Universidade do Minnesota paga 250 mil dólares a académico após revogar convite para dirigir centro de estudos devido a críticas a Israel
Em
2024, Raz Segal foi convidado pela Universidade do Minnesota para dirigir
centro do Holocausto e do Genocídio. Cinco dias depois, instituição recuou.
Académico acredita ser "tipo errado de judeu"
“Judeu, com dupla nacionalidade israelita e norte-americana,
neto de sobreviventes do Holocausto e especialista em estudos judaicos”, Raz
Segal foi convidado, em 2024, para dirigir o Centro de Estudos do Holocausto e
do Genocídio da Universidade do Minnesota. No entanto, apenas cinco dias após
ter recebido a proposta, a instituição retirou o convite, alegando preocupações
manifestadas por “membros da comunidade académica” relativamente
às críticas de Segal às ações de Israel em Gaza, que o académico
classificou como “um caso clássico de genocídio”. Mais de dois anos após a
revogação da oferta, o professor chegou a um acordo com a universidade no valor
de 250 mil dólares (cerca de 217 mil euros).
Em declarações ao The Guardian, Segal afirmou que
nasceu e cresceu em Israel, país pelo qual sente “um carinho enorme”, uma vez
que os seus pais, a irmã, bem como amigos e colegas, continuam a viver lá. O
académico considera que a liderança da instituição concluiu que era, afinal, “o
tipo errado de israelita e o tipo errado de judeu”, devido às suas posições
críticas em relação aos “crimes de guerra” que acredita terem sido cometidos
por Israel.
Apesar de ser atualmente professor catedrático na
Universidade de Stockton, em Nova Jérsia, onde dirige um programa de mestrado
em estudos do Holocausto e do genocídio, Segal afirmou que, após a retirada da
oferta da Universidade do Minnesota em 2024, passou mais de um ano sem que
surgisse qualquer oportunidade semelhante.
O académico receava que a decisão da instituição
comprometesse as suas perspetivas de prosseguir uma carreira académica
semelhante, pelo menos nos Estados Unidos. Ainda assim, continuou a escrever e
a pronunciar-se sobre as ações de Israel em Gaza numa perspetiva académica,
sustentando que o genocídio em Gaza está “longe de terminar”.
“Eu realmente gostaria de estar errado”, disse Raz Segal,
citado pelo jornal britânico. “Mas infelizmente não estava”.
Depois de ter chegado a um acordo com a instituição na
semana passada — que estipula que o pagamento não constitui uma admissão de
culpa por parte da Universidade do Minnesota —, Segal afirmou que esperava que
a universidade restabelecesse a oferta de emprego original, em vez de optar por
uma compensação financeira. No entanto, disse ter-lhe sido transmitido, de
forma clara, que essa hipótese estava “fora de questão”.
O académico considerou ainda que o valor significativo do
acordo poderá encorajar os muitos académicos que, segundo diz, foram alvo de
despedimentos, suspensões ou investigações por criticarem Israel a “reagirem”,
relatou o The Guardian.
“Não podemos permitir que alguém como Raz Segal, um
antissionista assumido, chefie o departamento de estudos do Holocausto”
No artigo de opinião publicado poucos dias após os ataques
de 7 de outubro de 2023 na revista Jewish Currents, Raz Segal escreveu
que a atuação de Israel em Gaza constituía “um caso clássico de genocídio”.
Para sustentar essa posição, citou declarações de responsáveis israelitas, o
cerco total imposto ao território e a campanha aérea que, até 13 de outubro do
mesmo ano, já tinha lançado cerca de 6 mil bombas sobre o enclave.
Apesar de, no mesmo texto, o académico classificar os
ataques do Hamas como “assassinato em massa” e “crimes de guerra segundo o
direito internacional”, os dirigentes da Universidade do Minnesota receberam
centenas de e-mails a expressar “preocupação” com a nomeação de Segal para o
cargo, classificando o seu artigo de opinião como “particularmente problemático
para aqueles que apoiam o direito de Israel de se defender”.
“Não podemos permitir que alguém como Raz Segal, um
antissionista assumido, chefie o Departamento de Estudos do Holocausto”,
escreveu um dos financiadores da instituição ao presidente do conselho, citado
pelo The Guardian. “Muitos retirarão os seus compromissos com a
universidade se isto não for resolvido”.
Dois dias depois de a Universidade do Minnesota ter
oferecido o cargo a Segal, dois membros do conselho do centro que este deveria
liderar demitiram-se em protesto. Ambos acusaram o professor de “justificar as
atrocidades do Hamas” e de “culpar Israel” pelos ataques de 7 de outubro,
aumentando a pressão sobre a universidade para que recuasse na decisão de o
contratar.
Segal foi representado pelo Centro para os Direitos
Constitucionais, que argumentou que as ações da universidade pública eram
inconstitucionais, por constituírem uma retaliação contra o académico pelo
exercício do seu direito à liberdade de expressão. “O dr. Segal teve a coragem
de dar o alarme na tentativa de travar o genocídio dos palestinianos por parte
de Israel”, afirmou Maria LaHood, diretora jurídica adjunta da organização.
Também dezenas de professores judeus e outros membros da
comunidade académica, incluindo estudantes, saíram em defesa de Raz Segal,
segundo o The Guardian. Cerca de 40 especialistas em Holocausto e
estudos sobre genocídio assinaram uma carta na qual afirmavam que a atuação da
universidade criava um “precedente perigoso” para a liberdade académica e de
expressão.
Fonte: Observador, 6 de agosto de 2026

Comentários
Enviar um comentário