Do Canadá à IA: o discurso de von der Leyen sobre o Estado da União em dez pontos
The Marlow
Murder Club (2024) - Jacqueline Boatswain
Da
proibição das redes sociais para crianças e um convite aos laboratórios de IA,
às relações com a China e novos anúncios na defesa, saiba as prioridades da
Comissão Europeia para este ano
Durante cerca de uma hora e
quinze minutos, a presidente da Comissão Europeia apresentou aos
eurodeputados as prioridades de Bruxelas para o novo ano legislativo. O chamado
discurso sobre o Estado da União — o sexto de Ursula von der Leyen desde que
chegou à liderança do Executivo comunitário — mais do que se focar em soluções
para reavivar o crescimento da economia, teve nas relações com o Canadá o maior
destaque, conquistando até aplausos de várias bancadas do hemiciclo do
Parlamento Europeu.
Ainda assim, houve anúncios relevantes na área da defesa,
tais como as propostas de relançar o Conselho Europeu de Segurança e de usar as
verbas restantes do programa SAFE para financiar
projetos conjuntos com a Ucrânia —
uma forma de a União Europeia (UE) continuar a apoiar Kiev na sua luta contra a
invasão russa.
Como esperado, von der Leyen confirmou que a Comissão
Europeia vai apresentar amanhã o “EU Kids Act”, um regulamento que vai proibir
o uso das redes sociais a crianças com menos de 13 anos, enquanto os
adolescentes entre os 13 e os 15 anos terão “mini-contas” criadas pelos pais ou
tutores, com funcionalidades limitadas e sujeitas a um máximo de uma hora por
dia de utilização de ecrãs.
Veja os principais pontos que marcaram o discurso esta manhã
da líder do Executivo comunitário.
Canadá como “membro associado” da UE
Depois de, na semana passada, ter sido noticiado que a União
Europeia e o Canadá estavam a trabalhar numa nova aliança, e que o
primeiro-ministro do país estaria presente esta quarta-feira no hemiciclo, era
expectável que as relações com Ottawa merecessem destaque no discurso proferido
por von der Leyen.
Na verdade, ficou marcado por um anúncio histórico: Bruxelas pretende “elevar a parceria com o Canadá ao mais
alto nível possível” e irão trabalhar em conjunto para “abrir as
portas para que o Canadá se torne o primeiro membro associado da União
Europeia”. (a)
Referindo-se, indiretamente, a Donald Trump, a presidente da
Comissão Europeia sustentou que “não se trata de uma parceria contra ninguém,
mas sim em prol da [sua] força comum”. Uma das áreas-chave será a energia,
sendo que ambos já colaboram na energia nuclear, nas tecnologias limpas e na
redução das emissões de metano.
Este anúncio, contudo, apanhou de surpresa os
Estados-membros. Um diplomata citado pelo Politico disse que “ninguém sabe
realmente o que significa” um país tornar-se membro associado do bloco
comunitário, enquanto outro alertou que qualquer estatuto de
adesão associada exigiria alterações aos tratados fundamentais da UE — o que é
“impossível” devido à falta de apoio.
Na quinta-feira, Mark Carney vai intervir na sessão plenária
do Parlamento Europeu, esperando-se que detalhe a visão canadiana para esta
nova aliança com Bruxelas, especialmente a cooperação em áreas como energia,
inteligência artificial (IA), defesa e o Ártico.
Proibição do uso de redes sociais por menores de 13 anos
A presidente da Comissão Europeia também aproveitou o
discurso desta quarta-feira para anunciar uma proposta que visa proibir o
acesso a redes sociais às crianças com menos de 13 anos e de ter contas
pessoais a jovens com menos de 15, de modo a evitar que os menores sejam “atraídos para conteúdos cada vez mais extremos”.
O “EU Kids Act” (Lei das Crianças da UE) vai ser apresentado
na quinta-feira. “Cada idade tem as suas
próprias sensibilidades. Assim sendo, cada uma terá o seu próprio
nível de proteção específico”, afirmou von der Leyen perante os eurodeputados.
“Isto significa que, dos 13 aos 15 anos, apenas serão
permitidas mini-contas, criadas e supervisionadas pelos pais, com recursos
limitados e restrições de tempo”, detalhou, adiantando que a proposta foi
elaborada com base em conversas com um painel especial de peritos e com jovens,
além de observações do que foi feito em outros países, nomeadamente na
Austrália.
