Se não era do Hamas, passou a ser
Israel passou grande parte da sua história a discutir
consigo próprio. A pergunta agora é mais difícil: conseguirá deixar de viver em
estado de emergência sem deixar de ser Israel? Em diferentes momentos, essa
discussão assumiu formas distintas: guerra ou diplomacia, colonatos ou
retirada, soberania ou ocupação, medo ou contenção. Por baixo de todas essas
disputas havia, porém, uma questão mais profunda. Poderá um Estado moldado por
uma longa experiência de insegurança encontrar uma forma diferente de viver sem
perder aquilo que mantém unido?
Desde 7 de outubro de 2023, essa pergunta tornou-se
impossível de adiar. A vulnerabilidade israelita foi exposta da forma mais devastadora da sua
história recente e o sistema político entrou num estado de emergência
permanente. A guerra passou a dominar o debate público, a segurança a
justificar quase tudo e o futuro a ser tratado como uma ameaça que convém não
imaginar demasiado depressa. E, no entanto, ainda existe uma saída. É estreita,
incerta e politicamente desconfortável, mas existe.
David Ben-Gurion viu Gaza primeiro como uma fronteira e depois
como um problema. Nos anos 1950 chegou a considerar a anexação da Faixa
enquanto facilitava a saída de refugiados. Durante a campanha do Sinai, em
1956, voltou a admitir a possibilidade de uma administração israelita sobre
Gaza. Um ano depois, perante a pressão internacional, Israel retirou-se.
O Estado de Ben-Gurion não era pacifista ou humanista. Muito
menos ingénuo. Era, contudo, suficientemente pragmático para reconhecer que o
poder também tem limites. A tradição Trabalhista aprendeu a viver com essa contradição. Não
prometia inocência nem paz. Procurava, quando possível, trocar controlo por
margem de manobra.
A direita revisionista partia de uma premissa diferente. Para Zeev
Jabotinsky, os árabes não aceitariam voluntariamente a soberania judaica. O
sionismo teria, por isso, de construir uma “muralha de ferro” suficientemente
forte para tornar inevitável a aceitação da realidade. Menachem Begin
transformou essa ideia numa linguagem política. O Likud não queria apenas
defender o Estado. Queria também redefinir o espaço que esse Estado considerava
seu.
O plano de autonomia para Gaza e a Cisjordânia mantinha nas
mãos de Israel os assuntos decisivos de segurança e ordem pública. A autonomia
palestiniana seria, assim, administrativa antes de ser soberana. A diferença
entre Trabalhistas e Likud começava a desenhar-se menos na pergunta sobre se
Gaza devia ser controlada do que na quantidade de espaço que os palestinianos
poderiam ocupar dentro desse controlo. Depois de 1967, a esquerda israelita
passou a olhar para os territórios como uma possível moeda de troca.
O processo de Oslo, associado à liderança de Yitzhak Rabin,
levou essa lógica mais longe. Gaza tornou-se o laboratório de uma ideia: talvez
fosse possível transferir responsabilidades e criar, pouco a pouco, as
condições para um acordo duradouro. Mas Israel conservou as alavancas decisivas
da força, das fronteiras e da circulação, enquanto a expansão dos colonatos
prosseguia. O paradoxo estava à vista. A
esquerda procurava administrar o conflito enquanto procurava uma saída. A
direita administrava-o sem grande necessidade de uma saída. Uma via
comprava tempo. A outra transformava o tempo em realidade.
O desligamento de Gaza, em 2005, tornou essa diferença ainda
mais difícil de perceber. Ariel Sharon, um dos grandes arquitetos do movimento
dos colonatos, retirou os colonos israelitas da Faixa. Para muitos, pareceu uma
rutura com o maximalismo territorial da direita. Era também outra coisa. Israel retirava os seus civis, mas mantinha um controlo
decisivo sobre o espaço aéreo, as fronteiras e a circulação.
