Quem é Mohsen Rezaei, o novo chefe de segurança do Irão procurado pela Interpol?
Tropiques criminels (2019) - Sonia Rolland, Hindra Armède
Mohsen
Rezaei, uma das figuras fundadoras do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica
(IRGC), foi nomeado secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do
Irão, passando a deter autoridade formal sobre o órgão responsável pelas
decisões estratégicas de Teerão
A nomeação foi feita por decreto presidencial, assinado por
Masoud Pezeshkian no domingo.
Umas horas antes, o aiatola Mojtaba Khamenei tinha nomeado
Rezaei como seu representante pessoal no conselho.
Com quase cinco décadas no topo do aparelho de segurança e
militar da República Islâmica, Rezaei, de 71 anos, sucede a Mohammad Bagher
Zolghadr, comandante veterano da Guarda Revolucionária que se demitiu após
cerca de quatro meses no cargo e foi nomeado conselheiro político de Khamenei.
Logo após o anúncio da nomeação, Rezaei declarou
publicamente que o Irão não abrirá um segundo corredor marítimo no estreito de
Ormuz, que os navios de guerra dos Estados Unidos que entrem no estreito serão
alvo de ataques e que a guerra tem de terminar e os ativos iranianos congelados
têm de ser libertados antes de Ormuz poder voltar a ser reaberto.
Quem é Mohsen Rezaei?
Rezaei, de nome de nascimento Sabzvar, nasceu em 1954 na
província de Khuzestan, numa família tribal bakhtiari.
Inicialmente ativista político contra o regime do xá Reza
Pahlavi, no início da década de 1970, Rezaei foi detido pela agência de
inteligência do xá, a SAVAK, e preso em Ahvaz.
Foi um dos fundadores do grupo armado Mansouroun, que ajudou
a lançar as bases para a Organização dos Mojahedin da Revolução Islâmica.
Após a revolução de 1979, Rezaei integrou o conselho central
da República Islâmica e fez parte de uma comissão de 12 membros que redigiu o
estatuto da Guarda Revolucionária.
Em setembro de 1981, com 27 anos, o aiatola Ruhollah
Khomeini nomeou-o comandante-chefe dos Guardas da Revolução.
Rezaei manteve o cargo durante 16 anos, tornando-se um dos
comandantes militares com mais longevidade na história da República Islâmica,
antes de abandonar a chefia em setembro de 1997.
Passou então a secretário do Conselho de Discernimento do
Interesse do Estado, o órgão que resolve disputas entre o parlamento e o
Conselho dos Guardiães e define grandes linhas da política de Estado, função
que desempenhou durante quase 24 anos.
Em 2021, foi nomeado vice-presidente para a Economia no
governo do presidente Ebrahim Raisi, cargo que deixou em junho de 2023.
Apesar deste percurso de destaque institucional, Rezaei
concorreu quatro vezes à presidência e perdeu em todas. Nas eleições de 2021,
obteve 3,4 milhões de votos, menos do que o número de boletins considerados
inválidos.
Atentado ao centro judaico na Argentina
O nome de Rezaei tem sido associado internacionalmente ao
atentado de 1994 contra o centro comunitário judaico AMIA, em Buenos Aires, que
matou 85 pessoas e feriu centenas, o ataque terrorista mais mortífero da
história da Argentina.
Em 2007, procuradores argentinos pediram mandados de captura
para nove pessoas em ligação com o ataque, incluindo Rezaei, então comandante
do IRGC. A Interpol emitiu então um alerta vermelho para a sua captura, que
continua em vigor.
Teerão e Rezaei negaram sempre qualquer envolvimento no
ataque, descrevendo as acusações como motivadas politicamente.
O processo teve, ainda assim, consequências práticas: a
Argentina protestou contra a sua nomeação como vice-presidente para a Economia
em 2021, já antes se tinha oposto à sua presença em tomadas de posse de
presidentes da Nicarágua e pediu ao Qatar que o detivesse e extraditasse
durante uma visita a Doha, pedido que não foi cumprido.
Operação Karbala-4
O episódio mais controverso do comando militar de Rezaei, no
plano interno, foi a Operação Karbala-4, uma ofensiva de dezembro de 1986,
durante a guerra Irão-Iraque, destinada a recuperar partes da área de Faw, que
foi detetada e repelida pelas forças iraquianas, causando pesadas baixas
iranianas, incluindo em unidades de mergulhadores de combate.
Em 2015, foram descobertos e identificados os restos mortais
de 175 mergulhadores que tinham participado na operação, alegadamente
sepultados com as mãos atadas.
A afirmação posterior de Rezaei, segundo a qual a
continuação da operação depois de ter sido comprometida foi uma manobra
deliberada de engano antes da mais ampla Operação Karbala-5, o cerco de Basra,
a maior ofensiva militar da guerra, suscitou fortes críticas de antigos
responsáveis, jornalistas e utilizadores das redes sociais.
Qassem Soleimani, então comandante da Força Quds, contrariou
esta versão, afirmando que Karbala-4 sempre tinha sido a operação principal.
Outro caso polémico surgiu em novembro de 2011, quando o
filho mais velho de Rezaei, Ahmad, que anteriormente tinha fugido para os
Estados Unidos e dado entrevistas aos média criticando altos responsáveis da
República Islâmica, foi encontrado morto num quarto de hotel no Dubai.
A polícia do Dubai atribuiu a morte a uma overdose de
antidepressivos. A família de Rezaei e a secretaria do Conselho de
Discernimento rejeitaram essa conclusão e qualificaram a morte como suspeita. A
causa da morte de Ahmad Rezaei nunca foi estabelecida de forma conclusiva.
Guerra, sucessão e regime em transformação
A nomeação de Rezaei surge após um dos períodos mais
turbulentos na história da República Islâmica.
Os Estados Unidos e Israel lançaram, a 28 de fevereiro,
ataques alargados contra alvos militares iranianos, que mataram o aiatola Ali
Khamenei, o ministro da Defesa Mohammad Reza Ashtiani e cerca de 40 altos
comandantes militares e de segurança.
Ali Larijani, que era secretário do Conselho Supremo de
Segurança Nacional desde agosto de 2025 e era considerado por muitos analistas
a figura mais poderosa do Irão na véspera da guerra, foi morto numa vaga
posterior de ataques israelitas contra Teerão.
Zolghadr sucedeu então a Larijani no cargo. Nos termos da
constituição, um conselho provisório, composto pelo presidente Pezeshkian, pelo
chefe do poder judicial, Gholam-Hossein Mohseni Ejei, e por um religioso
nomeado pelo Conselho dos Guardiães, assumiu as funções de liderança do país
até que Mojtaba Khamenei foi escolhido como terceiro aiatola em 9 de março.
Fonte: Euronews, 13 de agosto de 2026


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