Por outro lado, as plataformas online que produzam conteúdos
para menores entre os 15 e os 18 anos deverão passar a adotar um design seguro.
“Não temos de aceitar recursos viciantes. Não temos de aceitar que as fotos de
raparigas sejam usadas para imagens sexualizadas geradas por inteligência
artificial. Portanto, estamos a inverter o ónus da prova”,
referiu.
Um novo “Conselho de Segurança Europeu”
À semelhança dos últimos anos, a área da defesa esteve em
grande destaque no discurso sobre o Estado da União. O primeiro anúncio neste
âmbito foi de um novo Instrumento Europeu para Facilitadores Estratégicos, “totalmente alinhado com a NATO”, segundo
garantiu von der Leyen aos eurodeputados. Esta é uma das nove lacunas de
capacidade que a UE tem de colmatar para se poder defender até 2030, o que já
foi aprovado pelos governos nacionais.
A líder do Executivo comunitário disse também que será
apresentado um novo programa para projetos
conjuntos com empresas ucranianas, financiado através das verbas restantes dos
empréstimos realizados no âmbito do programa SAFE. Adicionalmente,
anunciou planos para a criação de um “sistema de defesa antimísseis acessível e
modular” europeu, em colaboração com a Ucrânia, baseado no Freyja, um projeto pan-europeu de mísseis antibalísticos liderado
por Kiev.
Mais sonantes foram o anúncio de um “Protocolo de Segurança
de Emergência” semelhante ao Artigo 4.º da NATO, com o objetivo de combater a
escalada de ciberataques, sabotagem, incêndios criminosos e incursões de drones
em espaço europeu, e a proposta de relançar o “Conselho de Segurança Europeu”,
que deverá incluir também a Ucrânia, o Reino Unido, a Noruega, o Canadá e
outros países com visões semelhantes.
Convite a líderes de laboratórios para debater riscos da IA
A presidente da Comissão Europeia vai convidar os principais
laboratórios de ponta na área da inteligência artificial (IA) para debater as
medidas destinadas a fazer face aos riscos decorrentes desta tecnologia. O
objetivo é debater como é que Bruxelas pode “apoiar os esforços em curso da
indústria para controlar o ritmo da inovação”,
disse von der Leyen.
“Sou otimista quanto ao
potencial da IA para beneficiar a humanidade — se fizermos as coisas bem. Mas, como
acontece com qualquer nova tecnologia poderosa, a IA traz consigo um equilíbrio
entre oportunidades e riscos. Se não enfrentarmos esses riscos, nunca
conseguiremos aproveitar plenamente as possibilidades da IA”, alertou Von der
Leyen.
A Anthropic e a OpenAI são os principais laboratórios de vanguarda que desenvolvem os modelos de IA mais avançados, poderosos e inovadores do mundo. Alguns investigadores defendem que a IA deve abrandar o ritmo.
Ursula von der Leyen afirmou que as regras históricas da UE
que regulam a utilização da IA, adotadas recentemente, colocam a Europa numa
posição para moldar os esforços globais destinados a fazer face aos riscos.
“Os modelos que estão a ser
desenvolvidos permitirão realizar ataques informáticos a um nível que nunca
julgámos possível. E em breve estarão nas mãos de adversários que veem o mundo de forma muito
diferente da nossa”, assinalou. “Ao mesmo tempo, os perigos
dos modelos capazes de se autoaperfeiçoarem estão a tornar-se cada vez mais
claros”.
Maior foco na adaptação às alterações climáticas
No que diz respeito às alterações climáticas, von der Leyen
centrou-se quase exclusivamente nos impactos do aquecimento global e no que a
UE pode fazer para os enfrentar. Isto marca uma mudança em relação ao foco
tradicional da Comissão na redução drástica das emissões, com o objetivo de
evitar, desde o início, que esses impactos se agravem.
Embora a líder do Executivo comunitário tenha prometido que
a UE “manterá o rumo em relação às suas metas climáticas”, nada no seu discurso
sugeriu esforços mais ambiciosos ou mais detalhados para atingir esses
objetivos — apesar de a sua Comissão estar a trabalhar num pacote de medidas
para cumprir o novo marco em matéria de redução da poluição para 2040.
