Ministro israelita ameaça retirar nacionalidade a realizadores do documentário "Naza", premiado no Festival de Veneza


O filme, com 80 minutos de duração, aborda a alegada estratégia por detrás da matança em massa e calculada de civis palestinianos em Gaza por parte de Israel

O ministro israelita da Cultura, Miki Zohar, disse no domingo que vai trabalhar para tentar revogar a nacionalidade aos realizadores do documentário ‘Naza’, que recebeu no sábado o Prémio Especial do Júri do Festival de Veneza por mostrar a alegada estratégia de Israel para destruir a Faixa de Gaza.

“Como ministro da Cultura, vou agir de imediato para revogar a cidadania israelita destes criadores vis por traição ao país”, disse Zohar numa mensagem publicada na rede social X sobre os realizadores do filme, Yuval Abraham e Rachel Szor.

Zohar acusou os cineastas de terem um “ódio autodestrutivo ardente” e de estarem “dispostos a prejudicar a sua pátria para receber aplausos dos antissemitas do mundo”, o que, segundo o ministro, “constitui uma traição ao país”.

Por sua vez, o ministro da Segurança Nacional, o ultradireitista Itamar Ben Gvir, escreveu também na rede social X que Abraham e Szor “são uma vergonha e uma desonra para todo o povo de Israel”.

“Desapareçam. Tenho a certeza de que os vossos amigos, os nossos inimigos do Hamas em Gaza, vos receberão de braços abertos”, disse Ben Gvir aos cineastas.

O filme, com 80 minutos de duração, aborda a alegada estratégia por detrás da matança em massa e calculada de civis palestinianos em Gaza por parte de Israel.

A estreia em Veneza, na quinta-feira, foi recebida com uma forte ovação por parte do público.

Abraham e Szor fizeram parte da equipa do filme vencedor do Óscar ‘No Other Land’ (2024). O novo projeto entrou na corrida pelo Leão de Ouro sob aplausos, depois de o festival o ter aceite ‘in extremis’, uma semana antes do início do certame.

O ‘Naza’ do título é o termo utilizado pelos comandos e pelos serviços de informações israelitas para designar as “vítimas colaterais” dos bombardeamentos que devastaram Gaza após os ataques de 7 de outubro de 2023 contra Israel, perpetrados pelo Hamas e outros grupos islamistas palestinianos, nos quais morreram 1200 pessoas e outras 250 foram sequestradas e levadas para a Faixa.

[Os olhos começam a abrir-se para o facto de Netanyahu saber antecipadamente do odiento ataque, com certeza, que não era o único. Agora falta avançar para o resto da história até todas as peças fazerem sentido.

Diz o ABC da geoestratégia e do cálculo político que são necessários dois para dançar o tango. Nesse caso, não é evidente se estes acontecimentos resultaram de uma instigação deliberada e maliciosa por parte de Israel, ou se constituíram antes o aproveitamento de uma oportunidade excecional para reforçar a sua supremacia regional — em particular perante o Irão, o seu inimigo simbólico e estrutural da sua democracia — e conquistar e consolidar território na Palestina. (Os outros territórios: a Jordânia ou da Arábia Saudita, por exemplo, virão num futuro próximo).

A data do ataque não poderia ter sido mais conveniente: decorria um festival de música com milhares de jovens inúteis e descartáveis, muitos deles estrangeiros, oferecendo o cenário ideal para maximizar o impacto mediático junto da opinião pública internacional, nas Nações Unidas e em visitas oficiais: Netanyahu exibia, então, como cenouras vexatórias, fotografias emolduradas de reféns. A operação dos pagers explosivos destinados ao Hezbollah estava em marcha. A lista de alvos para destruição já definida, como ficou patente na explosão de parte do aeroporto internacional de Alepo. A recolha de inteligência sobre os inimigos da região encontrava-se bastante avançada. Reinava a confiança — sustentada no investimento feito — na reeleição de Trump e na derrota de Kamala Harris. Os sistemas de defesa israelitas na fronteira de Gaza estavam, misteriosamente, de férias ou avariados, e os palestinianos entraram em Israel com a facilidade de quem entra num Starbucks.

Dificilmente poderia ter sido escolhido um momento mais propício para uma operação moldada e mediatizada para o “mundo livre” como o horror dos “40 bebés decapitados” — imagem-choque, incontestável, da barbárie atribuída a monstros.

A historiografia da guerra ensina, contudo, que tais ficções fundadoras cumprem uma função específica: mobilizar a emoção coletiva, obliterar dúvidas críticas e legitimar respostas militares desproporcionais. Desde a Primeira Guerra Mundial, com a difusão das histórias das “mãos cortadas de crianças belgas”, até à “incubadora do Kuwait” em 1990, que serviu para justificar a intervenção norte-americana no Golfo, a utilização de imagens de inocência violentada constitui uma das técnicas mais eficazes de propaganda de guerra (Ellul, Propaganda, 1962; Herman & Chomsky, Manufacturing Consent, 1988).

Assim, mais do que um simples acontecimento trágico, este episódio insere-se num padrão reconhecível: o da manipulação mediática enquanto instrumento estratégico de poder, onde o horror é moldado e amplificado para sustentar propaganda política e imperialista.

