Rei de Marrocos e Netanyahu estão por detrás da invasão migratória em Espanha, diz historiador
Em menos de 24 horas, cerca de 60 mil migrantes, na sua
maioria jovens marroquinos, atravessaram ou tentaram atravessar a fronteira
entre Marrocos e Ceuta, enclave espanhol no Norte de África.
A travessia em massa, por terra e a nado, provocou dezenas
de mortes, levando o governo espanhol a mobilizar o Exército. Do outro lado do
Atlântico, Donald Trump ilibou Marrocos de qualquer responsabilidade,
atribuindo a crise a «políticas globalistas de extrema-esquerda», e aproveitou
para advertir que os Estados Unidos «estarão como Ceuta dentro de três anos»
caso os democratas regressem ao poder.
A imprensa brasileira limitou-se a noticiar o episódio como
uma «crise migratória» e uma «falha da humanidade», optando por ignorar a
estratégia geopolítica de grande escala que, segundo esta interpretação, esteve
deliberadamente por detrás da travessia.
Para o historiador espanhol Isaac Giribet, o episódio não
foi espontâneo. Sustenta não ter dúvidas de que existiu uma articulação entre
Marrocos e Israel por detrás do que classifica como um atentado à integridade
territorial espanhola.
Giribet possui um Diploma de Estudos Avançados e um
Doutoramento Internacional em História pela Universitat de Lleida, em Espanha.
É ainda professor do Departamento de História da Universidade Estadual do
Maranhão (UEMA), onde coordena o Núcleo de Estudos da Questão Agrária
Brasileira.
Na sua avaliação, seria improvável que movimentos desta
dimensão ocorressem sem a anuência das autoridades marroquinas. «Se Marrocos
não quisesse, isto não aconteceria», afirma.
O historiador recorda que Marrocos já utilizou anteriormente
os fluxos migratórios como instrumento de retaliação política contra Pedro
Sánchez, no caso de Brahim Ghali. Em
abril de 2021, o Governo espanhol facilitou o tratamento médico do
secretário-geral da Frente Polisário e presidente da República Árabe Saarauí
Democrática, Brahim Ghali. Em resposta, na noite de 16 de maio de 2021,
Marrocos afrouxou deliberadamente o controlo fronteiriço, permitindo que cerca
de oito mil pessoas — muitas delas a nado, entre as quais aproximadamente 1500
menores — entrassem em Ceuta nos dias 17 e 18 de maio.
Tal como acontece agora, a imprensa questionou então como o governo
progressista de Pedro Sánchez podia permitir a morte de jovens migrantes
movidos pelo sonho de escapar à miséria e à tirania.
Netanyahu como articulador
Giribet considera não existirem indícios suficientes da
participação direta dos Estados Unidos, mas afirma não ter «qualquer dúvida» de
que Benjamin Netanyahu é o articulador da invasão.
Na sua perspetiva, tal explica-se, por um lado, pela
estreita aliança estratégica entre Israel e Marrocos, que partilham mecanismos
de segurança, serviços de informações e cooperação na indústria militar para
apoiar os respetivos projetos de colonização.
O principal destino deste reforço militar é o conflito no
Saara Ocidental. Após a retirada de Espanha, em 1975, Marrocos ocupou a maior
parte do território, enquanto a Frente Polisário proclamou a República Árabe
Saarauí Democrática. As Nações Unidas continuam a considerar o Saara Ocidental
um território não autónomo à espera de descolonização e não reconhecem a
soberania marroquina sobre a região. Atualmente, Marrocos depende, em grande
medida, do arsenal militar israelita para sustentar o seu processo de ocupação
e colonização do território.
O especialista explica que, em dezembro de 2020, Marrocos
restabeleceu relações diplomáticas com Israel no âmbito dos Acordos de Abraão,
assumindo-se como um dos principais impulsionadores, no mundo árabe, dos
acordos que normalizaram a colonização da Palestina. Em contrapartida, os
Estados Unidos reconheceram a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental, uma
reivindicação rejeitada pelas Nações Unidas e pela Frente Polisário.
