O fenómeno MrBeast: A história de Jimmy Donaldson, o criador de conteúdos que quer fazer a próxima Disney
Nata Lee, modelo internacional russa, influenciadora digital
e DJ, nascida a 17 de fevereiro de 1999, na Rússia
O que
acontece quando um criador de conteúdo ultrapassa a plataforma onde fez nome?
Jimmy Donaldson, mais conhecido como MrBeast, é um dos novos disruptores da
indústria dos média vindos do Youtube
MrBeast tornou-se o rosto de uma nova geração de criadores
de conteúdo que já não se limita ao YouTube. À medida que realizadores como
Kane Parsons (Backrooms) e Curry Barker (Obsession) levam o
sucesso da plataforma para o cinema de Hollywood, o maior youtuber do mundo
constrói um império que se estende ao
entretenimento, aos negócios e à filantropia. Mas a sua escala
tornou-o também numa figura polarizadora, que concentra tantos elogios e
fascínio como críticas e um debate crescente sobre o poder dos novos gigantes
digitais.
Passagem aérea de 1 dólar versus de 500 mil dólares”,
“Último a sair do círculo ganha 500 mil dólares” e “Sete dias preso numa ilha”
são alguns dos vídeos mais populares do seu canal de Youtube.
Mas como começou a jornada de Jimmy Donaldson, atualmente
com 28 anos? Recuemos a 2012, quando tinha 13 anos e publicava conteúdos
dedicados a jogos como Minecraft e Pokémon. O seu primeiro grande vídeo viral
chegou em 2017, no qual contou consecutivamente até 100 mil — uma gravação de
40 horas reeditadas para menos de 24 e que hoje ultrapassa as 33 milhões de
visualizações.
Desde aí, o seu percurso tem subido em flecha, inicialmente
impulsionado por um formato de doações, onde oferecia milhares de dólares a
pessoas em situação de sem-abrigo, até chegar a um modelo atual de desafios,
como um dos mais recentes intitulado “Sobreviva 30 dias acorrentado a um
estranho e ganhe 250 mil dólares”.
A sua estratégia passa por reinvestir grande parte das
receitas na produção dos vídeos, aumentando continuamente a escala dos
desafios, dos prémios e das produções. A combinação entre grandes orçamentos,
análise rigorosa dos dados de audiência e um formato pensado para prender o
espectador transformou o seu canal numa referência para milhares de criadores
de conteúdos. Mas não é só de vídeos de Youtube que o criador tem deixado marca
na indústria criativa.
Beast Industries — A construção da nova ‘Disney’
Nomeada como uma das 100 empresas mais influentes em 2026
pela revista Time, a Beast Industries — através da qual Jimmy Donaldson
constrói o seu império — emprega cerca de 750 colaboradores e está avaliada em
mais de cinco mil milhões de dólares (mais de 4,3 mil milhões de euros). Mas
esta dimensão foi a custo dos lucros. A empresa acumulou 500 milhões de dólares
(cerca de 437 milhões de euros) em perdas nos últimos cinco anos, pressionada
pelos custos de produção.
A empresa espera atingir rentabilidade já este ano, no
seguimento da estratégia de reestruturação liderada por Jeff Housenbold, CEO da
empresa desde setembro de 2024. No perfil da Time, Jeff Housenbold
aponta que a empresa cortou mais de 100 milhões de dólares em despesas
operacionais nos últimos 14 meses, alcançando em simultâneo um crescimento de
50% em receita bruta num período de dois anos.
Atualmente, o negócio divide-se em três principais pilares, de acordo com o The New York Times:
• Divisão de Conteúdo e Média, que garante
metade da faturação global do grupo
• Produtos de consumo, divisão focada
maioritariamente na sua marca de chocolates Feastables, lançada em 2022, que
gerou 250 milhões de dólares em receitas em 2024 com lucros superiores a 20
milhões
• Uma nova divisão destinada a criar uma
plataforma para fazer o ‘match’ entre criadores de conteúdos e marketers da
lista do Fortune 1000
Ainda se incluem a ferramenta de análise Viewstats e o
negócio de licenciamento de brinquedos e vestuário, nota a Forbes.
A ambição é uma. De acordo com Jeff Housenbold, é
transformar a Beast Industries numa ‘Disney do mundo moderno’, onde Jimmy Donaldson desempenha o papel de Walt Disney e de
Mickey Mouse em simultâneo. “Esta é realmente a única forma de
descrever”, corrobora MrBeast à Time. “O Brad Pitt não é dono dos
estúdios, não financia as ideias, não escreve os guiões, não cria as ideias e
não melhora tudo em todos os filmes e séries em que participa. Este é o mundo
em que vivo.”
Rota de ‘fuga’ ao YouTube
Atualmente, MrBeast lidera o ranking Forbes Top Creators
2026, registando 873 milhões de seguidores agregados nas redes sociais, uma
taxa de interação média de 3% e receitas anuais que superam os 300 milhões de
dólares. Só no YouTube, os seus canais somam mais de 640 milhões de
subscritores e mais de cinco mil milhões de visualizações por ano.
Para mitigar a dependência do algoritmo do Youtube e
caminhar para sua ambição, a Beast Industries tem vindo a recrutar quadros
vindos da Snap (dona do Snapchat), TikTok e NBCUniversal, tendo também aberto
um processo de recrutamento para o seu primeiro chief marketing officer (CMO).
