Quando a noite caía o PREC renascia
Colar
cartazes, perder-se nos cafés, conspirar nos bares, acabar a noite no cacau da
Ribeira. Para além dos plenários e ocupações. Os portugueses, esses acabaram
por preferir a alienação capitalista
Como o dia não chegasse para tanta atividade política, o
PREC inventou a noite. Por isso havia também quem lhe chamasse a Revolução dos
Homens sem Sono. Depois da “longa noite fascista”, Portugal e a sua capital
conheciam em 1975 as noites inquietas da via portuguesa para o socialismo.
Não há dúvida de que a noite adquiriu uma importância fora
do comum durante o PREC (Processo Revolucionário Em Curso), como notou Gabriel
Garcia Marquez quando por cá passou, em reportagem, na Primavera de 1975: “Toda
a gente fala e ninguém dorme, às quatro da manhã de uma quinta-feira qualquer
não havia um único táxi desocupado.”
Não significava isto que os lisboetas tivessem ficado mais boémios. Pelo contrário. Tinham cada vez mais trabalho, pelo menos trabalho político, e a noite era o período ideal para algumas destas novas tarefas. Que a atividade política devia ser considerada trabalho era aliás comprovado pela quantidade de “centros de trabalho” do PCP que se multiplicavam pelo país fora. Os menos fascinados com o rumo dos acontecimentos preferiam, no entanto, inverter este raciocínio e dizer que “a sua política era o trabalho”.
Colar cartazes, pintar paredes
As atividades noturnas que mais disponibilidade exigiam dos
militantes eram a colagem de cartazes e a pintura de murais e de inscrições. O
balde e a lata, a cola e a tinta tornaram-se as alfaias revolucionárias.
E o que diziam cartazes e inscrições? Ao contrário do lugar comum que garante que “o PREC foi uma festa”, talvez um pouco louca, a ideia transmitida pela propaganda política desta época era tudo menos despreocupada. Considerava-se imperioso Avançar, ou caminhar Em Frente, de preferência pegando Em Armas, porque a hora era de Luta, sendo que tudo isto devia ser feito de imediato, ou seja Já! No meio de tanta imposição e inevitabilidade, apenas as inscrições dos “anarcas” permitiam uma pausa e um sorriso: “O socialismo está em construção, visite o andar modelo”, “Não há eleições, D. Sebastião volta para a semana”, “Anarquia sim mas nem tanta”.
À partida não havia impedimentos, qualquer parede servia,
fosse a fachada de uma igreja, um muro de cemitério ou pedestal de estátua,
desde que se apresentasse com suficiente visibilidade (o desperdício de
cartazes seria considerado um laxismo contrarrevolucionário). Existia um vago
princípio que decretava que não se deviam cobrir cartazes recentes de outro
partido (por exemplo, a convocar para um comício ainda por realizar). Mas
raramente isto era respeitado e, como os maoístas gostavam de dizer, uma simples
faísca podia incendiar toda a pradaria.
No dia 9 de outubro de 1975, quando colava cartazes junto à
Praça do Comércio, um grupo do MRPP foi atacado por elementos da UDP e da ORPC
(m-l) que os empurraram para o cais e os atiraram ao Tejo, resultando daí a
morte por afogamento de Alexandrino de Sousa, que não sabia nadar. Esta foi a
versão dos acontecimentos sempre defendida pelo MRPP. Mas segundo um comunicado
da ORPC (m-l) a tragédia foi responsabilidade de uma militante do MRPP que terá
dado instruções aos seus camaradas para que nadassem “para bem longe dos neorrevisionistas”
(a UDP era considerada neorrevisionista pelo MRPP), acentuando o espírito de
sacrifício e abnegação dos militantes e causando assim a morte de Alexandrino.
Uma grande parte dos cartazes destinava-se a convocar para
manifestações, comícios, concentrações, jornadas de luta, protestos vários. Num
único dia, 23 de abril de 1975, o PCP levou a efeito 61 comícios e sessões de
esclarecimento, e até mesmo um pequeno partido como a FEC (m-l) conseguiu
organizar, na véspera dessa data, 22 eventos destes. Acontecia isto nos últimos
dias de campanha para a eleição da Assembleia Constituinte mas já antes,
durante o mês de março, era habitual o PCP programar cerca de 20 sessões, mesmo
para vulgares dias de semana. Ao longo de toda a campanha eleitoral só o
MDP/CDE terá realizado 4700 comícios e sessões de esclarecimento. Se tivermos
em conta que em cada um destes acontecimentos participam algumas centenas ou
milhares de pessoas chegamos facilmente à conclusão de que boa parte dos
portugueses passava o seu serão na rua, aos magotes.
Dos comícios às ocupações
Naturalmente que isto despertava espírito de concorrência
entre agrupamentos políticos, desejando todos eles “casa cheia”. A Praça de
Touros do Campo Pequeno era considerada uma boa bitola. Enchê-la era prova da
capacidade de mobilização das massas e não eram apenas os maiores partidos que
o conseguiam. O MRPP faz ali alguns comícios: a 18 de julho de 1975, por
exemplo, quando Arnaldo Matos é libertado. E também a UDP que a 25 de julho de
1975 reúne 20 000 pessoas para aplaudir José Diogo, o operário agrícola
alentejano que no ano anterior tinha morto o latifundiário Columbano Líbano
Monteiro e que nesse dia tinha visto o Tribunal de Tomar conceder-lhe a
liberdade condicional.
Minutos depois desta decisão da justiça da burguesia,
realizou-se no átrio do mesmo edifício, o Palácio da Justiça de Tomar, um
tribunal popular que acabou a condenar postumamente o morto como inimigo do
povo português e, naturalmente, a absolver Zé Diogo. Com um único reparo: a
navalhada que este deu no seu patrão de 78 anos tinha sido um gesto individual.
Subentendia-se que matar latifundiários devia ser um ato coletivo.
O caso Zé Diogo não é o único em que se saúda e pratica a
substituição do direito burguês pela justiça popular: a 7 de outubro de 1975
alguns manifestantes impediram um julgamento no Palácio da Justiça de Lisboa
que iria apreciar a ocupação de uma casa na Avenida Almirante Reis, roubando o
processo e levando-o para a sede do Secretariado das Comissões de Moradores e
Ocupantes da Zona de Almirante Reis e Arroios.
As ocupações de casas, em ritmo vertiginoso, vêm a ser
legalizadas por Decreto-Lei de 14 de abril (D-L nº 198-A/75), que obriga os
senhorios a celebrar contratos de arrendamento não só em relação às habitações
já ocupadas, mas em relação a todas as que se encontrassem ainda devolutas,
funcionando as câmaras e juntas de freguesia como mediadoras imobiliárias. Por
isso, logo em maio, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa
apela às comissões de moradores que assinalem os fogos vagos para que sejam
“requisitados a favor da população necessitada”.
Contudo o fenómeno das ocupações continua indiferente ao
legalismo imposto pelo governo e conta até com a ajuda dos militares quando é
preciso. Ainda em setembro de 1975, a Comissão de Moradores do Alto de São
João, ao proceder à ocupação de um armazém da firma Exclusivos Vamar, na Rua
Barão de Sabrosa, 78, deparou-se com um recheio de malas e casacos de pele no
interior que se tornou necessário remover, contactando para isso um seu
conhecido, o tenente André, do Regimento do Serviço de Transportes (RST),
instalado na Avenida de Berna, que logo se prontificou e deu ordem aos seus
soldados “para que se apoderassem do recheio”, no valor de 110 contos (550
euros, que, com correção monetária seriam hoje cerca de 15 mil euros).
