Porque é que os taxistas são a prova de que a IA vai aumentar os índices de Alzheimer?
sinfullysofia, artista
Bom dia!
Sim, a IA vai aumentar a carga de doença neurológica na
velhice, e a explicação começa num sítio que parece estranho: taxistas.
Mas não é. Nós já sabíamos que um taxista tem uma parte do
cérebro, o hipocampo, mais desenvolvido. O hipocampo está ligado à memória
visual e sobretudo à navegação, isto é, movimentação num mapa que conhecemos ou
vamos conhecendo.
O hipocampo é uma das primeiras zonas a ser afetada pelo
Alzheimer.
A partir desta base, nasceu outro estudo que me parece
absolutamente maravilhoso, porque faz uma pergunta simples: as profissões
ligadas à navegação protegem mais o cérebro em relação à demência? Estamos a
falar de um estudo que envolve 9 milhões de mortes de pessoas de 440
profissões. E a conclusão é simples: sim, há profissões que dão mais
resistência ao Alzheimer. Os taxistas e os condutores de ambulâncias estão
entre os mais resistentes, aliás, parecem imunes. Ao invés, pilotos de avião e
motoristas de bus deixam de ser tão resistentes.
Porquê?
Não treinam o cérebro e a memória. Ao invés, um taxista à
antiga tem na cabeça milhares de rotas que vai adaptando todos os dias, todas
as semanas, está constantemente a usar a cabeça e a memória. Não tem piloto
automático, e por isso não morre de/com Alzheimer. Já um piloto de avião não
tem de decorar caminhos, e um motorista de bus tem sempre o mesmo caminho. Vive
em piloto automático.
E esta vida em piloto automático parece ser uma das causas
do Alzheimer.
O que nos pode levar a outra pergunta: a troca da velha vida
no campo, mais imprevisível nos desafios diários, pela vida urbana, com hábitos
e trabalhos padronizados e automáticos, tem/teve este impacto na nossa condição
neurológica?
Se não usamos o corpo, perdemos massa muscular. Se não
usamos o cérebro, perdemos o músculo cerebral. Os especialistas chamam a isto
“dificuldade desejável”, ou seja, há que colocar o cérebro em permanente estado
de adaptação e aprendizagem em tempo real (Eu calculo que, se aplicarmos isto
ao desporto, vamos perceber que o ténis é o desporto mais protetor ao nível
neurológico).
Ora, é por isso que temos de fazer a pergunta: a IA pode
causar uma espécie de podridão mental? Se confiamos só no waze ou no Google
maps, não estamos a perder capacidades mentais? Não estamos a perder músculo
mental? Mais: se as pessoas usam a IA para resolver qualquer questão de memória
ou de raciocínio, não estamos agora a plantar uma epidemia gigantesca e precoce
de alzheimer no futuro próximo?
Parece-me óbvio que sim.
Se pegarmos nos dois grupos deste estudo (um grupo que
escreve um ensaio sem IA; e um grupo que escreve com IA), é evidente que a
preguiça humana vai determinar que muita gente estará sempre no segundo grupo.
De todos os efeitos da IA, este parece-me o mais grave. Ao matar a necessidade de criatividade humana aqui e agora, a IA está também a provocar problemas mentais a jusante, porque na vida controlada e mapeada de hoje nenhum taxista precisa de ter a cidade na cabeça - e esta é uma metáfora para toda a sociedade.
A IA pode ser uma ótima ferramenta ou um desastre se a
colocarmos no centro. Posso dar o meu exemplo. Este espaço é pensado na minha
memória, os argumentos vão sendo montados ao longo do tempo. Esse é o primeiro
momento. Num segundo momento, quando começo a escrever, a memória vai buscar as
peças do esboço mas faz outra coisa: lembro-me de outros factos e faço outras
ligações inesperadas; há uma relação entre memória e criatividade. A IA só
aparece num terceiro momento para melhorar o que já existe ou para invalidar.
Pode dar-me dados que invalidam por completo o que fiz, ou o oposto: factos que
reforçam. A IA é um instrumento para usar a jusante, em cima de uma coisa já
feita por nós sem qualquer ajuda. Se o usamos a montante, então vamos ter
enormes problemas de criatividade – no presente – e de saúde – no futuro.
Uma coisa é absolutamente certa: o caminho para a “cura” do
Alzheimer está na cabeça de uma classe profissional que é bastante
caricaturada, os taxistas, que têm cabeças que são mais rápidas e eficientes do
que computadores no que diz respeito à eficiência de caminhos.
Portanto, vá de férias sem Waze, sem Google maps, sem IA.
Até setembro
Henrique Raposo
Fonte: Expresso, 1 de agosto de 2026

Comentários
Enviar um comentário