Em vez disso, destacou o próximo pacote de adaptação da
Comissão Europeia e anunciou medidas para lidar
com os verões cada vez mais quentes, incluindo um “plano para ondas
de calor”, uma nova iniciativa para a gestão hídrica e até uma “Aliança para os
Seguros Climáticos”.
“Ponto de viragem” nas relações com a China
A União Europeia vai recorrer a todos os meios possíveis
para reduzir o défice comercial “insustentável” com a China, frisou von der
Leyen aos eurodeputados. Sublinhando que o défice comercial de bens foi “de mil
milhões de euros por dia” no ano passado, a presidente da Comissão diz que
chegou o momento de mudar, pois a Europa já está
a sofrer o segundo “choque da China” devido à desindustrialização.
“Deixem-me
ser clara: utilizaremos todas as ferramentas à nossa disposição para
reequilibrar a nossa relação. As palavras são boas. Mas as ações são melhores”,
disse.
Von der Leyen destacou também a dependência da UE em relação
à China no que diz respeito a muitos minerais críticos, nomeadamente terras raras. “Temos de reforçar urgentemente
as nossas reservas”, afirmou, acrescentando que Bruxelas vai criar uma nova
Sociedade Europeia para as Matérias-Primas Críticas, a fim de ajudar o bloco de
27 países a obter e armazenar o que necessita.
Reforma da política de alargamento da UE
A União Europeia não admitiu nenhum novo membro desde a
adesão da Croácia, em 2013. Na verdade, até sofreu uma redução, com a saída do
Reino Unido (o famoso “Brexit”) em 2020.
Montenegro — o país alegadamente favorito entre os que
procuram a adesão ao bloco comunitário — e a Albânia são os próximos na fila, enquanto a Ucrânia e a
Moldávia iniciaram,
em julho, negociações sobre política externa, de segurança e de defesa, tendo
as suas candidaturas à adesão à UE intimamente ligadas.
Não obstante o moroso processo, von der Leyen aproveitou o
discurso para anunciar que brevemente a Comissão Europeia irá “propor planos de
ação para os países candidatos que mais progrediram”, numa clara referência aos recentes acontecimentos na
Sérvia, outro candidato à adesão, relativamente ao funeral de Ratko Mladić.
Espera-se que Bruxelas apresente uma revisão da sua política
de alargamento ainda este mês, incluindo salvaguardas destinadas a impedir que
os novos Estados-membros recuem nas reformas relativas ao Estado de direito.
Abordagem mais firme na imigração
Ursula von der Leyen anunciou também uma nova iniciativa em
matéria de imigração na sequência da recente crise em Ceuta, com o objetivo de
conferir aos países da UE maior flexibilidade para responder a chegadas
repentinas de imigrantes. O denominado “Instrumento Europeu de Resposta a
Emergências” irá lidar com o que ela descreveu como movimentos em massa de
migrantes.
Os pormenores do novo quadro
continuam pouco claros, incluindo a forma como seria acionado e que
poderes adicionais conferiria aos países da UE, bem como a forma como irá
interagir com outros mecanismos de crise já à disposição dos países. A
iniciativa só entraria em vigor quando fosse cumprido um conjunto de critérios
rigorosamente definido, mas concederia então aos países da UE maior
flexibilidade, por um período limitado, para se afastarem dos procedimentos
padrão.
Ainda neste contexto, a líder do Executivo comunitário
prometeu reforçar a Frontex, com especial ênfase na aceleração dos regressos e
no reforço da cooperação com países terceiros. Anteriormente, ela tinha
sugerido aumentar o corpo permanente da agência de fronteiras da UE para 30 mil
efetivos, embora não tenha mencionado esse número no seu discurso.
“Pacto contra o gold-plating“
A líder da Comissão Europeia convidou os Estados-membros a
aderirem a um “pacto contra o “gold-plating”. Sem entrar em grandes detalhes, a
proposta visa a prática de as capitais da UE acrescentarem novas disposições às
diretivas europeias ao transporem-nas para a legislação nacional. O efeito
cumulativo, na perspetiva de Bruxelas, é um aumento da burocracia. “A
simplificação não pode ser uma via de sentido único. Todos os níveis têm de
assumir a sua responsabilidade”, sublinhou von der Leyen.