Mas, regressando ao Campo Pequeno, este não servia apenas
para comícios como esse em que a UDP homenageou José Diogo, revelando-se
durante o ano de 1975 um espaço bastante polivalente. No primeiro dia de junho
de 1975 reuniram-se ali os Fiéis de Deus no seu XI Congresso Juvenil
Pentecostal, protestando contra a pornografia, e no fim do mesmo mês houve luta
livre de mulheres, espetáculo que nada tendo a ver com a pornografia que
inquietava os Fiéis de Deus contava muito com a curiosidade despertada nos
homens.
Uma tourada e uma Alameda
Naturalmente também houve touradas, uma das quais foi mesmo decisiva para o arranque do PREC, se admitirmos que ele se iniciou com a “intentona” de 28 de setembro de 1974 (a expressão PREC também é utilizada apenas para o período que se segue ao 11 de março de 1975). A 26 de setembro, ao comparecerem numa corrida de touros a favor da Liga dos Combatentes, Spínola (nesse tempo os presidentes ainda iam aos touros) foi aplaudido e Vasco Gonçalves vaiado. Ao cravar um ferro comprido, o cavaleiro José João Zoio fez desfraldar o cartaz que convocava para a manifestação da “maioria silenciosa”, marcada para daí a dois dias. Quebrada nesse dia, tal como o ferro de Zoio, foi também a “unidade” aparente em torno do MFA, que nunca mais foi reparada.
Esta praça de touros ficou ainda ligada a uma frase de Otelo
Saraiva de Carvalho, proferida a 14 de junho de 1975 aos microfones da Rádio
Renascença: “teria sido melhor se, em 25 de Abril de 1974, encostássemos à
parede ou mandássemos para o Campo Pequeno umas centenas ou uns milhares de contrarrevolucionários
eliminando-os à nascença.”
Outro espaço comicieiro muito procurado era o Pavilhão dos
Desportos (atual Pavilhão Carlos Lopes), no Parque Eduardo VII. Aqui se ouvem
os primeiros protestos do PS contra a unicidade sindical pela voz de Salgado
Zenha, a 16 de janeiro de 1975, aqui se reúnem em mais do que uma ocasião os
retornados e aqui assiste o PDC (Partido da Democracia Cristã), no dia 6 de março,
a (mais) um boicote a um dos seus comícios.
Nesse mesmo Pavilhão dos Desportos, por 20$00 (a preços de
hoje, menos de três euros), podiam ainda os lisboetas, em meados de março de
1975, assistir à atuação dos Coros e Danças do Conselho Central dos Sindicatos
Soviéticos e, se fossem ao Coliseu dos Recreios pela mesma altura, tinham a
oportunidade de ver e ouvir os “Coros e Danças da Ukrânia”, com “sessões
praticamente esgotadas”, apesar dos 60$00 pedidos na bilheteira (um bilhete de
cinema custava menos de metade), espetáculos estes precedidos, um pouco antes,
pelo Siberia Krasnoiarsk. Muito se saltou e dançou com o objetivo de fortalecer
os laços culturais entre Portugal e a URSS.
Os dois comícios mais significativos do PREC tiveram,
contudo, lugar em espaços não concebidos para esse fim. Um deles aconteceu no
Estádio 1º de Maio (antigo Estádio da FNAT), em 1975, exatamente na data
simbólica que deu nome ao estádio, quando o líder do PS, Mário Soares, foi
impedido de entrar no camarote, onde já se encontrava Álvaro Cunhal. Este
facto, juntamente com a ocupação do jornal República 18 dias depois,
determinou a passagem à oposição ao governo de Vasco Gonçalves por parte do PS.
O outro comício decisivo realizou-se a 19 de julho de 1975
na Alameda D. Afonso Henriques mas ficaria conhecido como o comício da Fonte
Luminosa. Ali se terão juntado 100 000 pessoas, grande parte delas católicos
mobilizados pelos párocos de Lisboa e arredores, que vibraram com os discursos
anticomunistas de Mário Soares e Salgado Zenha.
A visita de Sartre e uma história de torturas
Os dotes de oratória, ou, pelo menos, a capacidade de
persuasão dos auditórios, eram então muito valorizados e todos se consideravam
suficientemente talentosos na capacidade de polemizar.
Há por isso um acontecimento que até hoje permanece inexplicável: quando Jean-Paul Sartre, perante uma assembleia de estudantes universitários, lhes pede que coloquem questões depara-se com um silêncio desconcertante e enigmático. Seria o constrangimento perante a figura majestática do intelectual? Sartre visitou Lisboa entre o fim de março e o princípio de abril 1975, proferiu uma conferência no Instituto de Sociologia Militar, assistiu a uma reunião de escritores (ao que parece inquietos por não saberem o que fazer na revolução), conversou com operários e não deixou de passar pela unidade militar revolucionária por excelência, o RALIS, onde almoçou, ouviu os militares e acabou fotografado à porta de armas com uma G3 nas mãos.
Um dos oficiais que se vê nessa fotografia à porta do RALIS,
na companhia de Jean-Paul Sartre, e que aparece igualmente nas imagens do golpe
com direito a reportagem em direto do 11 de Março, era o capitão Quinhones,
alvo de uma acusação por parte de outro oficial, por sinal o mais medalhado de
sempre de todos os militares portugueses – o alferes comando Marcelino da Mata.
A acusação refere-se ao dia 17 de maio de 1975, quando Marcelino da Mata terá
sido levado para o RALIS e torturado por Quinhones e outros militares, além de
civis do MRPP, e sob as ordens do próprio comandante do regimento.
O capitão Quinhones nega ter participado nestas sevícias.
Mas a existência de espancamentos, tortura e simulação de fuzilamentos neste
período ficou comprovada e resulta das conclusões de comissão de inquérito
criada para o efeito em janeiro de 1976 – a Comissão de Averiguação de
Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares – e de julgamentos
posteriores. Foram praticados não só no RALIS (em relação ao qual foram
apresentadas 11 queixas de civis e militares, entre eles um juiz conselheiro do
Supremo Tribunal Administrativo) mas em vários outros locais, incluindo
habitações particulares que funcionaram como cárceres privados.
A partir do Verão de 1975 o Regimento de Polícia Militar
(RPM) passa a atuar como força de ordem pública, substituindo-se à PSP,
completamente desautorizada, mas sem que os seus militares tivessem formação
para isso. Forças deste regimento passam a patrulhar as ruas da capital,
fazendo rondas e rusgas a bares e boîtes, possuídos de um espírito de
justiceiros da noite. O resultado são centenas de prisões arbitrárias (um só
militar confessou ter interrogado cerca de 800 detidos em apenas dois meses e
meio), sem registo de detenção ou organização de processo judicial, com maus
tratos frequentemente praticados para puro entretenimento dos carcereiros
Outro organismo responsável por muitas detenções foi o
Serviço Diretor e Coordenador de Informação (SDCI), instalado no Edifício
Grão-Pará, na Rua Castilho 50. Após a extinção da PIDE/DGS, a seguir ao 25 de
Abril, os serviços de informação do novo regime são concentrados na 2.ª Divisão
do Estado Maior das Forças Armadas (EMGFA), com sede no Palácio da Cova da
Moura e mais tarde na Avenida Ilha da Madeira. O organismo então criado na 2.ª
Divisão, a DINFO, chefiada por Pedro Cardoso, não merece, contudo, a confiança
do sector gonçalvista. É por esse motivo que nasce em maio de 1975 o SDCI, que
fica na dependência do Conselho da Revolução e cujos militares realizaram
interrogatórios em dois locais: o Forte Militar de Caxias e a sede da antiga
polícia política, na Rua António Maria Cardoso, 16, onde agora funcionava o
Serviço de Coordenação da Extinção da PIDE/DGS e LP.
