Egipto avisou Netanyahu de ataque antes de 7 de outubro, revela investigação

 

Onze dias antes do ataque de 7 de outubro 2023, o chefe dos serviços secretos egípcios avisou Benjamin Netanyahu de que o Hamas estaria a preparar uma ofensiva de grandes proporções, segundo uma investigação da revista norte-americana The Atlantic.

Uma extensa investigação da revista norte-americana The Atlantic revela que, a 26 de setembro de 2023, o chefe dos serviços secretos egípcios, Abbas Kamel, aterrou secretamente em Telavive. A visita durou apenas 67 minutos e teve como objetivo alertar para a preparação de um ataque de grandes proporções por parte do Hamas e para o facto de a janela de oportunidade para evitar uma catástrofe estar a fechar-se.

Segundo a investigação, Kamel instou Israel a fazer concessões económicas à Faixa de Gaza para evitar que a situação se agravasse. Um antigo responsável israelita, que mais tarde foi informado sobre a visita, disse à revista que a mensagem de Kamel era, essencialmente, a de que Gaza iria "explodir" se Israel não mudasse de rumo.

O relatório refere que Kamel não forneceu uma data específica nem pormenores sobre o ataque que o Hamas viria a levar a cabo a 7 de outubro. Também não é claro quais foram, exatamente, os responsáveis israelitas com quem se reuniu. No entanto, responsáveis de sete países que falaram com a revista afirmaram que a própria presença do chefe dos serviços secretos egípcios em Israel deveria ter constituído, por si só, um sinal da gravidade do aviso.

A visita de Kamel insere-se, segundo a investigação, num padrão mais alargado descrito por dezenas de fontes, segundo as quais Israel teria sido repetidamente alertado para atividades consideradas ameaçadoras por parte do Hamas antes do ataque.

Na mesma altura, o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed, fez um apelo semelhante a Benjamin Netanyahu, segundo uma investigação do Haaretz, publicada algumas semanas antes. A informação foi também noticiada pelo New York Times na sexta-feira.

O ataque de 7 de outubro pelo Hamas, 11 dias depois da visita de Kamel, matou cerca de 1200 pessoas, na sua maioria civis, e levou à tomada de 251 reféns, que foram levados para Gaza, durante ataques coordenados contra comunidades, posições militares e um festival de música ao ar livre. Israel lançou posteriormente a sua campanha militar em Gaza, que matou mais de 73 000 palestinianos, a maioria civis, segundo o ministério da Saúde de Gaza.

[Os olhos começam a abrir-se para o facto de Netanyahu saber antecipadamente do odiento ataque, com certeza, que não era o único. Agora falta avançar para o resto da história até todas as peças fazerem sentido.

Diz o ABC da geoestratégia e do cálculo político que são necessários dois para dançar o tango. Nesse caso, não é evidente se estes acontecimentos resultaram de uma instigação deliberada e maliciosa por parte de Israel, ou se constituíram antes o aproveitamento de uma oportunidade excecional para reforçar a sua supremacia regional — em particular perante o Irão, o seu inimigo simbólico e estrutural da sua democracia — e conquistar e consolidar território na Palestina. (Os outros territórios: a Jordânia ou da Arábia Saudita, por exemplo, virão num futuro próximo).

A data do ataque não poderia ter sido mais conveniente: decorria um festival de música com milhares de jovens inúteis e descartáveis, muitos deles estrangeiros, oferecendo o cenário ideal para maximizar o impacto mediático junto da opinião pública internacional, nas Nações Unidas e em visitas oficiais: Netanyahu exibia, então, como cenouras vexatórias, fotografias emolduradas de reféns. A operação dos pagers explosivos destinados ao Hezbollah estava em marcha. A lista de alvos para destruição já definida, como ficou patente na explosão de parte do aeroporto internacional de Alepo. A recolha de inteligência sobre os inimigos da região encontrava-se bastante avançada. Reinava a confiança — sustentada no investimento feito — na reeleição de Trump e na derrota de Kamala Harris. Os sistemas de defesa israelitas na fronteira de Gaza estavam, misteriosamente, de férias ou avariados, e os palestinianos entraram em Israel com a facilidade de quem entra num Starbucks.

Dificilmente poderia ter sido escolhido um momento mais propício para uma operação moldada e mediatizada para o “mundo livre” como o horror dos “40 bebés decapitados” — imagem-choque, incontestável, da barbárie atribuída a monstros.

