Dois mil milhões para reconstruir Gaza: os detalhes do plano do Conselho de Paz de Trump
O
plano, elaborado ao longo de um ano pelos membros do Conselho de Paz em
conjunto com o órgão de transição palestiniano, prevê um investimento inicial
de 2,15 mil milhões de euros. As prioridades são as infraestruturas e a
segurança da região, mas há também ambições tecnológicas. Para isso é, no
entanto, preciso que Israel e o Hamas se 'entendam'
O Conselho de Paz de Donald Trump apresentou, esta
quarta-feira (23), o projeto de 66 pontos para a reconstrução da Faixa de Gaza,
com um investimento estimado em cerca de 2,15 mil milhões de euros.
A apresentação do plano aconteceu numa reunião do conselho
de administração do grupo, à margem da Assembleia-Geral da ONU, que decorre em
Nova Iorque, e é o resultado do trabalho produzido ao longo de um ano pelos 28
Estado-membros em conjunto com o comité tecnocrático palestiniano - órgão de
transição composto por peritos e especialistas independentes.
“Este plano mostra como criar
um governo a partir do nada, reconstruir uma economia em ruínas e recuperar um
território devastado por uma catástrofe”, afirmou um responsável do
Conselho da Paz.
Serão, para isso, investidos cerca de 2,15 mil milhões de
euros na remoção de escombros, alojamento temporário, reparação de
infraestruturas críticas como hospitais, recuperação económica e também na
mobilização de uma força de segurança “multinacional”.
Estima-se, no entanto, que o custo total da reconstrução de
Gaza ascenda a 30 mil milhões de euros a médio
prazo e a mais 63 mil milhões dentro de 10 anos. Os números (e os
detalhes) são revelados pelo portal de notícias norte-americano Axios, que
acrescenta ainda que, para o plano avançar, é necessária a cooperação de Israel
e do Hamas.
66 pontos divididos por seis grandes áreas
O projeto de reconstrução apresentado pelo Conselho de Paz
de Trump está dividido por seis grandes áreas:
desenvolvimento de infraestruturas - fatia que absorve a maior parte do capital
-, desenvolvimento humano, aceleração económica, transformação digital,
assuntos jurídicos e paz e segurança.
No que diz respeito às infraestruturas, além da construção
de abrigos temporários, reabilitação de hospitais e reparação da rede
rodoviária, o projeto prevê a reparação dos postos fronteiriços e a recuperação
das redes de eletricidade e água.
A segunda grande prioridade é a segurança da região, com a construção de uma base permanente em Rafah -
cidade que faz fronteira com o Egito - com capacidade para 5000 membros da
Força Internacional de Estabilização (ISF, na sigla em inglês). Esta força
atuará em conjunto com Israel e o Egito durante um período inicial de dois
anos.
Parte do orçamento para a segurança servirá ainda para a
formação de uma nova força policial em Gaza.
Dos 2,15 mil milhões de euros, apenas 300 milhões serão
aplicados, no entanto, em programas de saúde, educação e bem-estar, revela a
Axios.
Tecnologia em Gaza: pagamentos digitais e rede 4G
A proposta de reconstrução do enclave palestiniano não se
limita, contudo, à ajuda de emergência. Tem também ambições tecnológicas,
nomeadamente a implementação de um novo sistema de identificação dos cidadãos, pagamentos
digitais e rede 4G.
Quem vai pagar a reconstrução de Gaza?
Quase um ano depois do acordo de cessar-fogo, as imagens que
continuam a chegar da Faixa de Gaza não deixam dúvidas quanto à dimensão da
destruição, mas a fase de reconstrução está ainda por sair do papel.
Com mais de dois milhões de
palestinianos confinados a cerca
de um terço do território do enclave - a maioria deslocados em tendas ou a
viver entre as ruínas - levanta-se uma questão: afinal, quem é que vai ‘pagar’
a reconstrução?
É precisamente esse o desafio que o Conselho de Paz de Trump
enfrenta agora. O conselho de administração ainda não conseguiu
angariar os 2,15 mil milhões de euros, montante que assume,
todavia, não precisar já na totalidade. A esperança é a de que, ultrapassados
os “obstáculos políticos”, haja países a financiar este projeto.
A União Europeia, por exemplo, anunciou em julho a
mobilização de 883 milhões de euros para a reconstrução de Gaza, numa
iniciativa intitulada “Equipa Gaza” - sem ligação ao Conselho de Paz -, da qual
participam 13 governos: Espanha, Dinamarca, Reino Unido, Alemanha, Noruega,
Finlândia, Itália, Países Baixos, França, Japão, Suíça, Suécia e Bélgica.
O que falta?
O plano para a reconstrução de Gaza integra um projeto
apresentado por Donald Trump para a região, que prevê, entre outras medidas, a
desmilitarização da Faixa de Gaza - uma condição que o presidente
norte-americano considera fundamental para o avanço do processo. Israel,
contudo, recusa-se a implementar um cessar-fogo de 14 dias enquanto o
desarmamento do Hamas não tiver início.
É precisamente esta divergência que impede, para já, um
entendimento entre as partes para executar a segunda fase do acordo, que inclui
ainda a retirada gradual das forças israelitas e o destacamento da Força
Internacional de Estabilização.
O alto representante do Conselho de Paz, Nikolay Mladenov -
que foi também, entre 2015 e 2020, coordenador
da ONU para o processo de paz no Médio Oriente - considera que o
desarmamento do Hamas é condição essencial para a concretização deste plano,
mas esclarece que não há um calendário a cumprir. O mais importante é “garantir
que isto resulta”.
Ideia reforçada pelo secretário de Estado dos Estados
Unidos, Marco Rubio, que lembra que este é um
projeto de “longo prazo”.
“Não é algo que possa acontecer em seis meses. Mas, pelo
menos, dá esperança às pessoas. Eis o futuro que vos espera se todos fizerem a
sua parte.”
Fonte: SIC Notícias, 24 de setembro de 2026

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