Pode parecer estranha a escolha de dois lugares associados à
repressão do anterior regime (suspeitando-se para mais que foram usados os
métodos de tortura de estátua e do sono, como fazia a polícia salazarista),
sugerindo a identificação do SDCI com uma nova PIDE. Talvez a explicação para
isso fosse o sentimento de impunidade e o convencimento de que se seguia a
“linha correta”, que justificaria todos os meios. Aliás o SDCI usava os
próprios ficheiros da PIDE para identificar e localizar os possíveis “sabotadores
filofascistas” (as moradas onde os “suspeitos” eram procurados eram as
anteriores ao 25 de Abril, por vezes já desatualizadas há muito tempo). Por que
não haviam então de usar também as respetivas instalações para os
interrogatórios?
A revolução não se embaraçava com legalismos
Não sendo possível contabilizar a totalidade das capturas há,
contudo, alguns números disponíveis, que resultam das conclusões da referida
comissão de inquérito. No 28 de setembro de 1974 terão sido presas cerca de 300
pessoas, algumas das quais ainda se encontravam encarceradas quase um ano
depois, em agosto de 1975. Na sequência do 11 de março, quando é criada, pelo
Conselho da Revolução, uma “Comissão de Inquérito ao 11 de março” com poderes
para ordenar prisões, entram nas celas mais 144 militares e 39 civis só na
região de Lisboa. Mais tarde, na noite de 28 de maio de 1975, dão entrada na
prisão de Caxias 400 militantes do MRPP (verdade ou fantasia, Otelo Saraiva de
Carvalho terá defendido, em alternativa, o envio dos militantes do MRPP para as
Berlengas). Também no 25 de novembro são detidas, pelos militares vencedores,
próximos do “grupo dos nove”, 160 pessoas.
O total de prisões será certamente superior ao que foi
indicado por aquela comissão de averiguação, já que muitas prisões não chegaram
a ser registadas. Ainda assim estes números sugerem a existência de um aparelho
militar repressivo com uma razoável dimensão. A comparação com o regime
anterior torna-se incontornável: no dia 26 de abril de 1974 são libertados 85
presos do Forte de Caxias e 43 de Peniche.
Naturalmente que não permaneceram todos detidos até ao fim
do PREC, mas é também verdade que a maioria dos contrarrevolucionários foram
presos e libertados sem que tenham sido instaurados processos judiciais (é o
caso dos 300 detidos do 28 de setembro), sem que os seus interrogatórios tenham
sido transcritos, por vezes mesmo sem que tenha existido interrogatório,
sugerindo que a detenção era entendida como um fim em si mesmo. A ideia
subjacente a isto era de que a revolução não devia ficar embaraçada no legalismo.
A exceção serão as capturas do 25 de novembro, que deram todas origem à
instauração de processo.
Este desprezo por formalidades explica também os célebres
mandatos de captura em branco assinados por Otelo Saraiva de Carvalho que após
o 25 novembro vão ser encontrados nas instalações do SDCI da Rua Castilho.
Otelo era simultaneamente o comandante da Região Militar de Lisboa e o chefe do
Comando Operacional do Continente (COPCON), concentrado no Forte do Alto do
Duque, espécie de castelo altaneiro, debruçado sobre Algés e o mar onde o
príncipe da Revolução sonhava com cruzadas contra os reacionários nuns dias e a
empolgante democracia direta nos outros.
Cumprir ordens? Só as votadas pelos soldados
O COPCON, que se apresentava como o “braço armado das Forças
Armadas para a defesa da Revolução”, é criado a 8 de julho de 1974 por pressão
da Comissão Coordenadora do MFA como forma de retirar poderes ao presidente
Spínola. A sua importância e capacidade de intervenção cresce em resultado dos
sucessivos golpes de 28 de setembro e 11 de março. É não só um comando militar
unificado como possui poderes ilimitados em matéria de segurança e ordem
pública, pode decidir apreensões de bens e congelamento de contas bancárias.
Depois é chamado para tudo: ocupações de casas, discussões entre vizinhos,
especulação nos preços da limpeza a seco praticados pelas lavandarias ou nas
vendas de garrafas de laranjada. Otelo torna-se polícia, juiz de primeira
instância e assistente social. Mas isso ainda era o menos, o pior é que
pretendiam que liderasse as massas na conquista do poder. Spínola quis ser o
chefe do novo regime mas viu o poder fugir-lhe. Otelo, talvez sem o querer,
teve nas suas mãos todo o poder, olhando-o como um maquinismo precioso mas
ininteligível.
Perante a ineficácia do COPCON no restabelecimento da ordem
pública é criado no dia 25 de setembro de 1975 o Agrupamento Militar de
Intervenção (AMI) que devia ser constituído por comandos, paraquedistas e
fuzileiros. Os jornais chamam-lhe mesmo um “2.º COPCON”. Mas quando na noite
seguinte a Embaixada e o Consulado de Espanha são assaltados e incendiados, em
protesto contra a execução de cinco bascos da ETA e da FRAP, nem o 1.º nem o 2.º
desses copcons aparece. O general Fabião ainda terá dado ordens ao 1.º COPCON.
Este por sua vez delegou a missão no RALIS cujos soldados ainda formaram na
parada mas decidiram depois não cumprir a ordem (as ordens eram habitualmente
apreciadas em plenários de soldados que podiam decidir não as cumprir).
O presidente da República devia estar por essas horas a
caminho do aeroporto de Lisboa com destino à Polónia e URSS, pelo que o assunto
já não era com ele. Aliás, nessa roleta que é o calendário político calhava
muitas vezes Costa Gomes estar ausente: no 25 de Abril estava no Hospital
Militar e acontecia por vezes sair mais cedo das assembleias do MFA. Por
exemplo a 8 de junho de 1974, quando se decidiu o cessar-fogo imediato em
África, e também no dia 8 de julho de 1975, quando foi aprovado o
Documento-Guia da Aliança Povo-MFA, desta vez porque lhe doía a garganta. Otelo
pelo contrário nunca estava ausente nos momentos certos. Por isso tudo vinha
ter com ele, todos os problemas, todos os desafios, todos os ultimatos. Como
naquela noite de 29 de setembro de 1975, no Palácio Foz (Praça dos
Restauradores).
Otelo tinha ido ao ministério da Comunicação Social, que
funcionava no Palácio Foz, reunir-se com o respetivo ministro, Almeida Santos.
O dia 29 estava a chegar ao fim. Manifestantes convocados pela FUR vão ao seu
encontro, espicaçam-no, chamam-lhe “burguês” e exigem-lhe que “faça a sua opção
de classe”. Mas Otelo já lhes tinha respondido minutos antes, indiretamente,
numa reunião com jornalistas: “Faltou-me estrutura política que podia ter
possibilitado, desde o início, ser o líder da revolução. Se tivesse cultura
livresca, podia ter sido o Fidel Castro da Europa”. Os manifestantes partem
dali em direção à Presidência da República, no Palácio de Belém (Praça Afonso
de Albuquerque) onde, aproveitando a ausência de Costa Gomes, pretendem
instaurar o “poder popular, fase final da Revolução”. O presidente interino
Pinheiro de Azevedo recebe-os com maus modos e manda-os embora. E eles partem.
Quando era a 5.ª Divisão quem mandava
Belém era o destino habitual das manifestações, e houve
muitas, sendo a maior talvez a de 27 de agosto de 1975, organizada pela Frente
Unida Popular (FUP), projeto efémero de unidade da esquerda que incluía FSP,
LCI, MDP/CDE, MES, PRP/BR, LUAR, Grupo 1º de Maio e PCP, que abandona a FUP um
dia após a manifestação (mudou por isso a FUP de nome, passando a chamar-se
FUR). Mas o Palácio não era apenas alvo de manifestações mas também de tiros
(como intimidação ou teste de nervos), tendo acabado por ser necessário mandar
retocar as paredes.
