5 declarações de Netanyahu na ONU que contradizem dados documentados
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, tem usado
repetidamente a tribuna da Assembleia Geral da ONU para defender as ações de
Israel em Gaza e na Cisjordânia ocupada, fazendo declarações que foram
contestadas por organizações internacionais, agências humanitárias e, em alguns
casos, por dados das próprias forças armadas israelitas, segundo a agência Anadolu.
Em discursos entre 2024 e 2026, Netanyahu rejeitou as
alegações de genocídio, descreveu as baixas civis como excecionalmente baixas,
culpou o Hamas pela crise de ajuda humanitária em Gaza e desvalorizou a
violência dos ocupantes israelitas na Cisjordânia ocupada.
Uma análise de cinco destas declarações mostra discrepâncias
substanciais entre a versão de Netanyahu e os dados documentados.
– Alegação de genocídio é “a maior mentira do século”
No seu discurso na ONU, em 2026, Netanyahu classificou as
acusações de que Israel estaria a cometer genocídio em Gaza como “a maior
mentira do século”, argumentando que os alertas a civis, as vacinações e a
distribuição de alimentos eram incompatíveis com o genocídio.
Uma Comissão Internacional Independente de Inquérito,
mandatada pela ONU, chegou à conclusão oposta em setembro de 2025. Após
examinar depoimentos de testemunhas, imagens de satélite, declarações oficiais
e outras provas, a comissão encontrou fundamentos razoáveis para afirmar que
as autoridades e forças israelitas cometeram quatro dos cinco atos definidos
como genocídio pela Convenção sobre o Genocídio.
A comissão concluiu ainda que as declarações de Netanyahu e
de outros altos funcionários eram provas de intenção genocida. Israel rejeitou
as conclusões.
O Tribunal Internacional de Justiça ainda não proferiu uma
decisão definitiva no processo de genocídio movido pela África do Sul, mas
ordenou a Israel que impeça os atos abrangidos pela convenção e permita a
prestação da ajuda humanitária urgentemente necessária.
– A proporção de baixas civis é excecionalmente baixa
Netanyahu disse à Assembleia Geral em 2025 que a proporção
de baixas civis para combatentes em Gaza era inferior a dois para um,
classificando-a como excecionalmente baixa.
Afirmou ainda no seu discurso na ONU, a 27 de setembro de
2024: “E nenhum exército fez o que Israel está a fazer para minimizar as baixas
civis”.
Uma investigação conjunta do The Guardian, da revista
+972 e do Local Call, baseada numa base de dados confidencial dos
serviços de informação militares israelitas, constatou que, em maio de 2025,
cerca de 8900 combatentes do Hamas e da Jihad Islâmica Palestiniana constavam
como mortos ou provavelmente mortos, em comparação com um número total de
mortos de cerca de 53 000.
Os números sugerem que aproximadamente 83% dos mortos eram
civis.
Desde o início da guerra genocida de Israel contra Gaza, em outubro
de 2023, mais de 73 mil palestinianos foram mortos e cerca de 175 mil ficaram
feridos, segundo o ministério da Saúde de Gaza.
– O Hamas roubou grande parte da ajuda humanitária destinada
a Gaza
Netanyahu acusou repetidamente o Hamas de roubar grandes
quantidades de ajuda que entrava em Gaza.
No seu discurso na ONU, em 2026, afirmou que o Hamas “roubou
grande parte dos alimentos que permitimos entrar em Gaza”, argumentando que o
grupo mantinha civis palestinianos em perigo.
Uma revisão interna da Agência dos Estados Unidos para o
Desenvolvimento Internacional (USAID) não encontrou provas de desvio
sistemático de ajuda financiada pelos EUA pelo Hamas. A revisão examinou 156
casos de roubo ou perda entre outubro de 2023 e maio de 2025 e não encontrou
indícios de que o Hamas tenha beneficiado.
Altos responsáveis militares israelitas terão também
afirmado não ter encontrado provas de que o Hamas tenha roubado
sistematicamente a ajuda da ONU, descrevendo o sistema de distribuição da ONU
como amplamente eficaz.
– Dois milhões de toneladas de alimentos refutam alegações
de fome
Netanyahu disse à ONU que Israel possibilitou a distribuição
de 2 milhões de toneladas de alimentos em Gaza, ou cerca de uma tonelada por
habitante, apresentando o número como prova contra as alegações de fome e
genocídio. “Que regime genocida permite a distribuição de 2 milhões de
toneladas de alimentos em Gaza? Isto é uma tonelada para cada pessoa.”
Mas a ajuda humanitária que entra em Gaza não é a mesma
coisa que alimentos que chegam aos civis. As agências da ONU documentaram
restrições, insegurança, estradas danificadas e operações militares que
dificultaram a recolha e a distribuição.
Israel interrompeu completamente a entrada de bens e
mantimentos humanitários de 2 de março a 18 de maio de 2025 e bloqueou,
restringiu e suspendeu repetidamente a entrada de mantimentos humanitários
durante longos períodos ao longo do conflito.
Em agosto de 2025, a Classificação Integrada das Fases de
Segurança Alimentar, apoiada pela ONU, confirmou a fome na província de Gaza,
afirmando que mais de meio milhão de pessoas em Gaza enfrentavam condições
catastróficas marcadas pela fome, miséria e morte.
A mais recente avaliação do IPC indica que 1,4 milhões de
pessoas deverão ainda enfrentar níveis elevados de insegurança alimentar aguda
até dezembro de 2026.
– A violência dos ocupantes é obra de uma pequena minoria
No seu discurso de 2026, Netanyahu descreveu a violência
perpetrada por israelitas na Cisjordânia ocupada como obra de cerca de 150
“delinquentes juvenis” e sugeriu que apenas “dois ou três” palestinianos tinham
sido mortos.
A monitorização da ONU mostra um padrão muito mais amplo.
Até 20 de julho de 2026, o Gabinete das Nações Unidas para a
Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) tinha registado mais de 1330
ataques dos ocupantes que resultaram em vítimas ou danos materiais desde o
início do ano — mais de seis por dia.
O OCHA registou ainda 18 mortes de palestinianos ligadas a
ataques dos ocupantes até essa data: 12 mortos pelos ocupantes, três pelas
forças israelitas e três em casos em que a responsabilidade foi contestada.
Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, o OCHA afirmou que os
ataques dos ocupantes e as consequentes restrições de acesso provocaram a
deslocação total ou parcial de 121 comunidades palestinianas.
Os números contrastam com a visão de Netanyahu de que a
violência dos ocupantes é um fenómeno marginal.
Fonte: Middle East Monitor, 25 de setembro de 2026

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