Assim cantou no início, quando Jorge ainda não era "o Palma": entre o namoro com o inglês e a procura de uma identidade artística
Da
jukebox que o desviou do piano clássico ao asilo político na Dinamarca: os anos
de formação que moldaram um dos maiores cantautores portugueses
Na sua toada entre a folk e o prog, não é possível uma canção soar mais setentista: os arranjos de cordas melancólicos, a guitarra delicadamente titubeante, as teclas de elegância clássica, os coros fantasmagóricos. Em The Nine Billion Names Of God, julgamo-nos perante um qualquer single saído da pródiga safra do rock progressivo que ecoava a partir do Reino Unido nesta altura. Mas depois ouvimos a voz e dá-se um caso agudo de dissonância cognitiva: “não pode ser, mas isto é o Jorge Palma… a cantar em inglês?!”
Morreu a 21 de setembro, aos 76 anos, um dos maiores titãs da música portuguesa, responsável por ajudar a balizar o que significa ser um cantautor nesta língua. Mas antes de Só, de Frágil, de Bairro do Amor ou de Dá-me Lume, Jorge Palma teve de começar por algum lado. Desde que se sentou pela primeira vez à frente de um piano até lançar o disco de estreia, Com Uma Viagem na Palma da Mão, em 1975, o músico passou por várias aprendizagens que moldaram o artista que viria a eternizar-se nas suas canções.
Como revelou numa entrevista a Ana Sousa Dias em 2005, das
primeiras vezes que começou a tocar piano, Jorge Palma nem sequer conseguia
chegar com os pés ao chão, tendo fotografias para prová-lo. Tinha seis anos e
estava a aprender sob a tutoria de Maria Fernanda Chichorro. Dois anos depois,
ingressava como aluno externo no Conservatório Nacional de Lisboa, e outros
cinco mais tarde, já na entrada da adolescência, conquistou um segundo lugar
ex-aequo no Concurso Internacional de Piano em Palma de Maiorca, como recorda o
investigador musical João Carlos Callixto.
A habilidade precoce, aliada ao treino clássico, podia ter
resultado numa carreira entre pautas e batutas, mas Jorge Palma foi antes
“desviado pelo rock para a gandulagem”, como admitiria na sua biografia
oficial, Na Palma da Mão, escrita por Pedro Teixeira. O som dos Beatles,
dos Rolling Stones e dos The Who que emanava de uma jukebox numa taberna junto
ao Liceu Camões seduziu-o e fê-lo mandar “o piano e a música clássica às
urtigas”, revelou no âmbito do documentário Vejam Bem, da RTP.
Essa rebeldia, no entanto, não se ficou por trocar Beethoven
por Bob Dylan, já que essa “necessidade de transgressão foi-se manifestando, na
procura pelos mais velhos e os mais malandros”. Acabou expulso do Camões quando
foi apanhado a “fugir pelos telhados” quando havia furo entre aulas, com a mãe
a colocá-lo no colégio interno Infante de Sagres, em Mouriscas, perto de
Abrantes. Foi nas tabernas desta localidade do Ribatejo onde descobriu o que
era beber e fumar — a única coisa que era proibida aos alunos era “conversar
com as meninas” —, mas a experiência também fê-lo descobrir o que era fazer
parte de uma banda, os The Dandy, onde assumiu a guitarra ritmo.
Regressado a Lisboa, entre a finalização do ensino liceal no
Colégio Académico e o início de um curso de Engenharia na Faculdade de Ciências
da Universidade de Lisboa, Jorge Palma integrou várias bandas: os Black Boys —
que conheceu quando foi para o Algarve no verão de 1967 —, os Jets — uma das
primeiras bandas de rock psicadélico do país — os Extravaganza e os Beatniks.
Apesar de importantes para o seu desenvolvimento artístico, nenhuma destas
passagens logrou resultados duradouros. Tal só aconteceria ao entrar nos
Sindicato, em 1971, projeto onde experimentou a liberdade do jazz a meias com a
energia do rock.
Banda onde podia contar com a familiaridade de já ter tocado com dois dos seus membros, Ricardo Levy e Júlio Gomes, nos Jets, Jorge Palma teve ainda a hipótese de ombrear com destacadas figuras em início de carreira, como Rão Kyao e Vítor Mamede, e outras já com traquejo na cena nacional, como Edmundo Falé. Mais importante ainda, foi com os Sindicato que pisou o palco da lendária edição inaugural do Festival Vilar de Mouros, em 1971,
e gravou a sua primeira canção a merecer edição discográfica, Smile, lançada num single do mesmo nome e produzida por Luís Villas-Boas.