Formalmente o palácio presidencial era o principal centro de
poder mas na prática havia outros, já que o poder se encontrava então muito
disseminado por organismos militares e civis como a Comissão Coordenadora do
Programa do MFA (o MFA era o motor da Revolução) que dá origem ao Conselho da
Revolução, o governo, o COPCON, as regiões militares, o SDCI, as assembleias
não só do MFA como dos três ramos, das diferentes armas e até de delegados de
unidades (que quando entendiam oportuno decidiam sanear os respetivos
comandantes).
O mais popular destes orgãos era a 5.ª Divisão do EMGFA,
dirigida por Ramiro Correia. Sedeada na Cova da Moura, foi crescendo e
espalhando-se por toda a cidade: Palácio Foz, 2.º andar do Edifício Grão-Pará,
prédio que partilhava com a 2.ª Divisão, Calçada das Necessidades, onde
funcionava o Centro de Sociologia Militar (atual Instituto de Defesa Nacional),
e Quartel das Janelas Verdes.
Mas a 5.ª Divisão não viajava só por Lisboa mas sobretudo
pelo país rural onde realizava sessões de esclarecimento, com a representação
de peças de teatro ou a projeção de filmes. Estimam-se em cerca de 10 000 o
número destas sessões, organizadas em grandes e dispendiosas operações, as
célebres campanhas de dinamização cultural, distribuídas por diferentes
províncias: Minho (“Operação Verdade” e “Operação Alvorada”), Trás-os-Montes
(“Nortada” e “Maio-Nordeste”), Beira Alta e Beira Baixa, Açores (“Operação Atlântida”)
e Algarve (“Operação Povo Culto”). Era exatamente isto que se pretendia, que o
povo fosse culto, ou seja, que se libertasse do obscurantismo alimentado pelos
caciques locais, evitando a sua manipulação. Por isso a dinamização cultural
incidia sobretudo no Norte do país, onde se considerava que estes males eram
mais graves. E para essa missão se consideravam os militares adequados e
competentes. Tratava-se na prática, segundo pensavam, de aplicar com o povo da
metrópole os métodos de ação psicológica que antes punham em prática no
guineense Chão Manjaco.
As campanhas de dinamização cultural da 5.ª Divisão estavam
a cargo de uma das suas comissões, a Comissão Dinamizadora Central (CODICE).
Outra comissão, o Centro de Esclarecimento e Informação Pública (CEIP), além de
produzir conteúdos para tudo o que era comunicação social, tinha um programa de
rádio, publicava o Boletim do MFA, com tiragens superiores a 100 000
exemplares, e ainda arranjava tempo para compor músicas revolucionárias.
A 5.ª Divisão incluía também o referido Centro de Sociologia
Militar, que organizava colóquios, cursos e estágios e cedia as suas
instalações para a realização de assembleias do MFA e outras reuniões militares
que em regra se prolongavam pela madrugada fora. Foi por exemplo aqui que se
realizou a chamada “assembleia selvagem” de 12 de março de 1975 que
institucionalizou o MFA, criou o Conselho da Revolução, autorizou uma lista de
detenções de implicados no 11 de março e a criação de um tribunal revolucionário,
assim como a nacionalização da banca e seguros, e consequentemente a
apropriação dos órgãos da imprensa pelo estado. Mas foi também uma daquelas
cedências de instalações, mais exatamente para a constituição da FUP, numa
longa reunião que acabou às 8 horas da manhã de dia 25 de agosto de 1975, que
ditou a morte da 5.ª Divisão. No ambiente de anarquia em que todas a
cumplicidades partidárias dos militares eram admissíveis foi contudo
considerado intolerável o uso de uma instituição militar para a constituição de
um agrupamento político. O Conselho da Revolução e Costa Gomes decidiram, o
COPCON recebeu a ordem e o Regimento de Comandos da Amadora ocupou e selou
todas as instalações da 5.ª Divisão.
Cercos e chaimites
O Regimento de Comandos, que tinha à sua frente Jaime Neves,
tido por anticomunista, era frequentemente solicitado para cumprir as missões
mais complicadas. Servia para resolver tudo: motins em prisões, cercos a
esquadras de polícia, sublevações de militares da GNR. Chamados a 28 de setembro
de 1975 para desalojar os manifestantes convocados pela Associação de
Deficientes das Forças Armadas (ADFA) que cercavam o governo, os comandos
irromperam em S. Bento com grande estardalhaço, fazendo rateres com as
chaimites. Os deficientes fugiram, mas estranhamente deixaram muitas cadeiras
de rodas e próteses espalhadas pelo chão. Como protesto, a ADFA vai deixar
(ainda) mais próteses e cadeiras de rodas à porta de armas do regimento na
Amadora.
O alvo nesse dia 28 de setembro de 1975 foi a residência
oficial do primeiro-ministro, mas nas traseiras existia outro espaço do poder,
por enquanto sobretudo simbólico, mas que uns desejavam (e outros temiam) que
viesse a ser real no futuro: a Assembleia Constituinte que rapidamente se torna
um dos destinos favoritos dos cortejos contestatário-reivindicativos. A 16 de julho
de 1975 milhares de manifestantes, com Diniz de Almeida à frente, exigem (menos
de três meses após as eleições) a dissolução da Constituinte. Alternativa
proposta: poder às assembleias populares.
No dia 12 de novembro de 1975 trabalhadores da construção
civil cercam S. Bento e sequestram os deputados durante dois dias. Esta mesma
desconfiança ou repulsa em relação à Constituinte e ao parlamentarismo está
patente na Resolução do Conselho da Revolução de 13 de junho que nomeia uma
Comissão do MFA para acompanhamento dos trabalhos da Assembleia, comissão que,
no entanto, nunca terá chegado a funcionar.
Lembram-se do cinema Universal?
Com tal profusão de acontecimentos e um tal excesso de
realidade não é de estranhar que a ficção se tenha ressentido. É o caso do
cinema político, uma moda do início dos anos 70 que se tentou introduzir em
Portugal. Filmes como Inquérito a um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita
(de Elio Petri, no cinema Castil), Z e a Orgia do Poder (de
Costa-Gravas, no Monumental), Estado de Sítio (também de Costa-Gravas,
no Império), O Conformista (de Bernardo Bertolucci, no Caleidoscópio) e Lacombe
Lucien (de Louis Malle, no Londres) não resistiram sequer um mês em cartaz,
facto compreensível, já que havia política em direto e ao vivo com suspense
suficiente para dispensar a versão ficcional.
Existia todavia uma sala que contrariava esta tendência: o Universal, na Rua da Beneficência, 175. Chamado inicialmente Bélgica (um cinema de bairro inaugurado em 1928), o Universal era local de devoção. É certo que permitiu ver clássicos de Eisenstein, como Outubro, A Greve e A Linha Geral, mas é também verdade que só um acentuado espírito de militância, partilhado por um número significativo de fiéis, explica que O Destacamento Vermelho Feminino, um filme proveniente da República Popular da China, tenha permanecido em cartaz com quatro sessões diárias durante três semanas.
A ação na sala, como recorda José Navarro de Andrade,
compensava a total falta de interesse da fita: “Sucedia que antes do genérico
inicial vinha à tela um cartão em que se agradecia ao PCP (m-l) do renegado
(Eduíno) Vilar a disponibilidade da fita, mensagem que dava azo a uns 15
minutos de algazarra dentro da sala, com os MRPPs aos uivos de um lado, os UDPs
à cuspidelas lá de cima do balcão e outros m-ls sortidos expelindo imprecações
soezes, tais como: “sociais fascistas!”, “as massas vos darão um corretivo
exemplar!”, “traidores!”, “Viva Enver Hoxha!”. Havendo troca de sopapos e
tabefes como chegou a haver, as luzes acendiam-se, a projeção interrompia-se e
o arrumador que também era bilheteiro e projecionista, acudia à bulha a
mandar-nos todos à merda que não estava para aturar isto, querem lá ver…!”
