulações ou teorias da
conspiração".
"E o que é que é o facto? É que não é a primeira vez
que Marrocos recorre a esta questão dos migrantes, o fluxo migratório, para
pressionar" Madrid, respondeu, lembrando o facto de, em abril de 2021, o
presidente da Polisário, Brahim Ghali, ter sido internado em Espanha para
tratamento médico de emergência devido à Covid-19, gerando uma grave crise
diplomática com Marrocos.
"Houve imediatamente uma reação marroquina
relativamente a isso e, hoje, o que assistimos é que há uma disponibilidade de
Marrocos para utilizar os migrantes como moeda de troca, para ir obtendo o
reconhecimento das suas reivindicações geopolíticas, nomeadamente sobre o Saara
Ocidental, e, no fundo, parece-me que foi o que aconteceu", realçou.
O especialista
fala ainda sobre a ideia de que o que se passou em Ceuta possa estar
relacionado com a interpretação do acórdão do Tribunal de Justiça Espanhol,
tendo esta sido uma das questões a serem primeiramente colocadas por Sánchez,
que condenou a atuação das máfias neste aspeto.
"Não me parece que tenha sido resultado de uma
interpretação do acórdão do Tribunal de Justiça Espanhol e não vou entrar em teorias da conspiração, mas, tendo em conta
que isto tem sido recorrente, parece-me claramente que é um exercício de poder
de Marrocos sobre Espanha, ou seja, o fluxo migratório e a abertura, ou digamos
a propulsão do fluxo migratório por parte de Marrocos, é uma forma de exercício
de poder na forma de ação híbrida", insistiu.
O especialista apontou ainda que tende a ver a situação não
como uma crise migratória: "É
essencialmente uma forma de ameaça híbrida
e do exercício de poder de Marrocos para fazer valer as suas
reivindicações", sustentou Pathé Duarte, lembrando que este tipo de
situações "não é incomum" - e deu o
exemplo da Rússia, "que utiliza amiúde e apoia amiúde fluxos de
migrantes e refugiados nas fronteiras com a Polónia e com os estados do
Báltico". tais situações, refere, trazem "disrupções, instabilidade
social e política, tensão política, polarização e um dilema moral".
O investigador e especialista em migrações Jorge Malheiros
considera que os migrantes em Ceuta foram utilizados "como arma
política", num aproveitamento oportunista da direita europeia para
reforçar uma lógica securitária de controlo de fronteiras, também com objetivos
eleitorais internos.
Para o investigador
do Núcleo MIGRARE - Migrações, Espaços e Sociedades do Centro de Estudos
Geográficos da Universidade de Lisboa, o que fica deste caso, "mais do que
o facto em si, que é um facto grave", que colocou "enorme
pressão" sobre um território pequeno, é "a forma como ele foi
instrumentalizado e como está a ser utilizado como arma política, mesmo dentro
da União Europeia".
Rejeitando "entrar em teorias
de conspiração" que colocam governos de direita de países
terceiros a fomentar a crise que se gerou em Ceuta, Jorge Malheiros admite que
"há claramente uma manipulação geopolítica", nomeadamente por parte
de Marrocos, país a que aponta um "afrouxamento do controlo" fronteiriço,
o qual não dissocia da visita de Sánchez à Argélia.
Reação de Marrocos? Utilização "maliciosa do
espaço digital"
Esta terça-feira, a Lusa teve acesso a um comunicado
divulgado pelo Ministério do Interior de Marrocos, no qual a pasta atribui a
entrada ilegal de dezenas de milhares de pessoas nas cidades espanholas de
Ceuta e Melilla à "conjugação de vários fatores", destacando-se
"a utilização maliciosa do espaço digital".
Segundo a tutela defende, os acontecimentos que levaram à
entrada de dezenas de milhares de pessoas "não resultaram de
circunstâncias fortuitas nem de um movimento espontâneo".
"Pelo contrário, a utilização maliciosa do espaço
digital, a divulgação de informações falsas, a ação de redes de tráfico de
seres humanos, bem como interpretações erradas de determinadas disposições
jurídicas e administrativas, fizeram crer que seria possível aceder facilmente
ao espaço europeu sem consequências jurídicas", lê-se no comunicado.
No comunicado não existe qualquer referência a uma eventual
retaliação de Marrocos face à postura de Espanha em relação ao Saara Ocidental,
questão levantada por vários analistas internacionais. Por seu turno, o governo
marroquino refere que as recentes decisões das autoridades judiciais
espanholas, que limitaram a possibilidade de aplicar o procedimento de
devolução imediata a determinados migrantes em situação irregular intercetados
no mar, "desempenharam um papel particular".
