Eleições na Saxónia-Anhalt. Chanceler alemão diz estar "chocado" e admite "derrota eleitoral mais severa" em décadas
Friedrich
Merz assume que resultado eleitoral "não pode ser ignorado" e sugere
que Rússia promoveu o crescimento da AfD. Chanceler reuniu-se com governadores
da CDU, perante críticas internas
O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou esta
segunda-feira que o resultado obtido pela CDU nas eleições estaduais no estado
da Saxónia-Anhalt é “a derrota eleitoral mais severa em décadas” para os
democratas-cristãos. Merz confessou ainda estar “chocado” com o resultado das
eleições, nas quais o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha
(AfD) venceu de forma expressiva e, nas quais, lembrou, 60% dos eleitores votaram em partidos “que questionam as instituições democráticas”
alemãs.
“Quando quase 60% dos eleitores votaram em partidos
políticos que questionam fundamentalmente as instituições democráticas do nosso
país, trata-se de um resultado eleitoral que não podemos simplesmente ignorar
como se nada tivesse acontecido”, disse o chanceler alemão, citado pelo Guardian,
à saída de uma reunião de emergência com os governadores estaduais da CDU e com
o comité do partido, que convocou esta segunda-feira para discutir os
resultados das eleições no estado da Saxónia-Anhalt, segundo o jornal alemão Bild.
“Estamos todos profundamente chocados” com os resultados
eleitorais, disse Merz, reconhecendo que a votação obtida pela CDU (que perdeu
mais de metade dos votos, e recolheu apenas 17,2% do total) é “a derrota
eleitoral mais severa que a CDU sofreu em anos, aliás, em décadas”.
O chanceler alemão admitiu que os resultados terão
“repercussões” e reconheceu que o partido não tem agora “mandato” para
continuar a governar a Saxónia-Anhalt. “O mandato para governar cabe à AfD”,
sublinhou.
Chanceler acusa Rússia de “fomentar” resultado da AfD
Questionado pelos jornalistas, Merz sugeriu que os
resultados eleitorais naquele estado foram celebrados na Rússia. “2500 quilómetros a
leste, os resultados das eleições estavam a ser comemorados […] Isso não é
nenhuma surpresa, considerando que foi quem tentou fomentar e provocar esse
resultado. Nesse sentido, sabemos exatamente com quem estamos a lidar”,
vincou Merz.
A AfD tem vindo a assumir uma postura abertamente pró-Rússia
e de aproximação a Moscovo, defendendo, entre outras medidas, o fim imediato
das sanções impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia, o fim do apoio militar
e económico a Kiev e o restabelecimento de um diálogo diplomático pleno com a
Rússia.
Merz garantiu, no entanto,
que “não se desviará nem um milímetro” da convicção que tem — “a de
que devemos defender nossa liberdade, especialmente agora, da Rússia”.
“Provavelmente terei que explicar isso com muito mais frequência e de forma
muito mais detalhada”, reconheceu o chanceler alemão, acrescentando que a
ameaça à segurança interna da Alemanha “não é abstrata, é muito concreta” e que
“se pararmos de apoiar a Ucrânia, as coisas não
vão melhorar, mas piorar”.
Friedrich Merz defendeu que a Alemanha “precisa de reformas
fundamentais” e admitiu que o governo federal precisa
de melhorar a forma como explica as suas ações e a lógica por trás delas.
Ainda assim, garantiu que não vai desistir. “Desistir não é uma opção”.
De acordo com o jornal Bild, Friedrich Merz convocou
os governadores da CDU para uma reunião de emergência no seu gabinete esta
segunda-feira, de forma a dar continuidade às discussões iniciadas na noite
anterior, quando foram conhecidos os resultados eleitorais. A reunião terá começado
às 9h locais (menos uma hora em Portugal continental). Merz adiou mesmo, e em
cima da hora, a reunião marcada com os membros do comité federal da CDU, que
acabou por começar às 11h. O clima na sala era muito tenso, assinala o Bild.
Ministro-presidente da Saxónia pede reflexão à CDU
Este domingo, numa reação aos resultados eleitorais, o
ministro-presidente da Saxónia (outra região do leste da Alemanha onde a AfD
lidera as sondagens) pediu uma reflexão à CDU, o partido no poder em Berlim. É
preciso “que não voltemos simplesmente à normalidade em uma ou duas semanas”. A
CDU precisa “finalmente de começar a analisar o
que motiva as pessoas, por que elas votam da maneira que votam”,
disse Michael Kretschmer, num evento em Dresden. “E irrita-me profundamente que
isso não tenha acontecido nos últimos anos”, criticou.
A Alternativa para a Alemanha (AfD, sigla em alemão) venceu
as eleições regionais no estado federal de Saxónia-Anhalt com 43,8% dos votos,
tendo sido, por larga margem, o partido mais votado nas eleições deste domingo.
A AfD mais do que duplicou a votação alcançada nas últimas eleições naquele
estado. A AfD venceu em quase todas as circunscrições eleitorais da
Saxónia-Anhalt, um estado com 2,1 milhões de habitantes, inclusive na capital,
Magdeburgo.
Por outro lado, os democratas-cristãos da CDU tiveram um
resultado muito abaixo do obtido nas últimas eleições regionais: o partido
passou de governar a região (obteve 37,1% dos votos em 2021) para ser remetido
para a segunda força mais votada com uma queda de 20 pontos percentuais. Obteve
agora 17,2% dos votos.
Fonte: Observador, 7 de
setembro de 2026

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