Encerrado após a falência da empresa proprietária (Animatógrafo, de Cunha Teles) o Universal reabriu como sala de concertos a 18 de dezembro de 1980 – era agora o Rock Rendez Vous, em cujo concerto inaugural participou um grupo até ali desconhecido: Rui Veloso e a sua Banda Sonora.
Os maiores sucessos eram contudo obtidos nas bilheteiras das
salas onde passavam os chamados filmes eróticos, embora aos olhos de hoje nem
todos justificassem esta designação. O entusiasmo que se manifestou, logo a
seguir ao 25 de Abril, em relação a alguns filmes resultou apenas da
possibilidade que as distribuidoras tiveram de colar os fotogramas que a
censura havia mandado cortar nas fitas acabadas de estrear, permitindo assim
revelar algo da nudez de Jacqueline Bisset em Segredos Proibidos (e
pouco depois a de Julie Christie em Aquele Inverno em Veneza). Outras
“obras de autor”, como O Último Tango em Paris (de Bernardo Bertolucci,
no S. Jorge) devem também o seu êxito nos écrans lusos à possibilidade de serem
vistas como fitas eróticas.
Antes o Trinità que o Garganta Funda
A 11 de março Spínola fugia para Espanha e Os Pecados
Inconfessáveis de uma Senhora Bem despedia-se também de um público que
tinha esgotado sessões ao longo de 20 semanas no Odéon. A que se devia tal
sucesso? A fita do Odéon era afinal uma simples comédia italiana, tal como Malícia,
que no Vox se prolongou quatro meses e meio, e Empresta-me o Teu Motorista,
que se aguenta três meses no Politeama. Qualquer delas sugeria, mais do que
mostrava, qualquer sexualidade. Mas as autoridades, essas, mostravam uma crescente
preocupação com este género cinematográfico que classificavam como
pornográfico, oportunista e acusavam não só de “agressão ideológica reacionária”,
como de violar o programa do MFA.
O êxito maior de entre os filmes merecedores da categoria de
eróticos havia de se estrear só um ano após o 25 de Abril, permanecendo quatro
meses e meio no Roma: Emmanuelle (“Um filme moralmente repelente,
ideologicamente oportunista, politicamente reacionário”, segundo a crítica de
João Lopes à época). No entanto, os chamados filmes hardcore (distintos dos
softcore como Emmanuelle) estão por enquanto arredados das salas de
Lisboa: só a 12 de agosto de 1976 se estreiam na capital as duas primeiras
fitas deste género, Garganta Funda e Êxtase Sexual da Macumba.
Contudo, em julho de 1975, já o sol vai alto no firmamento
da revolução, volta a aparecer Música no Coração, no Monumental.
Reposições são também a opção do cinema Berna (anexo à Igreja de Nossa Senhora
de Fátima, encerrou em 1990, alojando mais tarde os estúdios da TVI), que em agosto
repete Jesus Cristo Superstar, já estreado antes do 25 de Abril. E em novembro
é aqui que se estreia O Exorcista.
Significa isto que os lisboetas andavam já saturados de sexo
e política? Na realidade alguns géneros consagrados, como as coboiadas do Trinità
(Meu Nome é Ninguém) e do Sabata ou as fitas de artes marciais (A
Fúria do Dragão), nunca deixaram os seus apreciadores desamparados durante
o PREC. O Olímpia e outros “cinemas piolho”, especializados nestes géneros,
ainda funcionavam em regime de sessões contínuas, com dois filmes seguidos,
podendo entrar-se em qualquer momento e permanecer o tempo que se entendesse.
O roteiro dos cafés, cada um com a sua tribo
Os cinemas eram apenas uma das formas de lazer e divertimento noturno. Havia outras que incluíam em regra uma passagem pelos cafés. A mais conceituada concentração de cafés encontrava-se em Alvalade e nela ganhava destaque o Roma, no n.º 2-C/D da avenida do mesmo nome, encostado ao Ministério do Trabalho. Num primeiríssimo olhar nada parecia ter mudado aqui nos primeiros anos do PREC. O mini artilhado, os motores a trabalharem horas infindáveis enquanto se conversava e enquanto decorriam manobras de sedução, tudo pago pelos pais que aliás pagariam também o resto da noitada que se prolongaria pelos espaços noturnos habituais. Eram os “meninos de mota, com a china na bota e o papá na algibeira”, registados para a história na letra de Ary dos Santos.
Ou, como também se dizia, os cafés dos “putos fachos”, perdidos para a revolução, dos quais se diria terem já feito a sua opção de classe. E realmente fizeram: alguns passavam por vezes as noites a colar cartazes ou em comícios dos partidos ditos fascistas, que acabavam invariavelmente em cena de pancadaria e correrias.
O Roma fechou alguns anos depois do 25 de Abril. O mesmo aconteceu aliás aos cafés de muitas ruas de Lisboa mas parece que a Avenida de Roma é aquela que mais se pode queixar. Talvez porque esta avenida fosse em grande parte os seus cafés: logo em frente do Roma ficava o Capri (3-C). Dois quarteirões acima, a pacata pastelaria Silvia (28-E) contrastava com a Tique-Taque (29-B), interposto de venda de “boi”, a liamba que se dizia trazida pelos retornados de Angola mas que na verdade fora introduzida aqui anos antes pelos militares portugueses regressados da guerra (como o atestam vários julgamentos em tribunal). Os mesmos militares que agora preferiam essa nova curtição que era a via portuguesa para o socialismo, repudiando a droga como solução alienante própria da burguesia. Continuando para norte aparecia do lado esquerdo o café Trevi (39-A) e depois, passado o A. C. Santos, a Suprema (61-B), já próxima do cruzamento das avenidas Roma e EUA onde, frente a frente, se situavam o Luanda e o Vá Vá (Avenida dos Estados Unidos da América 97-D e 100-C, respetivamente).
Referir o Vá Vá obriga por norma a fazer uma pausa de
homenagem a uma tertúlia de cineastas que se tinha tornado famosa. Aqui, no
“Ninho de Lacraus”, como lhe chamavam, se reuniam no final dos anos sessenta
figuras como Lauro António, Fernando Lopes, António Pedro Vasconcelos, Paulo
Rocha, Alberto Seixas Santos, João César Monteiro, Cunha Telles e Benard da
Costa. O Vá Vá é por isso assinalado como berço do chamado Cinema Novo
português.
O retrato feito por Maria Filomena Mónica no livro Bilhete
de Identidade (há sempre alguém disponível para desfazer mitos) não é
contudo tão sublime: “Era lá que pairava a tribo dos cineastas, cuja principal
preocupação parecia ser arranjar miúdas.” Ali se juntavam também estudantes
ligados ao movimento associativo e futuros políticos – Jaime Gama, Medeiros
Ferreira, Alfredo Barroso, Nuno Brederode Santos – e ainda um grupo de músicos
capitaneados por Luís Villas Boas. E mereceu ainda que José Mário Branco escolhesse
o Vá Vá como tema de canção: “Quando estou sentado à mesa/deste café/sinto
vocação de pensador engagé”
A completar a lista de cafés, e regressando para isso à
Praça de Londres, havia ainda que ter em conta, a um canto da praça, no n.º
3-C, o Café Londres, famoso pelos bilhares, os melhores de Lisboa, numa opinião
que naturalmente não seria unânime. Na outra ponta da praça, ao cimo da Avenida
Guerra Junqueiro, defrontavam-se de um lado a Mexicana, (no n.º 30) e do outro
a Copacabana (no n.º 21) com mobiliário “rústico austríaco”. Todos
desapareceram nos anos que se seguiram ao processo revolucionário (com exceção
da Mexicana, Sílvia, Luanda e Vá Vá, o último amputado agora em metade e sem o
glamour de outros tempos).