Desde então, Israel e Marrocos consolidaram uma estreita
parceria estratégica. Após 2020, Israel forneceu ao reino de Mohammed VI
tecnologia e equipamento militar em larga escala, reforçando a sua capacidade
de projeção regional no âmbito do seu próprio projeto de colonização do Saara
Ocidental. Marrocos foi equipado com tecnologia de inteligência e armamento
israelitas — drones de reconhecimento e ataque, sistemas de defesa antiaérea,
equipamentos de guerra eletrónica, sistemas de informações e vigilância, bem
como tecnologia para a monitorização de fronteiras. O reino recorre
regularmente a tecnologia israelita contra os saarauís. Um dos casos mais
emblemáticos foi a morte de Addah al-Bendir,
chefe da gendarmaria saarauí, em abril de 2021. O episódio mais recente ocorreu
a 7 de junho de 2026, quando um ataque levado a cabo por um drone marroquino
matou Lahbib Mohamed Abdelaziz,
comandante da Frente Polisário e filho do falecido líder Mohamed Abdelaziz.
Parte dos drones utilizados é de fabrico israelita.
O professor considera que a questão mais reveladora é:
«Porquê agora?». Na sua perspetiva, a escalada não é casual, mas integra uma
estratégia destinada a aumentar a pressão política sobre o governo de Pedro
Sánchez e a fragilizar ainda mais a sua posição interna. Mohammed VI estaria,
assim, a demonstrar a sua lealdade, reforçando a legitimidade territorial de
Marrocos e retribuindo a aliança política e a dependência militar estabelecidas
com Israel, num momento em que Espanha se tornou particularmente incómoda para
o Estado israelita.
Espanha e Pedro Sánchez
O governo de Pedro Sánchez rompeu parcialmente com a posição
histórica de Espanha ao apoiar, em 2022, o plano marroquino de autonomia para o
Saara Ocidental. Desde outubro de 2023, Sánchez tornou-se o único chefe de governo
europeu a opor-se frontalmente à campanha militar israelita em Gaza. Reconheceu
oficialmente o Estado da Palestina, defendeu a revisão do Acordo de Associação
entre a União Europeia e Israel, apelou ao cumprimento das decisões do Tribunal
Internacional de Justiça e suspendeu a exportação de material militar espanhol
suscetível de ser utilizado na ofensiva contra Gaza.
Não por acaso, o telemóvel de Pedro Sánchez foi infetado com
o Pegasus, o programa de espionagem desenvolvido pela empresa israelita NSO
Group. O caso foi revelado a 2 de maio de 2022 pelo ministro Félix Bolaños. As
intrusões ocorreram em 2021: o telemóvel de Sánchez foi comprometido em maio e
junho desse ano, enquanto o da ministra da Defesa, Margarita Robles, foi
infetado em junho. A investigação judicial concluiu posteriormente que foram
extraídos mais de 2,5 GB de dados em cinco acessos distintos. Mais tarde, veio
também a público que os ministros Fernando Grande-Marlaska e Luis Planas tinham
igualmente sido alvo de intrusões.
Giribet explica que o governo de Pedro Sánchez tem sido alvo
do que, em Espanha, se designa por uma campaña de acoso y derribo
(«campanha de assédio e derrube»), promovida por uma extrema-direita que hoje
se encontra consolidada institucionalmente no Vox, deixando de corresponder
apenas aos sectores nostálgicos do franquismo.
O historiador afirma não nutrir qualquer simpatia pelo governo
de Sánchez, devido às suas posições contrárias à independência da Catalunha.