Fonte: Notícias ao Minuto, 4 de agosto de 2026
Acordos de Abraão
Nos termos do acordo, inicialmente anunciado pela Casa Branca a 10 de dezembro de 2020, Marrocos avançará para “relações diplomáticas, pacíficas e amistosas plenas” e relações comerciais e retomará os contactos oficiais com Israel, e serão realizados voos diretos entre os dois países. Marrocos reconheceu oficialmente Israel na sua comunicação ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. Segundo Kushner, os dois países planeavam "reabrir imediatamente os seus escritórios de ligação em Rabat e Telavive com a intenção de abrir embaixadas". O ministro delegado Mohcine Jazouli, do ministério dos Negócios Estrangeiros, da Cooperação Africana e dos Marroquinos no Estrangeiro, afirmou que "o judaísmo está enraizado na cultura marroquina" e que a história judaica "apareceria nos manuais escolares e seria ensinada em breve". Serge Berdugo, secretário-geral do Conselho das Comunidades Judaicas de Marrocos, disse que a decisão de ensinar história e cultura judaicas nas escolas marroquinas "tem o impacto de um tsunami; [é] inédita no mundo árabe".
A 22 de dezembro de 2020, Kushner e o Conselheiro de Segurança Nacional de Israel, Meir Ben-Shabbat, cuja família imigrou de Marrocos para Israel, estavam entre as autoridades de alto nível que embarcaram num voo de Israel para Rabat, Marrocos, para assinar uma declaração conjunta comprometendo-se a iniciar voos diretos entre os dois países, promover a cooperação económica e reabrir as relações diplomáticas. gabinetes de ligação e avançar para relações diplomáticas plenas. Os Estados Unidos concordaram também em reconhecer a reivindicação de Marrocos sobre o território disputado do Saara Ocidental, ao mesmo tempo que instaram as partes a negociar "utilizando o plano de autonomia de Marrocos como a única estrutura para negociar uma solução mutuamente aceitável". Trump acrescentou que o seu país "reconhece a soberania marroquina sobre todo o território do Saara Ocidental e reafirma o seu apoio à proposta de autonomia séria, credível e realista de Marrocos como a única base para uma solução justa e duradoura para a disputa sobre o território do Saara Ocidental". Kushner pediu a ambos os lados que trabalhassem com as Nações Unidas na implementação de uma proposta para dar ao povo do território uma ampla autonomia. Os EUA disseram ainda que pretendiam abrir um consulado em Dakhla, no Saara Ocidental.
Fonte: Wikipédia
Marrocos nomeia importante autoestrada em homenagem a Trump, em plena disputa sobre o Saara Ocidental
Marrocos batizou recentemente uma autoestrada com mais de 1055 quilómetros de comprimento em homenagem ao presidente Trump, citando a sua decisão de reconhecer a soberania de Rabat sobre o Saara Ocidental como a razão para a homenagem.
“Embora as nossas relações tenham sido sempre baseadas numa estreita amizade e lealdade, nunca foram tão vibrantes e frutíferas como durante os seus dois mandatos como presidente”, escreveu o rei Mohammed VI de Marrocos numa carta ao presidente datada de 2 de julho, segundo a Bloomberg.
“Para honrar esta demonstração de amizade e paz, e como expressão pessoal da minha profunda gratidão, tomei a decisão de nomear uma das mais importantes autoestradas do Reino em sua homenagem, chamando-lhe ‘Donald J. Trump Highway’”, acrescentou o rei.
A autoestrada serve de ligação a outros países africanos e representa uma clara rota económica para as empresas desde Tiznit, em Marrocos, até Dakhla, que é considerada por alguns como parte do Saara Ocidental.
A soberania sobre o território do Saara Ocidental tem sido alvo de intensa disputa tanto por Marrocos como pelo povo indígena saarauí, que se refere à região como um Estado autónomo conhecido como República Árabe Saarauí Democrática (RASD), segundo o Conselho de Relações Exteriores.
A RASD é apoiada por um movimento de resistência armada liderado pela Frente Polisário, apoiada pela Argélia, que se formou para se opor ao domínio colonial espanhol.
Os Estados Unidos e a União Europeia não reconhecem a RASD como um Estado autónomo, enquanto outros 47 Estados-membros das Nações Unidas a reconhecem.
No seu primeiro mandato, Trump reconheceu o Reino de Marrocos como o governo soberano do território. A decisão fez parte de um acordo que normalizaria as relações bilaterais entre Israel e Marrocos, formando os Acordos de Abraão.
A ONU mantém a posição de que se trata de um território sem autonomia administrativa, mas tem procurado, com frequência, uma solução para o diferendo que dura há décadas.
O rei Mohammad escreveu que as relações entre os EUA e Marrocos nunca foram tão “vibrantes” e “frutíferas” como durante os dois mandatos presidenciais de Trump.
Trump disse estar grato por dar o nome à autoestrada marroquina e que mal podia esperar para a visitar.
“Obrigado ao muito respeitado Mohammed VI, Rei de Marrocos — Uma grande honra! Espero poder percorrer toda a extensão desta grande autoestrada algum dia, espero que em breve”, escreveu Trump numa publicação recente no Truth Social.
Fonte: The Hill, 3 de agosto de 2026

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