O mesmo aconteceu com um outro núcleo importante de cafés na
Avenida Fontes Pereira de Melo, junto ao Saldanha: A Paulistana (52-A), o
Monumental (51-B) e o Monte Carlo (49 C), este com a sua tabacaria no interior.
Tabacaria de culto já que aqui se podiam encontrar ainda antes do 25 de Abril
diversos jornais estrangeiros, a par da revista Playboy (e similares)
que apesar de ser publicação proibida ali chegava com maior ou menor
regularidade e ali era vendida de forma discreta.
Naturalmente que todo este ambiente de cafés nada tem de
específico do PREC, antes é a sobrevivência de uma tradição que vem das décadas
anteriores e que pode ser explicada pela polivalência destes espaços:
conversar, estudar, discutir, tudo feito em grupo, até namorar, num espaço
abrigado e pelo custo módico de uma bica. Mas tanto ou mais que um espaço onde
estar, o café era um espaço de onde partir, ponto de encontro e de definição de
estratégias noturnas.
A diferença entre a boîte e a discoteca
E partir para onde, a seguir? Se esta sacrossanta pergunta –
que sempre se repete em dado momento da noite, com ou sem revolução – fosse
feita um ou dois anos antes do PREC era muito provável que a resposta fosse o
Van-Gogo (Travessa da Alfarrobeira, 9, Cascais), o Ad Lib (Rua Barata
Salgueiro, 28, 7º) ou o Stones (Rua do Olival, 1), boîtes da iniciativa de
Manecas Mocelek, figura incontornável da noite de Lisboa no final dos anos
sessenta.
Esta palavra boîte começa por esta altura a ser empurrada
para fora do seu espaço devido ao aparecimento de uma nova expressão:
“discoteca”. Para complicar tudo, o vocábulo discoteca já existia, embora se
referisse a outra realidade, as lojas de venda de discos (o léxico também tem
destas lutas intestinas). Como designação de espaços onde se dança as
discotecas surgiram no início dos anos setenta. Eram a Primorosa de Alvalade
(antes Pop Clube, na Avenida Estados Unidos da América 128-A), o Browns e o
Beat Club (próximas da Avenida de Roma, na Rua Conde Sabugosa) e Skylab (Rua
Artilharia Um 69-B). Já a expressão boîte ficava reservada para as mais antigas
Ad Lib, Stones e Van-Gogo (para
sempre famosa por ter recusado a entrada a Gina Lollobrigida, uma das 1500
figuras do jet set convidadas da festa de Antenor Patiño em 1968, porque ao
porteiro da boîte lhe pareceu uma senhora de aspeto duvidoso).
Mas o PREC tinha dado uma grande volta a tudo isto. O
Stones, por exemplo, chega a receber ordem de encerramento com base em queixas
da Comissão de Moradores que propunha a sua transformação em cantina popular. O
motivo invocado era perfeitamente aceitável na época: além do ruído, o Stones
era ponto de encontro da burguesia e da reação. Na realidade estava muitas
noites às moscas já que a burguesia (ou seja, a clientela habitual) começava a
escassear. Muitos dos antigos frequentadores, ou os seus pais, no caso dos mais
novos, tinham optado por partir de Lisboa por temerem serem presos ou porque já
nada tinham a fazer aqui, depois de saneados ou vendo as antigas empresas
intervencionadas. O próprio Mocelek acaba por embarcar para o Brasil. Mas o
Stones aguenta-se, vindo a fechar muitos anos depois.
Não valia contudo a pena lamentar estas mutações. Afinal
estava-se em 1974 ou 1975 e agora o máximo era o 2001, no Autódromo do Estoril,
inaugurado três anos antes. Mais democrático, sem a obrigação de levar par
feminino para poder entrar, por trinta escudos pagos à porta (o equivalente a
pouco mais de quatro euros aos preços de hoje) qualquer um podia mergulhar na
pista de dança e ficar por lá até às quatro da madrugada. Em alternativa havia
o Whispers, no interior do Centro Comercial Imaviz (Avenida Fontes Pereira de
Melo, 35), inaugurado em 1975. O Whispers era discoteca de betos, sendo este um
dos três grandes grupos definidores de estilos e comportamentos da época, a par
dos freaks e dos militantes marxistas-leninistas, maoístas ou trotskistas. Punks,
góticos e outras tribos são matéria para os anos seguintes.
Ao contrário dos frequentadores das boîtes e discotecas, os
que se dirigiam para os bares iam sobretudo em busca dos enredos e mexericos em
que o Processo Revolucionário era fértil.
Do Botequim ao Procópio
Um dos que mais se destacava nesta missão era o Botequim, nascido em 1971, no edifício da Vila Sousa, ao Largo da Graça 79. O Botequim era indissociável da sua criadora, Natália Correia, da sua voz teatral, das frases perentórias, do empenho nas discussões e da sedução e fidelidades que tudo isso provocava, a par de muitas irritações (Agustina Bessa Luís referia-se a Natália como a “tasqueira da Graça”, enquanto para esta Agustina era a “bruxa da Areosa”). Houve uma altura em que toda a gente passava por aqui. A lista seria quase infindável, mas o número de presidentes e presidenciáveis que se sentaram no Botequim é elucidativo: Costa Gomes, Eanes, Soares, Sampaio, Otelo, Henrique Neto, todos frequentadores do bar da Graça. Natália Correia acompanhou atenta as “conturbações sobressaturantes” (a linguagem de Natália era sempre assim, barrocamente criativa) de 74 e 75, mas inquietou-se com o peso das vanguardas. Sentia-se mais próxima de figuras como Melo Antunes: o Documento dos Nove passa pelo Botequim antes de ver a luz do dia, mas é reprovado por Natália devido a um erro de morfologia gramatical.
Parte destas figuras que se encontram no Botequim vão também
ao Procópio, inaugurado em 1972, no Alto de S. Francisco 21, junto ao Jardim
das Amoreiras. A decoração Arte Nova e o conforto dos veludos vermelhos
contrastavam com o projeto de “morte à burguesia” de muitos dos seus
frequentadores. Aqui cabia a Alice Pinto Coelho conciliar a diversidade de
clientes, grande parte deles jornalistas que apareciam à noite, a farejar a
história da última conspiração ou da próxima golpada.
Mas no período do PREC não se cultivava apenas a retórica e
a intriga. A contabilidade também era importante. Uma atividade a que os
partidos se dedicavam com afinco era à contagem de oficiais amigos, sobretudo
capitães de Abril. Todos os partidos os tinham, até o MRPP na pessoa do major
Aventino Teixeira, habitué do Procópio, quase um seu símbolo.
Quando, a altas horas, as boîtes encerravam repetia-se a
mesma pergunta ou uma sua variante: onde acabar a noite? Aqui as opções estavam
desde há muito definidas, até porque não havia tanto por onde escolher. A
primeira hipótese era rumar para o cacau da Ribeira, não só para o
estabelecimento que ainda existe, no Mercado da Ribeira Nova da Avenida 24 de
Julho, mas também para o tasco instalado no interior do antigo e demolido
Mercado Abastecedor de Peixe Miúdo (ou simplesmente a lota) nas docas do Cais do
Sodré, mesmo à beira do Tejo, onde se ingressava contornando caixotes de peixe
acabado de descarregar. Havia ainda um local equivalente, o Mercado Abastecedor
Central de Produtos Hortícolas da Avenida das Forças Armadas (antes Avenida 28
de Maio), também desaparecido.
Depois, excluindo alguma padaria ou tasca que cruzasse o seu horário madrugador com o dos noctívagos, restava o Parque Mayer onde os consagrados Cantinho dos Artistas e Cova do Galo (este no exterior do Parque, no n.º 29 da Travessa do Salitre, onde hoje está o Restaurante Café Plaza) se mantinham abertos toda a noite. É difícil descrever hoje o ambiente da Cova do Galo, em cuja cave tocava o pianista Eugénio Pepe, o autor da música do “Vamos dormir (a letra era de Alexandre O’Neill) que na RTP, a partir de 1965, passou a assinalar a hora de os meninos irem para a cama.