“Esse trabalho com a banda, além do gozo, deu-me também mais
pedalada e visibilidade. Não estou a falar do público, mas entre os meus pares,
entre os músicos”, contou à Antena 1 numa série de entrevistas
retrospetivas de carreira em 2022. Foi assim que toda a gente que importava no
mundo da música em Portugal ficou a par do “puto que tinha jeito para isto,
para tocar nas teclas do piano e sintetizadores”, completou.
Essa foi, oficialmente, a primeira de muitas canções que
viria a escrever, sozinho ou em colaboração, ao longo da carreira. O arranque
da carreira a solo, no entanto, chegaria um ano depois, quando os Sindicato
acabaram e desistiu do curso.
Entre os ensinamentos de Arthur C. Clarke e Ary dos Santos,
nasce um artista
Em 1972, Jorge Palma iniciou oficialmente a sua carreira a
solo, ainda que com um lançamento que pouco se assemelha ao estilo de música
que o afamou. De um lado The Nine Billion Names of God, do outro Come,
Morpheus, o seu primeiro single em nome próprio foi também a única
gravação integralmente em inglês que fez em toda a carreira. O artista — que
iniciara a sua formação literária com os poetas Beat, com as canções de Dylan,
de Paul Simon e de Crosby Stills and Nash e com os versos de Camões, Pessoa e
Herberto Helder — teria como inspiração para esta canção estreante um conto de
ficção científica de Arthur C. Clarke.
“Gostei muito desse conto, The Nine Billion Names of God,
que é um conto pequeno em que há um confronto entre a mística, o espiritualismo
dos monges tibetanos, e os computadores do mundo ocidental. E consegui, num
inglês ainda académico, fazer uma canção que não está nada mal feita. Tinha eu
nessa altura 22 anos”, afirmou ao Público em 2022. Essa reminiscência
ocorreu a propósito de Antologia, uma série de concertos que decorreram
nesse ano e em que revisitou todas as fases da sua carreira.
Para que Jorge Palma gravasse e lançasse as suas primeiras
músicas em nome próprio, foi preciso que os astros se alinhassem, e por
“astros” entendam-se várias figuras de suma importância no panorama musical à
época. Um deles foi o maestro Thilo Krasmann, que lhe cedeu o espaço e lhe
gravou a maquete apesar de o jovem músico não ter qualquer editora a apoiá-lo.
Os outros foram Arnaldo Trindade e Carlos Cruz, ambos à frente da Orfeu, que
gostaram do que Palma lhes mostrou e possibilitaram a gravação oficial. É deste
momento cimeiro que resulta uma das mais famosas histórias do artista em início
de carreira: o pagamento por The Nine Billion Names of God. “O Arnaldo
Trindade tinha negócios de eletrodomésticos. Além de direitos de autor, o que
eu recebi por esse disco foi um frigorífico e uma máquina de lavar roupa”,
contou nessa mesma entrevista à Antena 1.
O lançamento não foi um sucesso — “fizeram uma edição de 300
ou 500 discos e acho que aquilo vendeu três ou quatro, mas ofereceram-me muitos
para os amigos e a família. As coisas foram-se processando assim”, afirmou em
entrevista à Sociedade Portuguesa de Autores —, mas serviu para abrir-lhe ainda
mais portas. A partir de 1973, começa a acumular trabalhos como orquestrador,
músico de estúdio e compositor; só nesse ano participa em lançamentos de
Tonicha, Rui de Mascarenhas, Orlando Rosa-Limpo e Valério Silva. Até ao final
da década, somaria ainda importantes colaborações com Paco Bandeira, Beatriz da
Conceição, José Almada, Adelaide Ferreira e Amália Rodrigues.
Havia, no entanto, algo a incomodar Jorge Palma: a língua
portuguesa, que cultivaria como poucos nas décadas vindouras, encravava ainda
na sua garganta. Se depois do seu primeiro single se apercebeu que não fazia
sentido “continuar a cantar em inglês, até porque em Portugal muito pouca gente
entendia”, ao mesmo tempo “não conseguia escrever em português, não cabiam as
frases”, recordou à RTP. Reunido no café Vavá com o amigo Fernando
Tordo, partilha-lhe esta inquietação, pelo que este lhe sugere que vá falar com
José Carlos Ary dos Santos. “Liguei-lhe e, nesse mesmo dia, disse-me logo ‘vem
daí e traz a guitarra’. Foi o princípio de uma grande amizade e de uma grande
aprendizagem com o mestre”, lembrou à Antena 1.
