Escândalo de financiamento ilegal abala Nigel Farage

Dois dos assessores mais próximos de Nigel Farage demitiram-se após terem sido apanhados numa operação de infiltração jornalística sobre o financiamento do Reform UK, reporta a imprensa britânica nesta sexta-feira.

O arranque do dia principal da convenção do partido em Birmingham, esta sexta-feira, foi abalado pelas saídas de Dan Jukes, histórico responsável de comunicação de Farage, e de James Orr, o seu principal assessor político.

A dupla afastou-se no âmbito de um inquérito interno do partido, instaurado depois de o canal Channel 4 ter transmitido imagens que aparentam mostrá-los a aceitar doações de um estrangeiro através de um intermediário no Reino Unido. Especialistas alertam que aceitar o dinheiro e tentar ocultar a sua origem pode constituir uma violação da lei eleitoral britânica.

A presidente do Partido Trabalhista, Bridget Phillipson, já remeteu o caso para a Polícia Metropolitana de Londres, embora as autoridades ainda não tenham aberto uma investigação formal.

Em declarações oficiais, citadas pelo Politico, um porta-voz do Reform UK afirmou: “O Reform UK abriu um inquérito na sequência da transmissão do programa da Channel 4 News. Ambos os indivíduos envolvidos afastaram-se dos seus cargos enquanto aguardam o resultado da investigação. O partido considera fundamental que o processo decorra de forma independente e sem prejuízo. Não serão feitos mais comentários enquanto o inquérito estiver em curso.”

As demissões representam uma reviravolta radical na postura do partido. Na noite anterior, o Reform UK tinha optado por passar ao ataque, alegando que Jukes, Orr e o próprio Farage — que também surge nas gravações — tinham sido “alvo de um embuste orquestrado por ativistas do clima financiados pelo estrangeiro”, negando qualquer irregularidade.

As imagens divulgadas pela Channel 4 foram recolhidas pela Verbatim, uma organização de jornalismo de investigação associada ao Center for Climate Reporting.

A reportagem mostra Farage — que discursa esta sexta-feira no encerramento da convenção — a reunir-se com jornalistas disfarçados de investidores americanos abastados (pai e filho) e a agradecer-lhes o apoio. Ao abrigo da lei eleitoral do Reino Unido, cidadãos norte-americanos não estão autorizados a fazer doações políticas.

Segundo a Channel 4 News, os supostos doadores já teriam financiado com 32 500 libras (cerca de 37.842 euros) várias sondagens encomendadas pelo Reform UK. Os resultados acabaram publicados na imprensa nacional sem qualquer menção ao envolvimento do partido, e este benefício em espécie não foi declarado à Comissão Eleitoral.

O Partido Trabalhista aproveitou o caso para criticar o partido da oposição. “Temos regras muito rigorosas no nosso país por uma razão: garantir que os cidadãos confiam no sistema eleitoral e na democracia”, afirmou a ministra da Educação, Lucy Powell, à Times Radio. “O que vemos, uma e outra vez, é o Reform a agir como se estas regras não se aplicassem a eles.”

Por sua vez, o presidente do Reform UK, Lee Anderson, defendeu que Farage não tem mais explicações a dar, embora reconheça que o escândalo é uma “distração” indesejada em pleno congresso. “As duas pessoas envolvidas já saíram. Deixaram o edifício”, declarou à Times Radio. “Afastaram-se e essa era a decisão correta. Não vão voltar e Nigel não vai a lado nenhum.”

A saída dos dois conselheiros representa um duro golpe para Farage. James Orr, aliado no Reino Unido do vice-presidente norte-americano JD Vance, tinha sido nomeado diretor de políticas há apenas alguns meses. Já Dan Jukes era o seu assessor de imprensa de longa data, acompanhando-o desde os tempos em que liderava o partido eurocético UKIP.

Fonte: Observador, 4 de setembro de 2026

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