Simplificando muito, aqui, nestes bares, misturavam-se atores
e coristas de revista com todos aqueles que vivem de noite, por profissão ou
vocação, e entre eles muitos elementos do lumpenproletariat. Estes, tal como os
betos, eram considerados perdidos para a revolução. É por isso neste meio tão
especial do bas fonds do Parque Mayer que o ator Nicolau Breyner vai fazer recrutamento quando
procura gente disponível para fazer a segurança de partidos da “direita”
– “uma rapaziada do Parque Mayer, cheia de boa vontade”, como recorda Mário
Soares. Porque a direita ia então desde MDLP ao PS.
E que tal nacionalizar o teatro também?
Mais do que pelos bares, o Parque Mayer valia pelos seus teatros de revista. Por esta altura mantinham-se ativas na “Broadway portuguesa” o Maria Vitória, o Variedades, o ABC e o Capitólio, que ainda não se tinha convertido em sala de cinema e onde ia à cena Mostra-me a tua Piscina, uma comédia em contraciclo com a politização generalizada mas que (ou talvez por isso) se manteve em cena dois anos.
O teatro sofre por esta altura forte agitação. A 26 de abril
de 1975, um projeto de lei prevê a passagem do teatro a serviço público, para o
defender de monopolistas como Vasco Morgado. A ideia já tinha sido debatida uns
dias antes, a 16 de abril, numa reunião na Sociedade Portuguesa de Autores
(Avenida Duque de Loulé 31), onde Natália Correia se destaca na condenação
desta nacionalização da atividade teatral. Discute, enerva-se, chamam-lhe
mentirosa e contrarrevolucionária, dá uma chapada no autor da acusação e, contra todas as previsões, leva
outra. Inadmissível? Não. O cavalheirismo era um conceito burguês.
O teatro português nunca chegou a ser nacionalizado mas a ideia não morreu logo. Ainda em 30 de outubro de 1975 Luís Miguel Cintra sentenciava ao Diário Lisboa: “O que nós acharíamos correto seria que o teatro fosse considerado como um serviço público, portanto, igual à Educação. O teatro, como atividade lucrativa, desapareceria completamente.” Mas como aconteceria isso, pergunta o jornalista? Resposta: “Também há formas «violentas» para eliminar de vez o empresário e o comércio teatral…”
No que à revista em particular diz respeito o ambiente não é
mais calmo. Com o fim da censura, os autores e encenadores sentem-se enfim
livres. Solta-se o palavrão nos textos, descobre-se o seio em cena mas não se
ganha público com isso. Pelo contrário. Há por isso quem pense renová-la
criando para esse efeito a Cooperativa Ádóque e construindo um teatro
provisório que nunca passou a definitivo que se estreia com a revista “Pides
na Grelha”, em setembro de 1974. Os fundadores são na sua maioria
militantes ou simpatizantes do Partido Comunista: José Viana, Francisco
Nicholson, Henrique Viana ou Ermelinda Duarte.
A sala do Ádóque ficava na Praça de Martim Moniz, vizinho de
umas barracas preexistentes, de venda de calçado, às quais ao longo de 1975 se
foram acrescentando outras, de vários ramos de comércio, também provisórias (o
Martim Moniz teve sempre esta característica), que acabaram por ocupar toda a
praça. Só muitos anos depois seriam transferidas para a Praça de Espanha onde
por sinal estavam instaladas duas salas de teatro de vanguarda, o Teatro
Aberto, surgido em 1975, do Grupo 4, e a Comuna, Teatro de Pesquisa, que ocupou
em março do mesmo ano o edifício do antigo Colégio Alemão.
Teatro experimental, independente era também a Casa da
Comédia, instalada desde julho de 1963 numa antiga carvoaria, na Rua S.
Francisco de Borja, 24, às Janelas Verdes, e a companhia Teatro da Cornucópia,
no Teatro do Bairro Alto, na Rua Tenente Raúl Cascais 1-A. E se quisermos
prosseguir a lista temos de incluir o Teatro Experimental de Cascais, o Teatro
Estúdio de Lisboa, os Bonecreiros, os Cómicos ou o Teatro Moderno de Lisboa.
Muitas destas salas sobreviveram até hoje. Pior sorte teve o Parque Mayer que atingiu nos nossos dias um estado comatoso. Tudo ali foi fechando ao longo das décadas posteriores ao PREC, teatros, bares, restaurantes. Até o Guarda Roupa Paiva, onde se alugavam fraques e smokings. Terá este guarda-roupa chegado a lugar algum smoking ou fraque em 1975?
É pouco provável. Afinal já nem para as óperas do São Carlos
serviam desde que a obrigatoriedade de usar traje de cerimónia nas récitas de
estreia foi abolida, após o 25 de Abril. Entendia-se então que os formalismos e
as convenções tinham os dias contados. Seguindo uma tendência que já vinha de
anos anteriores, os noivos apresentam-se nos seus casamentos de polo e as
noivas de calças à boca de sino. Era o fim dos rituais, pensava-se (afinal
voltariam, e reforçados, já na década seguinte).
Televisão? Dois canais, seis horas por dia
Também no interior das habitações se registam importantes
transformações ao nível dos comportamentos. Deve datar dessa época a decadência
de uma tradição: as refeições à mesa e em família, substituídas pela nova
prática do tabuleiro solitário frente ao televisor (neste caso trocou-se o coletivismo
pelo individualismo).
A partir da tranquilidade da sala de estar podia assistir-se a reportagens de comícios, ao Programa do Movimento das Forças Armadas, nas quintas à noite, durante uma hora, a outras rubricas doutrinárias, como Escrever é Lutar, a clássicos do cinema dos anos 40 e a música clássica (como nunca mais houve) e, aos domingos à tarde, ao TV Rural, do engenheiro Sousa Veloso, que conseguiu atravessar todo o ano de 1975 sem se referir à Reforma Agrária. A existência de um só televisor por habitação e não mais que dois canais (I e II programas), assim como o desconhecimento do telecomando, já existente nos EUA, não dão azo a discussões familiares sobre que programa sintonizar. As crianças podem por isso ver em paz as séries juvenis vindas de leste (Os 4 do Blindado e o Seu Cão, o Capitão Kloss) e muita animação checoslovaca e búlgara.
Às 21h 15m de 14 de fevereiro de 1975, a RTP cumpria um
ritual com mais de uma década, fazendo chegar a casa dos portugueses o XII
Grande Prémio TV da Canção 1975. Para os mais conservadores deveria ser um
momento apaziguador, mas os títulos das canções não deixavam espaço para
dúvidas de que a cantiga devia ser uma arma e não um ópio auditivo: Alerta
(José Mário Branco), Batalha-Povo (Paco Bandeira), Pecado (do)
Capital (Fernando Girão e Jorge Palma), Com uma Arma, Com uma Flor
(Paulo de Carvalho) ou Canção Acesa (Victor Leitão) vinham afirmar que o
nacional-cançonetismo estava arredado. Era (pensava-se) coisa do passado que
nunca mais voltaria.
O momento alto televisivo neste período (além de alguns
imprevistos, como as tentativas de golpe de estado em direto de 11 de março e
25 de novembro) deu-se entre as 22 horas do dia 6 de novembro de 1975 e as 2
horas do dia seguinte: o frente-a-frente Soares versus Cunhal, no programa Responder
ao País. Para memória futura ficou o “olhe que não, olhe que não” proferido
por Álvaro Cunhal e a vitória de Mário Soares, que claramente argumentava
melhor que o líder comunista.
