Emirados Árabes Unidos avisaram Netanyahu de ataque de 7 de outubro, diz jornal israelita

 


Campa carogna... la taglia cresce (1973) - Gianni Garko, Stephen Boyd

O presidente dos Emirados Árabes Unidos (EAU), Mohammed bin Zayed, terá avisado o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, de que o Hamas planeava uma ofensiva de grande dimensão em Israel poucos dias antes de o grupo lançar o ataque de 7 de outubro de 2023, noticiou na terça-feira o diário israelita Haaretz.

Segundo o jornal, no fim de setembro de 2023, 10 dias antes do ataque, o presidente dos Emirados falou com Netanyahu durante 45 minutos e disse que o então líder do Hamas em Gaza, Yahya Sinwar, preparava uma grande operação.

O jornal refere que bin Zayed avisou Netanyahu de que o ataque conduziria a um banho de sangue, poderia desestabilizar a região e pôr em causa os Acordos de Abraão, que normalizaram relações entre Israel e vários países árabes e de maioria muçulmana.

De acordo com o Haaretz, Netanyahu “reagiu com relativa calma” e garantiu a bin Zayed que Israel estava preparado para qualquer cenário, considerando mais provável que um eventual ataque partisse da Cisjordânia ocupada.

O gabinete de Netanyahu classificou a notícia do jornal, de tendência progressista, como “uma mentira absoluta” e negou que o primeiro-ministro tenha falado com o líder dos Emirados nessa altura.

A notícia do Haaretz baseia-se num novo livro, “Kidnapped: 843 Days of Abandonment” (“Raptados: 843 dias de abandono”), da autoria dos jornalistas Shlomi Eldar e Ruth Yuval. A obra analisa as circunstâncias e as falhas de inteligência que permitiram os ataques de 7 de outubro.

As revelações surgem numa altura em que a campanha eleitoral em Israel ganha intensidade, com as ações de Netanyahu em torno do ataque de 7 de outubro a constituírem um tema central.

Os líderes da oposição em Israel lançaram de imediato uma série de duras críticas a Netanyahu, que culminaram numa declaração conjunta a pedir uma investigação.

“O público israelita tem direito a saber: o que sabia Netanyahu, quando soube, porque não informou o aparelho de segurança e porque não agiu para proteger os civis israelitas?”, dizia o texto assinado por Naftali Bennett, Gadi Eisenkot, Yair Golan e Avigdor Lieberman.

“Netanyahu tem uma responsabilidade pessoal e direta pelo fracasso que levou à morte de milhares de israelitas sob a sua liderança”, declarou Bennett, que lidera o partido B’Yachad.

Eisenkot, antigo chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel e rival de Netanyahu nas próximas legislativas, já tinha dito que o primeiro-ministro “recebeu dezenas de avisos antes de 7 de outubro e ignorou-os todos”.

“Não está em condições de exercer o cargo”, acrescentou numa publicação na rede social X.

Numa declaração em vídeo, Golan, líder do partido Os Democratas, acusou igualmente Netanyahu de “pôr em risco Israel” e de “nos conduzir ao desastre”.

Sabias, ignoraste, falhaste, és o responsável, Netanyahu. As desculpas acabaram”, disse.

O gabinete de Netanyahu voltou a contestar, na noite de terça-feira, a veracidade da notícia.

As notícias são falsas. O primeiro-ministro não recebeu qualquer aviso dos Emirados Árabes Unidos antes de 7 de outubro”, lê-se num comunicado, que admite, no entanto, a possibilidade de terem sido trocadas mensagens entre os dois países através de canais de comunicação das secretas.

Falha estratégica básica

O antigo porta-voz do governo israelita Eylon Levy disse à Euronews que os ataques de 7 de outubro representaram uma “falha estratégica” de Israel.

“Se esta notícia for verdadeira, é difícil explicar porque é que ele não transmitiu essa informação, a não ser que não a considerasse credível. E isso deve-se ao facto de Netanyahu estar realmente convencido de que o Hamas estava refreado”, afirmou Levy.