Gaza deixava de ser uma presença israelita direta para se
tornar uma espécie de enclave. Menos soldados a proteger colonos, menos
responsabilidade direta e mais distância. A segurança podia ser procurada sem
uma solução política. Consolidou-se assim um consenso segundo o qual Gaza não seria partilhada nem resolvida, mas apenas
contida. Durante anos, pareceu funcionar. A própria política de
Netanyahu em relação ao Hamas, que procurou manter a divisão palestiniana como
forma de conter o conflito, fazia parte dessa lógica. Até deixar de funcionar.
A barbárie do dia 7 de outubro destruiu a ilusão de que uma
ameaça pode ser administrada indefinidamente sem ser politicamente enfrentada.
A resposta, desproporcional e indiscriminada, devastou Gaza a uma escala que
não pode ser descrita como consequência inevitável da guerra. Há responsabilidades
políticas e jurídicas que terão de ser apuradas. E há uma pergunta que nenhum
Estado pode evitar indefinidamente. Que tipo de
país se torna aquele que, em nome da própria sobrevivência, aceita a destruição
de uma sociedade inteira como preço da sua segurança? A questão já ultrapassa Benjamin Netanyahu. Diz
respeito ao próprio modelo de país que emergiu de décadas de guerra, ocupação,
separação e medo.
A resposta de Netanyahu tem sido reforçar a fórmula
conhecida. Israel é mais forte do que nunca, os inimigos devem ser destruídos e
as zonas de segurança podem substituir qualquer horizonte político – na Síria,
no Líbano ou na Palestina. É uma mensagem que encontra terreno fértil numa
sociedade traumatizada. Diz aos israelitas que o perigo é permanente, que a
dureza é prudência e que, enquanto houver ameaça, haverá necessidade de quem
saiba responder-lhe. O problema é que esta visão começa a falhar nos próprios
termos em que se apresenta.
Israel continua a possuir uma força militar extraordinária,
mas o Hamas não desapareceu. O Hezbollah não foi neutralizado. O Irão continua
a ser um adversário temível. A segurança israelita não parece mais previsível e
a posição diplomática do país deteriorou-se profundamente.
A guerra começou também a expor fraturas internas que a
emergência permanente ajudava a esconder. O serviço militar, as isenções dos
Haredi, a educação, os tribunais, o papel do Estado e a violência na
Cisjordânia são hoje temas de uma disputa que atravessa a sociedade israelita.
Uma parte da oposição começou a perceber que a questão ultrapassa Netanyahu. O
problema é saber se Israel ainda consegue funcionar como um Estado ou se está a
transformar-se numa federação informal de comunidades que já não partilham a
mesma ideia de país.
Por isso, algumas das vozes mais sérias da oposição falam
cada vez menos de redenção e mais de reparação. Recuperar instituições,
investigar o 7 de outubro, repor mecanismos de controlo e reconstruir uma
linguagem cívica comum pode parecer pouco depois de anos de rutura. Mas talvez
seja precisamente aí que esteja a mudança mais profunda. Quando uma sociedade
passa tanto tempo em estado de emergência, recuperar a normalidade
institucional deixa de ser uma tarefa administrativa e passa a ser uma
transformação política.
É neste contexto que Gadi
Eisenkot ganha importância. Não
como messias político, nem como representante de um liberalismo que nunca
reivindicou, mas por uma qualidade mais rara na política israelita
contemporânea: a sobriedade. Antigo chefe do Estado-Maior, Eisenkot conhece a
guerra por dentro e sabe que a força tem limites. O seu filho morreu em Gaza.
Outros familiares morreram em combate. Essa experiência confere ao seu discurso
um peso que não precisa de ser teatralizado. A
sua ascensão nas sondagens sugere que uma parte da sociedade israelita começou
a cansar-se da política da catástrofe. Há pessoas que continuam a
querer segurança, mas já não confundem segurança com demonstrações permanentes
de força. Procuram alguém que não transforme o pânico numa forma de liderança.