Sob a asa do grande poeta, Jorge Palma não só foi
introduzido a um meio intelectual que o politizou à esquerda, como aprendeu a
melhor exprimir-se. “Ele era um génio, e eu não só alarguei as minhas
capacidades de escrever em português, como a escrever nas entrelinhas. Muita
gente aprendeu a dizer as coisas de uma forma subtil”, contou, recordando os
anos finais da censura. Esse seria um ensinamento para a vida já que essa
subtileza adquirida permitiu-lhe dizer o que queria nas suas canções sem nunca
chegar a ser panfletário ou partidário.
Foi então com Ary dos Santos que finalmente se arriscou a escrever em português, com o resultado dessa experiência plasmado em A Última Canção, de 1973. Trata-se de um EP de quatro canções gravado no histórico Estúdio Polysom e lançado pela Zip Zip. No Lado A, Arraial e 20 Anos são composições integralmente suas, e no Lado B, A Última Canção e Colheita contam com os poemas do seu tutor; recordando este lançamento, Jorge Palma descreveria os temas do Lado A como “eu a querer emular o Ary, imitar o mestre”.
Ao contrário de The Nine Billion Names of God, que
foi reeditado em 2022 e está disponível em todas as plataformas, os temas de A
Última Canção caíram praticamente no esquecimento, sendo muito difícil
encontrar registos online. Do pouco que se consegue escutar, é possível notar o
seu autor em mutação artística, pendendo ora para o “rock sinfónico”, ora para
a canção orquestral e grandiloquente da época. Este lançamento decorreu também
antes de uma profunda mudança na vida de Jorge Palma, quando trocou Lisboa por
Copenhaga.
A última tentação e o regresso a Portugal
Apostado cada vez mais em seguir a carreira musical, Jorge
Palma decide abandonar o curso de Engenharia em 1973. Esta opção, no entanto,
tem um custo: ao deixar o Ensino Superior, perde o privilégio de pedir um
adiamento para ingressar no Serviço Militar Obrigatório e, com isso, arrisca-se
a terminar a recruta e ser destacado para a Guerra Colonial. “Em 73, eu já
sabia que ia ser chamado no fim do verão. E foi o que aconteceu. Mas eu decidi
‘epá, não, dois anos no continente a levar com os sargentos e depois dois anos
no chamado ‘Ultramar’ nas colónias, com uma G3 na mão a matar pessoas e a
tentar sobreviver?’ Não me agradou nada, eu disse “não, não senhor”, recordou à
Antena 1.
No entanto, fruto da sua entrada nos meandros artísticos de
Lisboa, Jorge Palma tinha conhecido um encenador dinamarquês e a sua
companheira. “Esteve cá com a ideia de fazermos um musical que já existia, o
Godspell, com atores e cantores portugueses. Fui um dos escolhidos”, contou em
2022 quando foi instado pelo Observador a revisitar todos os seus
discos. Esse projeto não foi avante, mas ficou o contacto e uma promessa “se
decidires sair de Portugal, tens uma casa em Copenhaga”. “Meu dito, meu feito.
Fui eu e a minha namorada, com quem acabei por casar já na Dinamarca. Vendemos
de tudo: sofás, máquina de lavar, aparelhagem… fizemos um leilão entre os
amigos, fizemos algum ‘taco’, passámos por Londres e seguimos para a Dinamarca
onde acabei por meter os papéis e ter asilo político”, explica nessa mesma
conversa. À RTP, revelaria um outro detalhe curioso: a viagem teve
desconto através da Mocidade Portuguesa porque ainda tinha um cartão de aluno
da faculdade.
Na Escandinávia, diz ter sido sujeito ao choque cultural de
ver governo e oposição a discutir livremente na televisão e de encontrar uma
nação de trabalhadores-estudantes onde “ninguém ficava em casa dos pais depois
dos 17 anos”. Seguindo essa mesma ética, Jorge Palma trabalhou num hotel onde
desempenhou tarefas de manutenção e limpeza ao mesmo tempo que, em casa dos
seus anfitriões, tendo um piano de cauda à disposição, começou a escrever as
canções que deram origem ao álbum de estreia, Com Uma Viagem Na Palma Da Mão.
A mudança de geografias, todavia, trouxe de volta uma
tentação antiga. “Comecei a escrever em inglês com aquele sonho de um dia,
eventualmente, vir a ser um pop star na Dinamarca ou em Inglaterra. Rapidamente
percebi que não tinha a mínima hipótese, nem em Copenhaga nem em Londres, onde
também estive”, admitiu ao Observador. Entretanto, sabe através da BBC,
das capas de jornais e das chamadas aos amigos que está a haver uma “grande
festa” em Portugal: dá-se o 25 de Abril. Regressa ainda no verão de 1974 e, de
regresso à pátria da língua materna, abandona as ilusões de uma carreira
internacional.