No dia 29 de setembro de 1975, por ordem de Pinheiro de
Azevedo e em resposta ao sequestro do seu governo, os estúdios da RTP são
ocupados por militares, o mesmo acontecendo às estações de rádio. Entre elas
está a Rádio Renascença, uma emissora que, depois do sucesso provocado por Simplesmente
Maria (terminado em setembro de 1974) se transformou ela própria num
folhetim radiofónico revolucionário que os lisboetas acompanharam desde 30 de abril
de 1974.
Houve um pouco de tudo: momentos de entusiasmo (a ocupação
da estação pelos trabalhadores às 19 horas de 27 maio de 1975), expedientes
ilegais (sem dinheiro para pagar aos TLP, a estação usava linhas de telefone
colocadas clandestinamente por sindicalistas do sector das comunicações), de
violência (40 feridos entre os contramanifestantes que no Campo dos Mártires da
Pátria apoiavam o Patriarcado, proprietário da Renascença, na noite de 18 para
19 de junho de 1975), de inquietação (barricadas à porta da rádio, na Rua Ivens
14), de indignação (a 30 de setembro, às 4 horas, os Comandos da Amadora
ocuparam os retransmissores da Buraca que duas semanas depois são selados pelo
governo) e de euforia (quando manifestantes retiram os selos nos
retransmissores).
O epílogo surgiu a 7 de novembro com o silenciamento à bomba
dos emissores da Buraca por ordem do Conselho da Revolução.
A cantiga é uma arma e eu não sabia…
Estes acontecimentos serviram mais uma vez para ensaiar
grandes mobilizações da extrema-esquerda, a que se juntaram a JOC, Juventude
Operária Católica, e os Cristãos pelo Socialismo, com sessões de canto livre na
Buraca, noite fora, que envolveram o GAC, Grupo de Acão Cultural Vozes na Luta,
cujo rosto mais reconhecível era o de José Mário Branco. Chegou a ser proposto
nessa noite que as emissões da Renascença passassem a abrir ao som da
Internacional.
Mas já não era a Internacional que os portugueses queriam ouvir. Por esta altura, novembro de 1975, na revista Tele Semana, o deputado socialista e compositor José Niza constatava que nos últimos dois meses e meio não tinha surgido nenhum disco português na lista dos dez mais procurados. E explicava porquê: “A rejeição provocada pelo autêntico massacre sonoro a que a rádio e a TV submeteu os ouvidos dos portugueses no post-25 do Abril, em que foi cometido o erro de se julgar que a revolução, se decidiria através da música e em que se pensou mais em destruir os símbolos, do que em criar algo de novo e verdadeiramente revolucionário, que os substituísse.”
Em boa verdade, o fenómeno já era anterior. Nem foi preciso
chegar a novembro de 1975. Meio ano antes, em abril, a pergunta de Camilo Sesto
– Quieres ser mi amante? – motivava muito mais as portuguesas e os portugueses
do que o canto livre (na época dizia-se apenas “os portugueses”, mesmo que
houvesse apenas um homem entre as milhares de mulheres fascinadas com os olhos
azuis do cantor espanhol).
No Top 20 deste número de abril da revista Mundo da
Canção, além de Camilo Sesto, que figurava em 1.º lugar, e de Demis
Roussos, em 2.º e 3.º, apenas um intérprete português integrava os dez
primeiros: o hoje ignorado Ruy Moura Guedes, autor de Para Hoje. Mais
abaixo na tabela, em 13.º e 18.º lugares, aparecia a Banda do Casaco, a melhor
banda portuguesa de rock progressivo. Mas progressivo não era o mesmo que
progressista. Pelo menos segundo a semântica revolucionária.
Nesta mesma lista dos Top 20, surgia em 10.º lugar The
Lamb Lies Down on Broadway, dos Genesis, um conjunto que tinha atuado em
Portugal no mês anterior, a 6 e 7 de março de 1975, no Pavilhão do Dramático de
Cascais. Ainda hoje, passados 40 anos, muitos dos presentes recordam aquele que
consideram ter sido o melhor concerto rock de sempre em Portugal. É possível,
embora seja também verdade que aquilo que nos acontece aos 16 anos jamais pode
ser igualado por acontecimentos posteriores. Há páginas no Facebook, blogues
exclusivos, almoços e sessões comemorativas, até reconstituições históricas com
outras bandas, sempre com o mesmo lema: “Eu estive lá.”
O requinte da produção do concerto, com encenação e
guarda-roupa que variavam com os trechos musicais, era algo nunca visto. Som,
cor e cheiro (a liamba) conjugavam-se para o transformar num concerto
memorável. A certa altura as portas abriram-se e entrou uma multidão de roldão,
entre ela muitos soldados fardados. Dos 20 000 espectadores daqueles dois dias,
um terço terá ingressado sem bilhete ou com bilhete falso. Houve disparos para
o ar no exterior. Os militares do COPCON que era suposto garantirem a segurança
tornaram-se fator de instabilidade. Quando o organizador informou os Genesis
que “isto está fora de controlo” o grupo decidiu entrar logo para o palco e
antecipar o início do concerto, provando ter melhor conhecimento da psicologia
de massas que as autoridades.
Os Genesis e a alienação capitalista
O que é tudo isto tinha a ver com a revolução em curso? Exatamente:
nada. O repórter João Alves da Costa, enviado ao aeroporto pelo Diário
Popular, manifesta-se desconcertado com as respostas de Peter Gabriel, o
vocalista da banda: “Desassombradamente, confessou o apolitismo da música que
professa, o desinteresse por qualquer vinculação actante no complexo sociocultural
vigente.”
No mês seguinte, ao fazer o balanço do concerto, na já
referida edição de Mundo da Canção, Jorge Lima Barreto diverte-se a
comentar que o grupo pretendia em primeiro lugar promover o seu último álbum (The
Lamb Lies Down on Broadway), provando desse modo a sua adesão à reprodução
mercantil do mundo capitalista. E conclui: “Os Genesis cumpriram tudo o que uma
sociedade burguesa esperava deles: divertir, alienar, dar-nos prazer
idealista”.
O Pavilhão do Dramático (na realidade um polidesportivo) tinha começado a ficar conhecido por aí se realizar, desde 1971, o Festival Internacional de Jazz de Cascais, por onde passaram os nomes maiores do deste género musical, sobretudo nos três primeiros anos, entre 1971 e 1973.
O espetáculo dos Genesis tornou evidente que as massas,
particularmente os mais novos, pareciam cada vez mais atraídas pelo brilho da
alienação capitalista. Mas o pior era mesmo o apelo da sociedade de consumo: no
verão de 1975 a FIAT vende mais carros do que nunca em Portugal e a pronto
pagamento. Segundo a justificação apresentada, as pessoas aplicam o dinheiro
num automóvel pois não sabiam quanto ele poderia valer daí por um ano.
Com assinalável ingenuidade perguntava o primeiro-ministro
Vasco Gonçalves a 27 de julho de 1975, na Fundação Calouste Gulbenkian, durante
o Congresso dos Sindicatos: “É mais livre um tipo por ter um automóvel,
frigorífico, moradia, etc., mas tendo que andar dentro daqueles cânones da
sociedade capitalista, sem liberdades, ou com falsas liberdades; será melhor a
vida desse homem ou de um que tenha um nível de vida material muito pior, mas
que participe na edificação da sua pátria; que discuta com os outros nas
comissões de moradores, nas comissões de bairro?”
Bastava abrir os jornais para perceber qual a resposta que
os portugueses davam a esta pergunta: ao lado das notícias sobre as reuniões
das comissões de moradores, das comissões de bairro e de todas as outras
comissões então surgidas (e cada vez menos participadas), multiplicavam-se os
anúncios a apartamentos, automóveis, férias, eletrodomésticos…
Sim, os portugueses tinham escolhido não escolher a
revolução.
Fonte: Observador, 5 de setembro de 2015


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