Cientistas criaram o primeiro computador que usa ADN para resolver problemas matemáticos sem eletricidade
A biocomputação acaba de dar um salto gigantesco rumo ao
futuro de uma tecnologia mais sustentável. Investigadores da Universidade de
Maynooth, na Irlanda, criaram um sistema biológico capaz de executar operações
matemáticas antes reservadas aos microchips eletrónicos. Esta inovação baseia-se em cadeias microscópicas de
código genético que interagem de forma dinâmica numa simples gota de água
salgada. Segundo o site Interesting Engineering, trata-se de
um marco inédito que dispensa a utilização de fios ou fornecimento de eletricidade
contínuo para funcionar. O segredo reside na utilização de uma longa estrutura
de ADN e na aplicação de calor para iniciar os cálculos moleculares.
O fim da dependência energética
O processo de funcionamento é surpreendentemente simples e
afasta-se dos tradicionais circuitos de silício. Os cientistas misturam
pequenos fragmentos genéticos com uma estrutura principal dentro da solução
salina. Um breve impulso térmico dá início à interação biológica e, à medida
que o líquido arrefece, milhões de cadeias microscópicas juntam-se e reagem.
Estas estruturas organizam-se de forma totalmente autónoma em padrões
moleculares intrincados que acabam por revelar a resposta final. Tudo isto
acontece sem qualquer necessidade de fornecimento contínuo de energia, um
detalhe crucial numa época em que a pegada ecológica da eletrónica moderna
cresce a um ritmo alarmante.
A título de exemplo, os centros de dados tradicionais
consomem atualmente 23% de toda a eletricidade fornecida na Irlanda. Para
contornar este grave problema, a arquitetura biológica agora desenvolvida
converte a informação digital em arranjos específicos de quatro bases genéticas
fundamentais, nomeadamente a adenina, a citosina, a guanina e a timina. O
professor Damien Woods, do Instituto Hamilton da Universidade de Maynooth,
sublinha que a humanidade tem estado limitada a ver apenas um tipo de
computador, esquecendo-se de que existem outros exemplos biológicos
incrivelmente eficientes ao nosso redor, como o próprio cérebro humano.
Cálculos complexos numa gota de água
Durante os testes intensivos em laboratório, a equipa de
investigação conseguiu executar dez programas distintos com um sucesso
assinalável. O sistema molecular demonstrou ser bastante capaz ao resolver
operações matemáticas básicas, como somar dez e três, em apenas 30 segundos. Já
as adições complexas de 100 bits, envolvendo números na ordem dos 34 milhões,
demoraram cerca de 14 horas a ser concluídas com total precisão. A configuração
provou ainda a sua durabilidade e reutilização, permitindo que a equipa
realizasse até 25 cálculos consecutivos exatamente na mesma gota de líquido,
sem registar qualquer perda de desempenho.
Apesar de o processamento fluido não pretender substituir os
atuais smartphones de alta velocidade, a rapidez absoluta nunca foi o grande objetivo
da equipa liderada pela cientista Abeer Eshra. A verdadeira vitória passa pela
eficiência energética e pela densidade de armazenamento inigualável que o
material genético oferece. Apoiado por uma subvenção europeia de quatro milhões
de euros, o projeto visa desbloquear aplicações que os chips eletrónicos nunca
conseguiriam gerir. As próximas versões deste computador biológico poderão
preservar arquivos digitais densos durante milénios ou até navegar na corrente
sanguínea humana para identificar doenças célula a célula.
Fonte: PC Guia, 18 de setembro 2026

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