“A verdade é que já tinha o disco todo feito, na cabeça e na pauta, com letras em inglês. Mas acontece o 25 de Abril, eu acabo por voltar no verão de 74 e digo: ‘porra, então vou fazer o primeiro álbum em Portugal em inglês? Quando quase ninguém fala inglês?’ É um disparate, pá’. E comecei a fazer uma retroversão para português, mas que já não tinha nada a ver com as letras do Ary porque o estilo [musical] era diferente. Comecei a escrever as letras todas em português”, recordou nessa mesma conversa. Ao regressar a Lisboa, Jorge Palma vive o período revolucionário com muitos dos seus pares, participando nas sessões de canto livre na Voz do Operário, ao lado de Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias e José Afonso. No entanto, recordando ensinamentos passados, este ambiente manifesta-se em canções como
Monólogo de um Cidadão Frustrado, Deixem Voar Este
Sonho e Já Chega de Ilusões, mas sem nunca entrar decididamente na
música de intervenção. “Nunca tive feito para pertencer a um partido”, notou no
documentário Vejam Bem.
Com 13 músicas, duas delas a passar os seis minutos de
duração, Com Uma Viagem Na Palma Da Mão é a última peça do puzzle que
explica o percurso de Jorge Palma até tornar-se num dos cantautores por
excelência de Portugal. Enquanto intérprete, nota-se que está bastante mais
próximo — especialmente na entrega vocal — do padrão a que habituou os seus
ouvintes. A nível musical, no entanto, é outro bicho raro ao estilo de The
Nine Billion Names of God. Para este álbum de estreia, Jorge Palma contou
com os préstimos de dois companheiros dos tempos dos Sindicato — Vítor Mamede
na bateria e Rui Cardoso nos sopros — ficando a cargo de todas as partes de
guitarra, baixo e teclas. É aí que se nota que não só foi altamente
influenciado pelo rock progressivo dos Yes e dos Genesis, como teve outras
formas de combustível criativo: “Aí, já tinha experimentado ácido, LSD. Não sei
se se nota em alguma coisa”, admitiu ao Observador.
Além disso, esse espírito exploratório foi potenciado pelo
facto de ter tido total liberdade no estúdio da Valentim de Carvalho, fruto do
voto de confiança que o A&R e produtor desta editora, Mário Martins, lhe
deu. “Naquela altura, início de 1975, os estúdios da Valentim não estavam
alugados por ninguém e o Mário Martins disse-me: ‘ok, vai para lá, grava o que
quiseres’. Isto é um luxo. E aproveitei. O Mário Martins foi fundamental — tal
como o técnico de som, o Hugo Ribeiro, que já morreu. Encaixaram perfeitamente
com o nosso espírito na altura, mesmo maluco. Pensava ‘eu agora quero um
ambiente de casino’ e inventávamos, com copos e moedas, a fingir que era a
roleta [risos]. Estive não sei quanto tempo a gravar, mais de um mês, às tantas
íamos para lá todos os dias”, recordou.
Antes de Com Uma Viagem Na Palma Da Mão ser lançado ao público, a 19 de setembro de 1975, Jorge Palma teria ainda outra oportunidade de ouro para dar-se a conhecer ao público nacional. A 15 de fevereiro de 1975, surgiu como concorrente em mais do que uma canção a concurso no 12.º Festival da Canção, interpretando O Pecado Capital, ao lado de Fernando Girão, e Viagem a solo — sendo a primeira escrita com Pedro Osório e a segunda com Nuno Nazareth Fernandes. Ambas, seguindo a mesma toada prog, foram lançadas como singles pela Zip Zip, mas nenhuma venceu o certame: ficaram em 7.º e 8.º lugar entre os 10 temas concorrentes.
Sete meses depois, o disco viu a luz do dia e, uma vez mais,
não foi um fenómeno de vendas. “Não sei se chegaram a fazer 500 cópias,
provavelmente não. Ofereci muitos discos a família e amigos e não sei se terá
vendido dez [risos]. Não houve promoção nenhuma. Estávamos em pleno verão de
1975, politicamente isto estava um olaré, ninguém tinha pachorra para andar a
ouvir discos, andava tudo aos gritos na rua [risos] e a cantar na Voz do
Operário e nos cantos livres por todo o lado. Na altura, praticamente ninguém
me ficou a conhecer. Mas é um disco que amo profundamente”, disse ao Observador.
À distância de décadas, a falta de sucesso comercial pouco importa — foi o
início de uma estrada onde ainda haveria muito para andar.
Fonte: Observador, 27 de setembro de 2026



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