“Tratou-se de uma falha estratégica básica, ao não se compreender a natureza do inimigo que Israel enfrentava, as suas verdadeiras intenções e capacidades reais”.

Os israelitas vão às urnas a 27 de outubro para umas eleições legislativas que vão determinar a composição dos 120 lugares do Knesset (parlamento).

No dia da votação, os eleitores escolhem um partido político e a respetiva lista, em vez de votarem diretamente em candidatos individuais.

Questionado sobre o impacto da notícia do Haaretz sobre as hipóteses de Netanyahu nas eleições, Levy disse à Euronews ser “demasiado cedo” para o excluir, mas que o voto vai ser, em última instância, sobre a “responsabilidade por 7 de outubro”.

Netanyahu tem, até agora, rejeitado vários apelos para uma comissão de inquérito oficial sobre os acontecimentos em torno do ataque de 7 de outubro, após outras críticas à forma como geriu a crise.

Durante o ataque surpresa de 7 de outubro de 2023, no sul de Israel, militantes liderados pelo Hamas mataram cerca de 1200 pessoas e fizeram 251 reféns, desencadeando uma guerra entre Israel e o Hamas em Gaza, que terminou com um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos em outubro de 2025.

[Diz o ABC da geoestratégia e do cálculo político que são necessários dois para dançar o tango. Nesse caso, não é evidente se estes acontecimentos resultaram de uma instigação deliberada e maliciosa por parte de Israel, ou se constituíram antes o aproveitamento de uma oportunidade excecional para reforçar a sua supremacia regional — em particular perante o Irão, o seu inimigo simbólico e estrutural da sua democracia — e conquistar e consolidar território na Palestina. (Os outros territórios: a Jordânia ou da Arábia Saudita, por exemplo, virão num futuro próximo).

A data do ataque não poderia ter sido mais conveniente: decorria um festival de música com milhares de jovens inúteis e descartáveis, muitos deles estrangeiros, oferecendo o cenário ideal para maximizar o impacto mediático junto da opinião pública internacional, nas Nações Unidas e em visitas oficiais: Netanyahu exibia, então, como cenouras vexatórias, fotografias emolduradas de reféns. A operação dos pagers explosivos destinados ao Hezbollah estava em marcha. A lista de alvos para destruição já definida, como ficou patente na explosão de parte do aeroporto internacional de Alepo. A recolha de inteligência sobre os inimigos da região encontrava-se bastante avançada. Reinava a confiança — sustentada no investimento feito — na reeleição de Trump e na derrota de Kamala Harris. Os sistemas de defesa israelitas na fronteira de Gaza estavam, misteriosamente, de férias ou avariados, e os palestinianos entraram em Israel com a facilidade de quem entra num Starbucks.

Dificilmente poderia ter sido escolhido um momento mais propício para uma operação moldada e mediatizada para o “mundo livre” como o horror dos “40 bebés decapitados” — imagem-choque, incontestável, da barbárie atribuída a monstros.

A historiografia da guerra ensina, contudo, que tais ficções fundadoras cumprem uma função específica: mobilizar a emoção coletiva, obliterar dúvidas críticas e legitimar respostas militares desproporcionais. Desde a Primeira Guerra Mundial, com a difusão das histórias das “mãos cortadas de crianças belgas”, até à “incubadora do Kuwait” em 1990, que serviu para justificar a intervenção norte-americana no Golfo, a utilização de imagens de inocência violentada constitui uma das técnicas mais eficazes de propaganda de guerra (Ellul, Propaganda, 1962; Herman & Chomsky, Manufacturing Consent, 1988).

Assim, mais do que um simples acontecimento trágico, este episódio insere-se num padrão reconhecível: o da manipulação mediática enquanto instrumento estratégico de poder, onde o horror é moldado e amplificado para sustentar propaganda política e imperialista.