Ainda assim, considera ser necessário reconhecer que o primeiro-ministro
espanhol é alvo de uma campanha de lawfare, comparável, na sua
perspetiva, à que Luiz Inácio Lula da Silva enfrentou durante a Operação Lava
Jato. Como exemplos, aponta a investigação à mulher de Sánchez, Begoña Gómez —
aberta na sequência de uma denúncia apresentada pela organização Manos Limpias,
que admitiu ter por base recortes de imprensa que «podiam ser falsos» —, bem
como a condenação do irmão do primeiro-ministro, David Sánchez, e a do
procurador-geral Álvaro García Ortiz, que, segundo o historiador, ocorreram sem
o devido processo legal nem provas suficientes.
O Brasil
«Extremismo globalista de esquerda» é a mesma categoria que
a administração Trump incluiu, em maio de 2026, na sua Estratégia Nacional de
Contraterrorismo, a par do jihadismo e dos cartéis da droga, e que Marco Rubio
levou a uma cimeira internacional dedicada ao combate à «esquerda
transnacional». Segundo esta interpretação, trata-se da categoria jurídica
utilizada para classificar como terrorista um cartel inexistente, justificando
a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, bem como da
designação aplicada, no Brasil, ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao
Comando Vermelho (CV).
Existe uma ampla estratégia norte-americana e sionista de
intervenção e violação da soberania territorial como instrumento de ofensiva
imperialista. Alguns analistas, acrescenta, consideram que a América Latina se
encontra atualmente sob um controlo militar imperial dos Estados Unidos,
iniciado na Venezuela, que descrevem como uma ocupação militar conduzida pela
coligação norte-americana e sionista. Neste contexto, conclui, deve admitir-se
qualquer cenário, incluindo no Brasil, descrito como o «último homem de pé»
(last man still standing).
Fonte: Diário do Centro do Mundo, 31 de julho de 2026
O que está por detrás da crise migratória em Ceuta?
A
entrada de dezenas de milhares de pessoas no enclave espanhol de Ceuta, no
Norte de África, provocou tensão e fez dezenas de vítimas mortais. A disputa
entre Espanha e Marrocos em torno do Saara Ocidental, bem como uma decisão
judicial em Espanha, estão entre as hipóteses avançadas para explicar a
escalada
A entrada de dezenas de milhares de migrantes em Ceuta
reacendeu as tensões entre Espanha e Marrocos e levantou dúvidas sobre as
causas de uma das maiores crises migratórias alguma vez registadas na fronteira
entre os dois países.
Pelo menos 67 corpos foram recuperados do lado espanhol da
fronteira, segundo o representante do governo espanhol em Ceuta, que admitiu
poder haver mais vítimas do lado marroquino. Algumas pessoas terão morrido
afogadas, enquanto outras terão sido esmagadas ao tentarem escalar o quebra-mar
que sustenta a vedação fronteiriça.
Segundo as autoridades espanholas, a maioria das cerca de 50 mil pessoas que atravessaram a fronteira já regressou voluntariamente a Marrocos. Até às 18h00 (hora local) de sexta-feira, 31 de julho, o ministério do Interior estimava que 48 300 pessoas já tinham sido repatriadas.
Por sua vez, Juan Jesús Vivas, presidente do governo
Autónomo de Ceuta, declarou que até 60 mil pessoas poderão ter atravessado a
fronteira nos dois dias anteriores. O enclave conta com cerca de 85 mil
habitantes.
«O regresso das pessoas começou de forma satisfatória, mas o
processo precisa de ser concluído», afirmou Juan Jesús Vivas. «A cidade ainda
não regressou à normalidade.»
Segundo o jornal El País, muitos migrantes decidiram
regressar devido às reduzidas possibilidades de alcançarem o território
continental europeu e à inexistência de infraestruturas para os acolher.
«Fecharam tudo para que não possamos comprar comida e
obrigar-nos a regressar ao nosso país», afirmou à agência Associated Press
o marroquino Mohamed Hatri, de 23 anos.
