Salários acima de 3000 euros batem recorde e país nunca teve tantos políticos, chefes e gestores de topo
Montenegro
diz que número de pessoas que ganha 3000 euros ou mais duplicou desde que é
primeiro-ministro. Salário médio líquido de políticos e gestores disparou mais
de 17%, e é o que mais sobe
O número de pessoas que ganha 3000 euros líquidos ou mais
por mês (portanto, já descontando IRS e descontos para a Segurança Social)
atingiu um máximo de sempre no segundo trimestre deste ano, contando agora com 125 mil pessoas nesse patamar remuneratório, grupo que praticamente duplicou de
tamanho nos últimos dois anos. No escalão dos 2500 a 3000 euros líquidos
aconteceu algo semelhante, contabilizando-se aqui 125 mil empregados, também.
Um dos fatores deste forte impulso, celebrado pelo
primeiro-ministro na recente Festa do Pontal, estará ligado ao comportamento
muito expansivo do emprego nas profissões mais bem pagas em Portugal: segundo o
Instituto Nacional de Estatística (INE), nunca o país teve tantos políticos,
decisores e gestores de topo (privado e setor público) como agora.
A tendência não é recente, mas o INE mostra que, em média, este grupo dos
"representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, dirigentes,
diretores e gestores executivos" aumentou para 327 mil profissionais no
primeiro semestre. A respetiva remuneração média líquida é de 2236 euros e
registou uma subida homóloga de 17%.
De acordo com cálculos do DN, a maioria destes
profissionais, quase 60%, tem um vínculo de subordinação a uma empresa ou
organização, ou seja, 187 mil são trabalhadores por conta de outrem e também
têm vindo a aumentar em número (são quase 190 mil atualmente). Os trabalhadores
por conta própria idem, sendo hoje perto de 140 mil pessoas. Vários economistas
explicam que o aumento de negócios mais pequenos ligados ao imobiliário, ao
turismo, às finanças pessoais e às consultoras em alta tecnologia tem contribuído
para sustentar este emprego em alta. E, ato contínuo, os níveis salariais, como
é natural.
Este grupo mais abonado dos
políticos e chefes conta com quase 330 mil pessoas, ainda que represente cerca
de 6% do emprego total por conta de outrem, tem vindo, portanto, a
engrossar, o que levou o primeiro-ministro a celebrar o feito na Festa do PSD
no Pontal, Algarve, puxando dos galões nas suas políticas, que aponta como
fatores decisivos para criar empregos melhores e mais bem pagos, sem esquecer
as descidas do IRS (que fazem aumentar o salário líquido).
A fórmula de Montenegro
Recorde-se que, na noite de 15 de agosto, em Quarteira, o
primeiro-ministro, Luís Montenegro, proferiu um longo discurso e, a dada
altura, atirou: o número de pessoas que ganham "acima de 3000 euros
líquidos duplicou nos últimos dois anos". "Muitos dirão: são salários
muito altos, são só para alguns, mas, neste momento, são 125 mil pessoas"
nessa situação de topo, acenou o chefe do governo.
E "quantos mais forem, mais cá em baixo deixam de ter
salários mais baixos".
Para explicar melhor a sua fórmula de salários maiores, o
líder do PSD recordou que "estamos a descer
os impostos sobre os rendimentos do trabalho e também sobre os rendimentos das
empresas", "estamos a subir o salário médio também", como
"estamos a subir o salário mínimo [que hoje é de 920 euros brutos mensais]".
E rematou, dizendo que "não nos devemos envergonhar de
alguns dos nossos quadros nas empresas poderem ter salários mais altos, porque
esse deve ser o objetivo de todos, qualquer que seja o grau de qualificação
académica, desde que sejam bons profissionais, desde que produzam, que sejam
responsáveis por um bom desempenho".
A referência de Montenegro aos 125 mil mais abonados no
retrato mais completo que existe do mercado de trabalho (do INE) causou alguma
estranheza entre economistas e alguns comentadores, sobretudo os menos
alinhados com os partidos que suportam o governo (PSD e CDS), porque os 125 mil
de que falou representam apenas 2,7%; 250 mil se adicionarmos o tal escalão dos
que auferem entre 2500 e 3000 euros líquidos mensais.