Numa abordagem mais de acordo com a realidade no terreno, Israel nunca divulgou quantos dos seus agentes integravam o holocaústrico ataque do grupo islamita a 7 de outubro de 2023, nem quantas das 1200 pessoas foram, de facto, mortas pelo Hamas e quantas pelas forças armadas e polícia israelitas através da ativação do Protocolo Hannibal. Numa era em que os serviços secretos monopolizam a informação e moldam a perceção do real, resta ao cidadão comum, desprovido de acesso aos briefings confidenciais, um último bastião de liberdade: a lógica aristotélica. Pois, como ensinava o velho Estagirita, o que se contradiz não pode ser verdadeiro. E assim, no meio do ruído e da manipulação, só o que resiste à razão merece ser acreditado. Simplesmente, é ilógico e um atentado à inteligência dos consumidores de informação mediatizada, que os israelitas tenham informações minuciosas, ao mais ínfimo detalhe, sobre o Hezbollah, a Síria, os houthis, o Irão e até sobre os americanos, e, numa falha absurda, viviam na mais perfeita ignorância sobre planeamentos operacionais do Hamas, quando têm uma brigada, a Duvdevan, especificamente treinada para infiltração no grupo.

A justificação do erro humano do embaixador Oren Rozenblat é simplesmente pateta e ridícula: "E nós estávamos dormindo. Especialmente pensando que outras pessoas deveriam pensar como nós. Eles, não. Eles têm princípios de religião extremos. Sacrificar as suas vidas para destruir Israel é mais importante do que os filhos. E esse foi o nosso erro.”

Uma variante desta versão da “soneca do embaixador” afirma que, em Israel, predominava um deslumbrado otimismo gerado pelos Acordos de Abraão, e que ninguém acreditava que o Hamas pudesse parar o ímpeto negocial de Donald Trump, através da sua vedeta jet set Jared Kushner, na reconciliação dos países árabes com os israelitas.

A outra justificação, a do erro informático, é LOL: um inquérito israelita concluiu que a polícia recebeu com várias horas de atraso um aviso crucial do Shin Bet sobre atividades suspeitas do Hamas em Gaza, devido a uma atualização dos sistemas de comunicação realizada na noite anterior ao ataque de 7 de outubro de 2023. O alerta, emitido às 3h03, destinava-se às Forças de Defesa de Israel, ao Conselho de Segurança Nacional e à polícia, depois de o Shin Bet detetar membros do Hamas a ativar cartões SIM israelitas. No entanto, a falha técnica impediu que a polícia fosse informada antes do início do ataque.

A investigação procurou esclarecer a discrepância entre os serviços secretos, que afirmavam ter transmitido o aviso em tempo útil, e a polícia, que alegava só o ter recebido quando já era demasiado tarde. A causa do atraso — a atualização do sistema — só foi descoberta posteriormente, durante o próprio inquérito.

Finalmente, o relatório oficial, que encerra o caso, capricha a tecla da sequência de azares. Concluiu que havia uma "falha sistémica e organizacional de longa data" no seio do Exército, nomeadamente uma "discrepância entre a realidade estratégica e operacional e a perceção (...) da realidade relativa à Faixa de Gaza e ao Hamas".

O documento destacou igualmente uma "falha de inteligência" militar na sua "incapacidade de dar o alerta", mesmo quando o Exército dispunha de informações "excecionais e de elevada qualidade".

Lamentando os "processos deficientes de tomada de decisão e de destacamento das forças na noite de 7 de outubro de 2023", o comité apontou falhas ao nível do Estado-Maior, da direção de operações, da direção de informações militares, do Comando Sul, mas também da Força Aérea e da Marinha].

A ofensiva israelita provocou a morte de mais de 73 600 palestinianos na Faixa de Gaza, de acordo com o ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, cujos dados não distinguem entre civis e combatentes.

As Nações Unidas consideram estes números fiáveis e responsáveis israelitas reconheceram entretanto que as estimativas são, em linhas gerais, corretas.

Centenas de israelitas, sobretudo soldados, foram mortos nos combates nas frentes de Gaza, Líbano e Irão.

Fonte: Euronews, 8 de setembro de 2026

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