Ainda assim, a imprensa espanhola noticiou que centenas de
pessoas voltaram a tentar entrar em Ceuta e em Melilha, o outro enclave
espanhol no continente africano, na noite de sexta-feira. Foram travadas pelas
forças militares espanholas. Alguns manifestantes chegaram a lançar pedras
contra os agentes policiais, que responderam com gás lacrimogéneo.
Foco de tensões migratórias
Perante a pressão migratória, Madrid enviou tropas e
reforçou o dispositivo policial no local, mobilizando mergulhadores, drones e
embarcações. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e o ministro do
Interior deslocaram-se na sexta-feira à passagem fronteiriça de Tarajal para
acompanhar a evolução da situação.
Embora Ceuta seja uma fronteira historicamente sujeita à
pressão da imigração irregular, a dimensão deste episódio é considerada
excecional.
Sob administração espanhola desde 1580, a cidade, rodeada
por território marroquino, alberga uma população diversa, composta por cristãos
e muçulmanos, bem como por residentes de nacionalidade espanhola e marroquina.
O antecedente mais próximo remonta a maio de 2021, quando
cerca de dez mil pessoas entraram no enclave ao longo de apenas dois dias.
Na altura, a crise foi desencadeada depois de Espanha ter
permitido que Brahim Ghali, líder da
Frente Polisário, movimento que defende a independência do Saara Ocidental,
recebesse tratamento à covid-19 em território espanhol. Em resposta, Rabat
aliviou os controlos fronteiriços, numa medida interpretada como uma retaliação
diplomática.
A crise acabaria por conduzir à saída da então ministra dos
Negócios Estrangeiros de Espanha, Arancha González Laya. No ano seguinte,
Madrid passou a apoiar o plano marroquino de autonomia para o Saara Ocidental,
pondo termo ao período de maior tensão nas relações entre os dois países.
O que explica a nova crise?
Uma das hipóteses que circula em Madrid é a de que a nova
crise esteja, mais uma vez, relacionada com a disputa em torno do Saara
Ocidental.
O território foi uma colónia espanhola até 1975. Após a
retirada de Espanha, Marrocos assumiu o controlo da maior parte da região,
enquanto a Frente Polisário, apoiada pela Argélia, passou a defender a
independência saarauí. Até hoje, a soberania sobre o território continua a ser
objeto de disputa.
Entretanto, o Parlamento
espanhol prepara-se para apreciar, em sessão plenária, um projeto de lei que
prevê a atribuição da nacionalidade espanhola aos saarauís nascidos quando o
Saara Ocidental ainda se encontrava sob administração espanhola,
antes de 1977. Segundo o jornal El País, a proposta deverá ser votada em
setembro, antes de seguir para o Senado.
A iniciativa é considerada sensível para Marrocos por
reforçar os laços históricos entre Espanha e a população saarauí. Testemunhas
relataram que era reduzida a presença das autoridades marroquinas nas praias
utilizadas pelos migrantes para chegar a Ceuta, alimentando suspeitas de que
Rabat poderá ter diminuído deliberadamente a fiscalização.
Outra hipótese avançada por
analistas prende-se com a recente reaproximação entre Espanha e a Argélia.
Argel apoia a Frente Polisário e viu as suas relações com Madrid
deteriorarem-se em 2022, quando o governo espanhol passou a apoiar a posição
marroquina sobre o Saara Ocidental.
O cenário começou a alterar-se a 20 de julho, quando Pedro
Sánchez visitou a Argélia. Tratou-se da primeira deslocação de um
primeiro-ministro espanhol ao país em quatro anos. As declarações oficiais
destacaram a intenção de restabelecer os laços de amizade e de reforçar a
cooperação bilateral.
O governo marroquino não se pronunciou publicamente sobre o
caso. Segundo a agência Europa Press, responsáveis governamentais em
Rabat atribuíram a mobilização dos migrantes a organizações criminosas e
afirmaram manter uma colaboração «exemplar» com Espanha no controlo das
fronteiras.