Mas, de facto, olhando para as profissões que mais estarão a
contribuir para esse aumento em valor, percebe-se que há uma forte dinâmica e
concentração nos empregos de chefia e/ou ligados a profissões com qualificações
elevadas. Mais: os respetivos salários médios líquidos destes dois grupos
profissionais também estão em forte expansão.
No total da economia, o salário líquido subiu 14% em termos
homólogos, para 1348 euros no segundo trimestre.
Foi amplamente impulsionado por uma das maiores subidas de que há registo no INE ao nível do ordenado médio líquido do grupo "representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, dirigentes, diretores e gestores executivos".
Neste caso, a remuneração subiu para o maior valor de sempre
(2236 euros líquidos por mês), sendo a mais elevada nos dez grandes grupos
profissionais apresentados pelo INE. Como referido, o salário em causa aumentou
mais de 17%, sendo também esta a maior subida entre todas as profissões em
análise.
Outro grupo que ajudou a encorpar o universo dos que ganham
3000 euros mensais terá sido o segundo mais bem pago do país, o dos "especialistas das atividades intelectuais e
científicas".
Aqui, o salário médio líquido já vai em 1823 euros mensais,
num grupo que conta com mais de 1,3 milhões de pessoas (mais de 24% do emprego
total), tendo subido mais de 13% também no segundo trimestre, em termos
homólogos.
Segundo o INE, neste grupo estão "profissionais de
saúde", "professores", "especialistas em finanças,
contabilidade, organização administrativa, relações públicas e
comerciais", "especialistas em tecnologias de informação e
comunicação (TIC)" e em "assuntos jurídicos", entre outros.
Mais emprego na área da saúde, de pessoas mais velhas e
mais qualificado ajuda
O setor da saúde paga bem, os trabalhadores mais velhos
costumam ganhar mais do que os mais jovens, os mais qualificados também logram
remunerações maiores, o mesmo acontecendo nos vínculos contratuais sem termo em
detrimento dos mais precários e temporários.
Vanda Duarte, economista do Banco BPI, analisou as
Estatísticas do Emprego do INE (segundo trimestre) no início deste mês,
mostrando que boa parte das dimensões anteriormente referidas também está a
avançar bastante bem em termos de emprego, podendo assim dar uma explicação
complementar ao reforço dos salários em Portugal.
"Dois sectores explicam mais de metade do crescimento
homólogo do emprego: Atividades de saúde humana & apoio social (+43 200
indivíduos; 29% do aumento do emprego) e Construção (+42 800, o que explica
cerca de 28% da criação homóloga de emprego). Em sentido negativo, destaca-se a
queda no Comércio (-20 400)", explicou a economista.
Outro fator que pode ajudar a puxar os salários para cima é
que "mais de metade do aumento do emprego é explicado pelos indivíduos com
mais de 55 anos". "Apesar de a criação de emprego ter sido
praticamente transversal a todos os grupos etários, com exceção para o grupo
etário dos mais jovens (dos 16 aos 24 anos, onde o emprego registou uma queda
em termos homólogos, de -7900 pessoas), o especial destaque vai para o grupo
dos indivíduos com mais de 55 anos (que explicam cerca de 58% da criação
homóloga de emprego no segundo trimestre)", refere a nota do departamento
de estudos do Banco BPI.
"Ao mesmo tempo, mantém-se o aumento do emprego com
maiores qualificações (nível secundário e superior) em detrimento da queda do
emprego com qualificações básicas" e "mantém-se também a dinâmica
observada nos trimestres anteriores, com o crescimento do emprego a tempo
completo (e queda ligeira do trabalho a tempo parcial) e a concentração em
contratos sem termo e uma redução de tipologias de contratos de trabalho mais
precários".
Fonte: Dinheiro Vivo, 19 de agosto de 2026

Comentários
Enviar um comentário