França recua no depósito com reembolso para garrafas de plástico. Portugal insiste no Volta
Forte
oposição à aplicação de um plano semelhante ao sistema português Volta levou o governo
francês a optar por um modelo voluntário. A UE quer reduzir o impacto ambiental
das embalagens de plástico
Embora os modelos não sejam idênticos, os objetivos são
semelhantes. Enquanto Portugal avançou neste ano com o sistema Volta para
incentivar a devolução de embalagens de bebidas, o governo francês desistiu de
impor um modelo nacional obrigatório de depósito com reembolso para garrafas de
plástico. Em vez disso, passará a permitir que os territórios que o desejem
criem sistemas próprios, renunciando a uma solução uniforme em todo o país.
A decisão foi tomada após três meses de consultas com
autarquias, empresas de bebidas e operadores de reciclagem, travando um projeto
relançado em maio pelo presidente Emmanuel Macron, que via na medida uma forma
de aumentar a recolha e a reciclagem destas embalagens.
O modelo em discussão previa que os consumidores pagassem um
pequeno depósito no momento da compra e recuperassem esse valor ao devolverem a
embalagem vazia num ponto de recolha, à semelhança do que sucede noutros países
europeus. Contudo, a proposta encontrou forte oposição por parte das autarquias
francesas.
A oposição
Segundo o Le Monde, um dos principais receios
prendia-se com o possível impacto que a medida teria nos sistemas municipais de
gestão de resíduos. O argumento económico era o mais relevante: a retirada das garrafas de plástico dos circuitos
tradicionais de recolha privaria os municípios de uma das frações mais valiosas dos resíduos,
apesar dos investimentos realizados nos últimos anos em centros de triagem e infraestruturas
de recolha seletiva.
A oposição tornou-se particularmente visível no final de junho.
Segundo a AFP, representantes das autarquias abandonaram uma reunião promovida
pelo ministério da Transição Ecológica, e vários responsáveis classificaram a
proposta como um “absurdo”, acusando o executivo de promover uma operação de
greenwashing.
Perante esta pressão, o governo acabou por recuar na sua
intenção de generalizar o sistema a todo o território francês. Numa notícia do La
Croix, baseada num comunicado oficial do governo, o ministro delegado para
a Economia Circular, Mathieu Lefèvre,
afirmou que o executivo optou por uma abordagem “territorializada”,
justificando a decisão com a necessidade de não penalizar municípios que já
apresentam bons resultados na recolha de embalagens.
Entre os opositores da medida esteve também Corentin Duprey,
presidente do Syctom, uma das principais entidades de gestão de resíduos da
região parisiense. Citado pela AFP, Duprey argumentou que o exemplo alemão, frequentemente apresentado
como referência neste tipo de sistemas, não impediu o aumento da produção de
plástico naquele país.
Problemas em Portugal
A decisão francesa contrasta com a estratégia portuguesa.
Desde abril está em funcionamento em Portugal o sistema Volta, que abrange
garrafas de plástico e latas até três litros e prevê a devolução de dez
cêntimos por embalagem entregue num ponto de recolha.
Os primeiros meses de funcionamento foram marcados por
algumas dificuldades, incluindo episódios de contentores remexidos e lixo
espalhado na via pública por pessoas à procura de embalagens com valor de
reembolso. Ainda assim, a SDR Portugal anunciou em julho que já tinham sido
devolvidas 100 milhões de embalagens, correspondendo a uma taxa de recolha de cerca de 38%.
Na semana passada, a ministra do Ambiente, Maria da Graça
Carvalho, reconheceu problemas na implementação do sistema, mas garantiu que
estão a ser encontradas soluções. Recordou que Portugal
foi o 18.º país europeu a adotar este modelo, inspirado no que
se passa na Noruega.
Divergências de escala
A decisão francesa não representa um abandono definitivo dos
sistemas de depósito com reembolso. O que Paris rejeitou foi a sua imposição à
escala nacional. A partir de agora, a criação destes mecanismos dependerá da
iniciativa dos municípios que entendam adotá-los.
Mais do que uma oposição ao princípio do depósito com
reembolso, a decisão francesa reflete uma divergência sobre a escala a que o
sistema deve ser aplicado e sobre o papel das autarquias na gestão dos
resíduos. Enquanto Portugal optou por um modelo nacional obrigatório, França
decidiu deixar essa escolha nas mãos dos territórios.
O debate ocorre num momento em que a União Europeia procura reduzir o impacto ambiental das
embalagens. A nova legislação visa reduzir esse impacto e deverá
proibir as embalagens de plástico de uso único para a maioria das frutas e
legumes frescos com peso inferior a 1,5 kg a partir de 2030. A lei exige também
que 10% da maioria das bebidas seja vendida em embalagens reutilizáveis até
2030.
Fonte: Público, 8 de setembro de 2026

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