Ignacio Cembrero, jornalista espanhol especializado em
migrações no Norte de África, considera que as forças de segurança marroquinas
pareciam ter permanecido «de braços cruzados» desde quarta-feira.
«Para chegar ao quebra-mar que marca a fronteira entre Ceuta
e Marrocos existem cordões policiais e forças auxiliares, pelo que é evidente
que as pessoas foram autorizadas a passar», afirmou à agência France-Presse
(AFP).
Na opinião do jornalista, o governo marroquino poderá ter
visto na crise uma «oportunidade» para pressionar Espanha a negociar o estatuto
de Ceuta e Melilha.
Por sua vez, o investigador em migrações Matteo Villa, do
Instituto Italiano de Estudos Políticos Internacionais, associou a crise em
Ceuta ao descontentamento do governo marroquino em relação à questão do Saara
Ocidental.
«Quero dizer, 50 mil pessoas não aparecem de um momento para
o outro quando, normalmente, chegam apenas algumas centenas por mês», afirmou
ao jornal britânico The Guardian, salientando que os territórios
espanhóis no continente africano são, regra geral, pouco procurados pelos
migrantes. «A viagem de Sánchez à Argélia foi algo de que Marrocos realmente
não gostou», considerou.
Villa sugeriu que Marrocos poderá ter afrouxado os controlos
fronteiriços, sobretudo por saber que tal provocaria alarme na Europa. «Eles
adoram ver os países europeus em conflito entre si.»
Alteração jurídica e «efeito de atração»
Outra explicação para a
corrida a Ceuta prende-se com uma
recente decisão da Justiça espanhola.
No início de julho, o Supremo
Tribunal de Espanha confirmou que a legislação migratória do país não permite
aplicar as chamadas devoluciones en caliente, isto é, a devolução
imediata de migrantes intercetados no mar.
A decisão não afeta quem atravessa irregularmente a
fronteira terrestre, mas altera o tratamento dado aos migrantes que chegam por
via marítima. Segundo a revista alemã Der Spiegel, os agentes
fronteiriços passaram a atuar com maior prudência nestas situações.
Esta é também a tese defendida por Pedro Sánchez. O
primeiro-ministro afirmou, na sexta-feira, que redes de tráfico de seres
humanos exploraram interpretações erróneas da decisão judicial para incentivar
a travessia.
«Das conversas que mantivemos com as autoridades marroquinas
resulta que as redes de tráfico de seres humanos fizeram uma interpretação
interessada da decisão do Supremo Tribunal», declarou.
Segundo Sánchez, essa interpretação «propagou-se como um
incêndio» nas últimas horas. Até ao início de quinta-feira, Ceuta registava um
aumento gradual do fluxo migratório, com cerca de duas mil entradas por via
marítima nos dez dias anteriores. Contudo, em apenas algumas horas, os números
dispararam.
O presidente do Observatório Norte dos Direitos Humanos,
Mohamed Benaissa, também associou a vaga migratória à decisão judicial. Embora
Ceuta disponha de fronteira terrestre com Marrocos, muitos migrantes terão
optado pela via marítima devido à alteração da interpretação jurídica.
Segundo Benaissa, a perceção de que seria mais difícil
devolver de imediato quem chegasse por mar criou um «efeito de atração» entre
jovens que aguardavam uma oportunidade para entrar na Europa, ainda que o
acórdão do Supremo não impedisse a sua deportação. Mensagens difundidas nas
redes sociais por migrantes terão igualmente contribuído para incentivar novas
travessias.
Para Ignacio Cembrero, «não há qualquer dúvida» de que a
decisão da Justiça espanhola atraiu migrantes para Ceuta. «Mas isso, por si só,
não explica a dimensão da mobilização.»
Pressão sobre o governo espanhol
Diante da crise, Pedro Sánchez afirmou estar disposto a
estudar mudanças na Lei de Estrangeiros para garantir que os processos de
repatriação ocorram "da forma mais eficiente possível".