Mas Eisenkot também carrega as limitações da oposição. Ainda
não apresentou uma resposta completa para a questão palestiniana. Como muitos
dos adversários de Netanyahu, evita dizer em voz alta aquilo que uma parte
importante do eleitorado não quer ouvir. A prudência é compreensível e,
politicamente, talvez inevitável. Mas deixa uma pergunta sem resposta: o que
acontece depois de Netanyahu? Haverá retirada das IDF com o desarmamento do
Hamas?
Os problemas que Israel terá de enfrentar não cabem na
figura de um primeiro-ministro. Estão na Cisjordânia, onde a violência dos
colonos se intensificou. Estão na relação entre os cidadãos árabes e o Estado.
Estão na questão dos ultraortodoxos, na sua relação com o exército, o mercado
de trabalho e a escola. Estão na saída de jovens e profissionais qualificados.
Estão, sobretudo, no enfraquecimento de uma linguagem cívica partilhada.
A crise israelita deixou há muito de ser apenas militar. Um
país pode suportar uma guerra durante muito tempo e pode suportar divisões
internas durante muito tempo. O que se torna mais difícil é viver
indefinidamente com a convicção de que todos os problemas podem ser adiados até
à próxima “emergência”.
Israel ainda possui um sistema judicial, embora enfraquecido
pelas reformas promovidas pelo próprio primeiro-ministro, uma administração
pública, embora desgastada, e jornalistas, juízes, académicos, militares,
reservistas e ativistas que resistem à transformação da emergência em
normalidade. Ainda existe uma oposição capaz de
disputar eleições e cidadãos que percebem que, se nada mudar, o país
ficará ainda mais isolado internacionalmente.
Há também uma verdade simples que nenhuma política de
segurança consegue eliminar. Nenhum Estado
consegue manter indefinidamente uma sociedade em mobilização permanente.
A certa altura, o medo torna-se rotina e a rotina começa a produzir cansaço.
Isso não significa que o medo desapareça. Significa apenas que deixa de ser
suficiente para justificar tudo.
O futuro não será provavelmente uma rutura limpa. Poderá
haver uma mudança parcial de governo, uma longa disputa sobre as instituições,
novos confrontos em torno do serviço militar e do orçamento, uma contestação
crescente sobre os crimes contra a humanidade em Gaza e a violência persistente
na Cisjordânia. A saída de Netanyahu não seria uma ressurreição de Israel.
Seria apenas a abertura de uma porta que permaneceu fechada demasiado tempo.
O que viesse depois dependeria de uma coragem que ainda não
se tornou maioria. A coragem de admitir que a superioridade militar não
resolve, por si só, a questão política, que uma zona de segurança não substitui
uma solução e que a guerra, por mais longa que seja, não pode ocupar
indefinidamente o lugar da política.
Esta talvez seja a verdade mais difícil de aceitar e, ao
mesmo tempo, a única que ainda permite alguma esperança. O futuro de Israel não
está condenado a repetir os seus piores instintos. Continua a ser disputado por
pessoas que recusam a ideia de que a força pode substituir indefinidamente a
política. Não são sempre suficientemente corajosas, e estão muitas vezes
divididas e receosas do preço eleitoral das suas próprias palavras. Mas
existem. E talvez seja essa a diferença entre um país em crise e um país que
perdeu a capacidade de se reconstruir.
Israel passou grande parte da sua história a discutir
consigo próprio. Talvez tenha chegado o momento de perceber que a
sobrevivência, por si só, já não chega. Um Estado pode passar décadas a
construir muralhas contra o mundo ou pagar a influencers e agências para tentar
convencer o mundo que todos os que condenam Netanyahu são do Hamas.
Mais cedo ou mais tarde, terá de decidir o que quer fazer com o espaço que
existe do outro lado. A verdadeira questão não é se Israel conseguirá deixar de
ter medo. É se conseguirá, finalmente, deixar de confundir o medo com o
destino.
Fonte: CNN Portugal, 10 de agosto de 2026

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