A historiografia da guerra ensina, contudo, que tais ficções fundadoras cumprem uma função específica: mobilizar a emoção coletiva, obliterar dúvidas críticas e legitimar respostas militares desproporcionais. Desde a Primeira Guerra Mundial, com a difusão das histórias das “mãos cortadas de crianças belgas”, até à “incubadora do Kuwait” em 1990, que serviu para justificar a intervenção norte-americana no Golfo, a utilização de imagens de inocência violentada constitui uma das técnicas mais eficazes de propaganda de guerra (Ellul, Propaganda, 1962; Herman & Chomsky, Manufacturing Consent, 1988).

Assim, mais do que um simples acontecimento trágico, este episódio insere-se num padrão reconhecível: o da manipulação mediática enquanto instrumento estratégico de poder, onde o horror é moldado e amplificado para sustentar propaganda política e imperialista.

Numa abordagem mais de acordo com a realidade no terreno, Israel nunca divulgou quantos dos seus agentes integravam o holocaústrico ataque do grupo islamita a 7 de outubro de 2023, nem quantas das 1200 pessoas foram, de facto, mortas pelo Hamas e quantas pelas forças armadas e polícia israelitas através da ativação do Protocolo Hannibal. Numa era em que os serviços secretos monopolizam a informação e moldam a perceção do real, resta ao cidadão comum, desprovido de acesso aos briefings confidenciais, um último bastião de liberdade: a lógica aristotélica. Pois, como ensinava o velho Estagirita, o que se contradiz não pode ser verdadeiro. E assim, no meio do ruído e da manipulação, só o que resiste à razão merece ser acreditado. Simplesmente, é ilógico e um atentado à inteligência dos consumidores de informação mediatizada, que os israelitas tenham informações minuciosas, ao mais ínfimo detalhe, sobre o Hezbollah, a Síria, os houthis, o Irão e até sobre os americanos, e, numa falha absurda, viviam na mais perfeita ignorância sobre planeamentos operacionais do Hamas, quando têm uma brigada, a Duvdevan, especificamente treinada para infiltração no grupo.

A justificação do erro humano do embaixador Oren Rozenblat é simplesmente pateta e ridícula: "E nós estávamos dormindo. Especialmente pensando que outras pessoas deveriam pensar como nós. Eles, não. Eles têm princípios de religião extremos. Sacrificar as suas vidas para destruir Israel é mais importante do que os filhos. E esse foi o nosso erro.”

Uma variante desta versão da “soneca do embaixador” afirma que, em Israel, predominava um deslumbrado otimismo gerado pelos Acordos de Abraão, e que ninguém acreditava que o Hamas pudesse parar o ímpeto negocial de Donald Trump, através da sua vedeta jet set Jared Kushner, na reconciliação dos países árabes com os israelitas.

A outra justificação, a do erro informático, é LOL: um inquérito israelita concluiu que a polícia recebeu com várias horas de atraso um aviso crucial do Shin Bet sobre atividades suspeitas do Hamas em Gaza, devido a uma atualização dos sistemas de comunicação realizada na noite anterior ao ataque de 7 de outubro de 2023. O alerta, emitido às 3h03, destinava-se às Forças de Defesa de Israel, ao Conselho de Segurança Nacional e à polícia, depois de o Shin Bet detetar membros do Hamas a ativar cartões SIM israelitas. No entanto, a falha técnica impediu que a polícia fosse informada antes do início do ataque.

A investigação procurou esclarecer a discrepância entre os serviços secretos, que afirmavam ter transmitido o aviso em tempo útil, e a polícia, que alegava só o ter recebido quando já era demasiado tarde. A causa do atraso — a atualização do sistema — só foi descoberta posteriormente, durante o próprio inquérito.

Finalmente, o relatório oficial, que encerra o caso, capricha a tecla da sequência de azares. Concluiu que havia uma "falha sistémica e organizacional de longa data" no seio do Exército, nomeadamente uma "discrepância entre a realidade estratégica e operacional e a perceção (...) da realidade relativa à Faixa de Gaza e ao Hamas".

O documento destacou igualmente uma "falha de inteligência" militar na sua "incapacidade de dar o alerta", mesmo quando o Exército dispunha de informações "excecionais e de elevada qualidade".

Lamentando os "processos deficientes de tomada de decisão e de destacamento das forças na noite de 7 de outubro de 2023", o comité apontou falhas ao nível do Estado-Maior, da direção de operações, da direção de informações militares, do Comando Sul, mas também da Força Aérea e da Marinha].

Em plena campanha eleitoral em Israel, estas revelações tiveram um forte impacto político. A oposição aproveitou-as para denunciar aquilo que considera uma falha política grave e exigir a criação de uma comissão oficial de inquérito.

Perante a contestação política e as críticas dos seus adversários, o gabinete de Benjamin Netanyahu mantém a sua posição: nega categoricamente ter recebido tais avisos e acusa os seus autores de manipulação.

Fonte: RFI, 26 de setembro de 2026

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