Mortalidade nos centros do ICE dispara nos Estados Unidos
Pelo
menos 56 pessoas detidas ou intercetadas pelo Serviço de Imigração e Alfândegas
dos Estados Unidos morreram desde janeiro de 2025, quase tantas como nos
últimos sete anos. O aumento de mortes acompanha o reforço das operações contra
a imigração promovidas pela Administração Donald Trump e agrava as preocupações
sobre as condições de detenção e o acesso a cuidados médicos dos detidos
A morte de um cidadão salvadorenho num centro de detenção de
imigrantes em Nova Jérsia voltou a expor o aumento da mortalidade entre pessoas
sob custódia das autoridades de imigração dos Estados Unidos. Edwin
Lopez-Cornejo, de 40 anos, morreu a 3 de agosto no centro de detenção de
Delaney Hall, em Newark. Foi a segunda morte registada em oito meses nesta
instalação, com capacidade para cerca de 1000 pessoas e administrada pela
empresa privada GEO Group.
O caso soma-se a um balanço que se agravou desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025. Desde então, pelo menos 56 pessoas morreram depois de terem sido detidas ou intercetadas pelo Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos, conhecido pela sigla ICE. Destas, 49 morreram em centros de detenção de imigrantes.
O número aproxima-se do total de mortes registado durante os
últimos sete anos e reflete uma tendência que se acentuou nos últimos meses. Entre 2018 e 2024, morriam em média cerca de oito pessoas
por ano sob custódia das autoridades de imigração. Em 2025, foram
contabilizadas 33 mortes de pessoas detidas, intercetadas ou sob
responsabilidade do ICE. Em 2026, até ao início de agosto, o número
atingia 23.
O aumento das detenções ajuda a explicar parte desta subida.
A política migratória da Administração de Donald Trump levou a um aumento
significativo das operações do ICE e, consequentemente, da população colocada
em centros de detenção.
Mas os números sugerem que o problema não se resume ao
simples aumento de pessoas detidas. Segundo a ONG Human Rights Watch, a
população nos centros de detenção aumentou cerca de 80%, enquanto o número de
mortes mais do que triplicou. A organização
calcula que a taxa de mortalidade tenha aumentado 140%, alertando
para as condições de encarceramento e para as dificuldades no acesso a cuidados
médicos.
Mortes nos primeiros meses de detenção
Um dos dados que mais preocupa os especialistas é a rapidez
com que muitas destas mortes ocorrem. Das 49 pessoas que morreram em centros de
detenção desde janeiro de 2025, mais de 70% faleceram durante os primeiros três
meses. 12 morreram na primeira semana. Os números, por si só, não permitem estabelecer uma ligação direta entre as mortes e falhas na assistência médica.
Ainda assim, sucedem-se os relatos de dificuldades no acesso a medicamentos,
tratamentos e acompanhamento adequado.
A família de Edwin Lopez-Cornejo afirmou que o salvadorenho
não estaria a receber a medicação necessária para tratar a diabetes e a
hipertensão. As críticas estendem-se às próprias condições de vida dentro dos
centros. Antigos detidos, investigadores e organizações de defesa dos direitos
humanos têm denunciado problemas relacionados com alimentação, higiene,
sobrelotação e acesso limitado a cuidados de saúde. Trata-se de preocupações
que não são novas, mas que ganharam maior dimensão com o aumento rápido da
população detida.
A deterioração da saúde mental entre os detidos é outro
motivo de preocupação. Pelo menos 10 pessoas
cometeram suicídio em centros de
detenção de imigrantes desde janeiro de 2025. Estes casos representam cerca de
um quinto das mortes registadas durante o período. Os especialistas relacionam
este fenómeno com o isolamento, a incerteza sobre o futuro e o receio de
expulsão do país. A dificuldade em contestar decisões administrativas e a
permanência prolongada em detenção podem também aumentar a sensação de desespero.
Entre os detidos encontram-se não apenas pessoas em situação
irregular, mas também imigrantes que tinham seguido procedimentos
administrativos e que acabaram abrangidos pelo endurecimento da política
migratória. Algumas mortes levantaram ainda dúvidas sobre a versão apresentada
pelas próprias autoridades. Um dos casos mais controversos é o de Geraldo Lunas
Campos, cubano de 55 anos, que morreu a 3 de janeiro de 2026 num centro de
detenção em El Paso, no Texas.
Inicialmente, o ICE anunciou
que o homem sofreu uma emergência médica e indicou, mais tarde, que teria
tentado ferir-se. Uma autópsia divulgada mais tarde classificou a morte como
homicídio, alimentando interrogações sobre as circunstâncias do caso e sobre a
transparência dos relatórios oficiais.
O aumento das detenções trouxe também de novo para o centro
do debate o papel das empresas
privadas no sistema de imigração norte-americano. O ICE recorre a
companhias como a GEO
Group e a CoreCivic
para administrar vários centros de detenção. Estas empresas recebem contratos
do governo federal para gerir instalações destinadas a pessoas que aguardam
decisões sobre a sua situação migratória ou eventual expulsão.
Das 49 mortes registadas em centros de detenção desde janeiro
de 2025, 23 ocorreram em instalações
administradas por estas duas empresas, o equivalente a cerca de 46%
do total. Este dado não
permite concluir que a gestão privada seja responsável pelas mortes.
Também não há provas de que estas empresas tenham reduzido deliberadamente os
cuidados médicos para diminuir custos. Ainda assim, vários centros privados têm
sido alvo de denúncias e processos relacionados com as condições de detenção, a
alimentação e o acesso a cuidados de saúde.
A CoreCivic afirma
assegurar condições seguras e humanas e garante disponibilizar serviços médicos
e apoio psicológico. A GEO Group não tinha respondido às questões que lhe foram
dirigidas sobre o aumento das mortes. No entanto, a Human Rights Watch salienta
que o problema ultrapassa os centros privados. Também há registo de mortes em
instalações públicas e em prisões locais utilizadas pelas autoridades de
imigração.
Fonte: RFI, 8 de agosto de 2026

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