O Executivo comunitário
reduziu cerca de 17 mil milhões de euros por ano em encargos administrativos através de 12 pacotes omnibus, e agora é altura
de os 27 governos nacionais fazerem o mesmo com as suas próprias regras,
defendeu a responsável, seguindo a premissa do famoso relatório de Mario Draghi
de que o que trava as empresas europeias não é tanto o conjunto de regras
comunitárias, mas sim as 27 versões nacionais das mesmas.
É este raciocínio que serve igualmente de base ao plano “Uma
Europa, Um Mercado”, que von der Leyen pretende ver concluído até ao final do
próximo ano. O que ficou por perceber é se o “pacto contra o gold-plating” vai
visar as disposições adicionais já existentes, ou apenas futuras duplicações
processuais.
Mais recursos próprios para o orçamento de longo prazo da UE
Numa altura em que as difíceis negociações em torno do
Quadro Financeiro Plurianual (QFP) para o período de 2028 a 2034 estão a chegar
a uma fase decisiva, a presidente da Comissão Europeia guardou espaço no seu
discurso esta manhã para insistir na ideia de que o próximo orçamento de longo
prazo da UE deve incluir “novos recursos próprios” — por outras palavras,
verbas arrecadadas através de novos impostos.
As cinco taxas propostas pelo Executivo comunitário incluem uma taxa sobre resíduos eletrónicos,
tabaco e empresas, que deverão
angariar 66 mil milhões de euros para o orçamento de longo prazo proposto de 2
biliões de euros. No entanto, as 27 capitais da UE continuam divididas quanto
ao volume total, ao equilíbrio das despesas — e aos novos impostos.
Uma
taxa sobre as emissões de carbono e um imposto sobre os resíduos eletrónicos surgiram
como as principais opções na busca por um acordo sobre novos impostos a nível
da UE.
Neste âmbito, a responsável sublinhou também a importância
da União da Poupança e do Investimento — matéria que é da responsabilidade da
comissária portuguesa Maria Luís Albuquerque — e, por consequência, da
necessidade de “um sistema bancário designado para o crescimento e não apenas
para a estabilidade”.
Para as empresas europeias poderem atrair investimento,
anunciou a apresentação de um novo Pacote Bancário centrado na simplificação e
no combate à fragmentação. “Sabemos que a procura de capital existe. Mas
precisamos de uma maior capacidade e apetite pelo risco”, apontou, notando que
as start-ups de tecnologia de ponta da Europa “estão no bom caminho para atrair
um investimento recorde de capital de risco em 2026”.
Fonte: ECO, 16 de setembro de 2026
(a) Aliança UE-Canadá. Trump ameaça com tarifas. Europa responde que proposta não é “contra ninguém”
Depois de Ursula von der Leyen ter proposto que o Canadá se torne o primeiro “membro associado” da União Europeia (UE), o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, ameaçou com “tarifas muito pesadas”
“Se eu pensar que é, de todo, um ato hostil, vou impor tarifas muito elevadas ou parar o comércio com a Europa em muitas coisas”, afirmou Donald Trump em declarações aos jornalistas.
Esta foi a reação ao discurso do Estado da União que a presidente da Comissão Europeia fez, esta quarta-feira. Com o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, em Estrasburgo, Ursula von der Leyen convidou o Canadá para uma parceria inédita.
“Caro Mark, gostava que trabalhássemos juntos para abrir a porta para que o Canadá se torne no primeiro membro associado da UE”, afirmou von der Leyen esta quarta-feira.
O estatuto de “membro associado da UE” não existe e ainda não é claro o que esta posição poderá representar.
Em resposta a Donald Trump, a Comissão Europeia garantiu que a proposta feita ao Canadá não foi pensada para afrontar os EUA. “Como a nossa presidente deixou claro ontem, o reforço proposto da nossa parceria com o Canadá não é contra ninguém, mas sim para a nossa força comum”, disse a Comissão Europeia à CNN Portugal.
A proposta de Bruxelas aconteceu num momento difícil da relação dos norte-americanos com o Canadá. Donald Trump tem garantido que os EUA não precisam do Canadá e, no mês passado, aplicou taxas de 50% aos produtos canadianos.
Os EUA são o principal parceiro comercial do Canadá e a guerra comercial tem aumentado a pressão sobre Otava. Desta forma, os canadianos têm procurado parceiros para reforçar as relações económicas.
Fonte: 24Notícias, 17 de setembro de 2026

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