A escalada migratória ampliou tensões políticas dentro da
União Europeia. O governo espanhol convocou a embaixadora da Itália após
integrantes da coalizão liderada por Giorgia Meloni defenderem a suspensão da
Espanha do espaço Schengen, apesar de Ceuta não fazer parte da área de livre
circulação.
"As imagens que chegam de Ceuta são chocantes e
demonstram, mais uma vez, que a imigração ilegal descontrolada representa uma
ameaça concreta à segurança das fronteiras da Europa", escreveu a
primeira-ministra italiana.
Mais tarde, a Itália suspendeu o acordo de Schengen com a
Espanha, no que foi lido por críticos como um gesto mais simbólico do que
efetivo. Não havia indicação de que os migrantes tivessem intenção de seguir
viagem à Itália, que não divide fronteira com a Espanha.
Na Alemanha, o chanceler federal Friedrich Merz afirmou
esperar que Madrid recupere rapidamente o controle da situação e defendeu que
Marrocos readmita os migrantes em situação irregular "de forma
imediata".
A importância de Ceuta
Ceuta é uma cidade autónoma espanhola localizada no
continente africano, na costa norte do Mar Mediterrâneo. Junto com Melilla,
situada cerca de 400 quilômetros a leste, forma as únicas fronteiras terrestres
entre a União Europeia e a África.
Marrocos não reconhece oficialmente Ceuta e Melilla como
territórios espanhóis e frequentemente se refere às duas cidades como áreas
ocupadas.
Devido à sua posição geográfica, Ceuta tornou-se uma das
principais portas de entrada para os migrantes que procuram chegar à Europa. O
território é fortemente protegido por vedações, sistemas de vigilância e um
reforçado dispositivo policial.
Muitos dos migrantes que conseguem chegar a Ceuta ou Melilha
são imediatamente devolvidos a Marrocos. Outros são encaminhados para centros
de acolhimento, onde podem iniciar o processo de pedido de asilo em Espanha.
A rota mais utilizada parte da cidade marroquina de Fnideq.
Muitos migrantes percorrem cerca de cinco quilómetros a nado até alcançarem
território espanhol. Outros tentam a travessia a partir de Belyounech, onde a
distância é menor.
Apesar da atenção mediática que Ceuta e Melilha costumam
suscitar, a maior parte da imigração irregular para Espanha continua a ocorrer
por via marítima, com destino às Ilhas Canárias e, em menor escala, às Ilhas
Baleares.
Desinformação invade as redes sociais durante a crise
migratória em Ceuta
As cenas de caos em Ceuta desencadearam uma vaga de
desinformação nas redes sociais, com várias contas a reutilizarem vídeos
antigos ou imagens de outros países e de contextos distintos.
Uma das principais narrativas difundidas desde as primeiras
horas sustentava que Espanha estaria a ser «invadida por homens em idade
militar». A mensagem foi reproduzida por diversas contas espanholas e
estrangeiras, entre as quais a de Santiago Abascal, líder do partido espanhol
de extrema-direita Vox.
Contudo, imagens e reportagens mostram que mulheres e
famílias inteiras, algumas acompanhadas por bebés e crianças, também
atravessaram a fronteira.
Outras informações falsas divulgadas nas redes sociais
alegavam que os migrantes teriam apedrejado viaturas da polícia espanhola em
Ceuta e Melilha. O partido alemão de extrema-direita Alternativa para a
Alemanha (AfD) publicou um vídeo que alegadamente provaria essa versão, mas as
imagens mostram, na realidade, agressões contra forças de segurança marroquinas
em território de Marrocos.
«A Alemanha tem de se preparar desde já: proteger as fronteiras e aplicar rigorosamente a recusa de entrada!», escreveu a AfD ao partilhar o vídeo que, segundo o partido, mostraria uma «guerra nas ruas» travada por migrantes contra a polícia espanhola.
Fonte: Redação DW, 31 de julho de 2026



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