Está ainda a ser explorada a criação de um programa de membros, revela o Business
Insider. Entre os projetos de expansão, destacam-se:
Streaming
Em 2024, assinou um acordo de 100 milhões de dólares com a
Amazon para criar o reality show de competição “Beast Games” para o Prime
Video. Reunindo mil concorrentes num formato frequentemente comparado a série
da Netflix Squid Game, em que enfrentam desafios físicos, mentais e sociais
para uma chance de ganhar cinco milhões de dólares em dinheiro.
Os custos da primeira temporada (10 episódios) ultrapassaram
os 100 milhões de dólares e geraram prejuízo imediato. A Amazon revelou que a
produção atingiu 50 milhões de visualizações nos primeiros 25 dias
pós-lançamento. A terceira temporada já se encontra em produção.
Mercado editorial
Jimmy Donaldson juntou-se ao autor de bestsellers James
Patterson para o lançamento global do livro The Most Dangerous Games.
Agendada para 1 de setembro, a obra acompanha 100 concorrentes numa competição
distópica de testes mortais por um prémio de mil milhões de dólares, com
lançamento assegurado em 15 idiomas, incluindo o português de Portugal.
Telecomunicações
MrBeast está a estudar lançar, em parceria com uma das três
maiores operadoras dos EUA — Verizon, T-Mobile ou AT&T — o serviço móvel
Beast Mobile, replicando o modelo de celebridades como Ryan Reynolds.
Entretenimento Físico
A empresa testou na Arábia Saudita o conceito do parque
temático Beast Land. Confrontado com críticas, Jimmy Donaldson defendeu a
decisão à Time: “Tenho a certeza de que se poderia pegar em qualquer
país do mundo e encontrar algo negativo. Basta olhar para os Estados Unidos
agora. (…) Não tenho permissão para fazer negócios aqui?”
Publicidade
A sua fama chegou até aos intervalos da Super Bowl, estando
o MrBeast a colocar a sua imagem ao serviço de marcas. Jimmy Donaldson
desenvolveu e protagonizou uma campanha interativa para a tecnológica
Salesforce que levou mais de 53 milhões de utilizadores ao site da empresa e
gerou um volume de pesquisas (search engagement) 37,3 vezes superior à média de
um anúncio do evento, segundo a informação compilada pelo The Hollywood
Reporter.
Uma ascensão marcada por polémicas
A ascensão de MrBeast na indústria não tem sido um percurso
pacífico. A Beast Industries, nos seus primeiros anos, foi abalada por
acusações públicas de toxicidade no local de trabalho e práticas de contratação
questionáveis.
Em resposta, conduziu uma auditoria independente encomenda
pela empresa, cujo relatório — divulgado em novembro de 2024 — constatou
“incidentes isolados de assédio e má conduta no local de trabalho”, ressalvando
que a administração agiu com rapidez e ilibando a empresa de contratar
conscientemente indivíduos problemáticos.
Mas a crise reputacional agravou-se com novos processos.
Este ano, uma antiga executiva acusou a liderança da empresa de assédio sexual
e discriminação por gravidez. A queixosa alega que a empresa omitiu as
políticas de licença de maternidade, sendo que tal levou a participar em
reuniões de trabalho virtuais durante o trabalho de parto por medo de
represálias. A ex-executiva alega ter sido demitida três semanas após o
regresso da licença. Ao New York Times, a Beast Industries negou
categoricamente os factos, afirmando que o processo se baseia em falsidades e
que possui “ampla evidência” para refutar as alegações.
Não é o único processo. Mais de uma dúzia de participantes
da primeira temporada do “Beast Games” declararam ao jornal norte-americano que
não tinham recebido cuidados de saúde nem comida adequada durante o concurso e
que existiram concorrentes a saírem fisicamente lesionados. Um porta-voz do
MrBeast afirmou na altura que a gravação “infelizmente foi complicada pelo
incidente com a CrowdStrike, condições meteorológicas extremas e outros
problemas logísticos e de comunicação inesperados”. O porta-voz disse que o
MrBeast iniciou uma investigação formal e “tomou medidas para garantir que
aprendemos com esta experiência”. No entanto, isso não impediu que um grupo de
concorrentes tenha se unido numa ação judicial.
A própria expansão da Beast Industries tem acendido alertas
em Washington. A investida no setor financeiro — marcada pela aquisição da app
para jovens Step — com planos anteriores da criação da marca MrBeastFinancial,
onde se incluem menções a criptomoedas — levou a senadora norte-americana
Elizabeth Warren a enviar uma carta de 12 páginas à empresa a pedir detalhes
sobre os planos junto do público jovem.
Filantropia
A vertente humanitária do criador mantém números de grande
escala. Desde 2025 que a Beast Philanthropy estabeleceu uma parceria
estratégica com a Fundação Rockefeller, desenhada especificamente para
mobilizar e incentivar os jovens a doar.
Até à data, segundo dados compilados pela Fortune, a organização já distribuiu mais de 300 milhões de dólares em apoio alimentar (equivalente a cerca de 42 milhões de refeições), 5 milhões de dólares em auxílio humanitário a refugiados ucranianos e 500 mil dólares em material escolar e soluções tecnológicas para instituições de ensino.
No entanto, esse caminho também não é livre de críticas, com
a discussão online a apontar contradições entre as atividades filantrópicas e
depois o tipo de vídeos que são publicados no canal principal de Jimmy
Donaldson.
O caso de MrBeast mostra como alguns dos maiores criadores
digitais estão a transformar a audiência conquistada nas plataformas em
empresas de entretenimento e consumo com ambições globais — um modelo que
combina crescimento acelerado, inovação e um escrutínio cada vez maior.
Fonte: ECO, 1 de agosto de 2026

Comentários
Enviar um comentário