Numa abordagem mais de acordo com a realidade no terreno, Israel nunca divulgou quantos dos seus agentes integravam o holocaústrico ataque do grupo islamita a 7 de outubro de 2023, nem quantas das 1200 pessoas foram, de facto, mortas pelo Hamas e quantas pelas forças armadas e polícia israelitas através da ativação do Protocolo Hannibal. Numa era em que os serviços secretos monopolizam a informação e moldam a perceção do real, resta ao cidadão comum, desprovido de acesso aos briefings confidenciais, um último bastião de liberdade: a lógica aristotélica. Pois, como ensinava o velho Estagirita, o que se contradiz não pode ser verdadeiro. E assim, no meio do ruído e da manipulação, só o que resiste à razão merece ser acreditado. Simplesmente, é ilógico e um atentado à inteligência dos consumidores de informação mediatizada, que os israelitas tenham informações minuciosas, ao mais ínfimo detalhe, sobre o Hezbollah, a Síria, os houthis, o Irão e até sobre os americanos, e, numa falha absurda, viviam na mais perfeita ignorância sobre planeamentos operacionais do Hamas, quando têm uma brigada, a Duvdevan, especificamente treinada para infiltração no grupo.

A justificação do erro humano do embaixador Oren Rozenblat é simplesmente pateta e ridícula: "E nós estávamos dormindo. Especialmente pensando que outras pessoas deveriam pensar como nós. Eles, não. Eles têm princípios de religião extremos. Sacrificar as suas vidas para destruir Israel é mais importante do que os filhos. E esse foi o nosso erro.”

Uma variante desta versão da “soneca do embaixador” afirma que, em Israel, predominava um deslumbrado otimismo gerado pelos Acordos de Abraão, e que ninguém acreditava que o Hamas pudesse parar o ímpeto negocial de Donald Trump, através da sua vedeta jet set Jared Kushner, na reconciliação dos países árabes com os israelitas.

A outra justificação, a do erro informático, é LOL: um inquérito israelita concluiu que a polícia recebeu com várias horas de atraso um aviso crucial do Shin Bet sobre atividades suspeitas do Hamas em Gaza, devido a uma atualização dos sistemas de comunicação realizada na noite anterior ao ataque de 7 de outubro de 2023. O alerta, emitido às 3h03, destinava-se às Forças de Defesa de Israel, ao Conselho de Segurança Nacional e à polícia, depois de o Shin Bet detetar membros do Hamas a ativar cartões SIM israelitas. No entanto, a falha técnica impediu que a polícia fosse informada antes do início do ataque.

A investigação procurou esclarecer a discrepância entre os serviços secretos, que afirmavam ter transmitido o aviso em tempo útil, e a polícia, que alegava só o ter recebido quando já era demasiado tarde. A causa do atraso — a atualização do sistema — só foi descoberta posteriormente, durante o próprio inquérito.

Finalmente, o relatório oficial, que encerra o caso, capricha a tecla da sequência de azares. Concluiu que havia uma "falha sistémica e organizacional de longa data" no seio do Exército, nomeadamente uma "discrepância entre a realidade estratégica e operacional e a perceção (...) da realidade relativa à Faixa de Gaza e ao Hamas".

O documento destacou igualmente uma "falha de inteligência" militar na sua "incapacidade de dar o alerta", mesmo quando o Exército dispunha de informações "excecionais e de elevada qualidade".

Lamentando os "processos deficientes de tomada de decisão e de destacamento das forças na noite de 7 de outubro de 2023", o comité apontou falhas ao nível do Estado-Maior, da direção de operações, da direção de informações militares, do Comando Sul, mas também da Força Aérea e da Marinha].

O número de vítimas no enclave palestiniano ascende, por sua vez, a mais de 73 000, segundo as autoridades locais, controladas pelo Hamas.

As Forças de Defesa de Israel (FDI) contrariaram o documentário na sexta-feira, ao afirmar num comunicado que as decisões relativas aos bombardeamentos de Gaza são sempre tomadas por pessoas e não por inteligência artificial (IA), como é apresentado no filme com base em testemunhos de oficiais dos serviços de informações e soldados israelitas.

Fonte: CNN Portugal, 14 de setembro de 2026

IDF analisam possibilidade de ações judiciais contra o filme "NAZA" e investigam a fuga de informações confidenciais

O chefe das Forças de Defesa de Israel (IDF), Eyal Zamir, afirmou ter instruído o principal oficial jurídico das Forças Armadas para examinar a possibilidade de tomar medidas legais contra o documentário “NAZA” e os envolvidos na sua produção, além de ordenar uma investigação sobre a fuga de materiais confidenciais utilizados no documentário, informa o Times of Israel.

Zamir realizou hoje uma reunião com altos oficiais militares para discutir o novo documentário, que contém alegações de que Israel ordenou ataques com inteligência artificial na Faixa de Gaza, resultando em mortes de civis.

As IDF rejeitaram as alegações do filme, com base em excertos e num clipe promocional disponíveis ao público, mas ainda não assistiram ao documentário completo. As Forças Armadas solicitaram uma exibição para poderem analisar as alegações do filme na sua totalidade.

“De acordo com os relatos que surgiram até à data, este não é um filme que critica as IDF e não procura apurar a verdade. Baseia-se em calúnias de sangue, distorção deliberada da realidade e acusações falsas e graves contra soldados e comandantes das FDI”, declarou Zamir em comunicado, afirmando ainda que o filme “adota as narrativas dos que odeiam Israel, difama os nossos soldados e comandantes e procura retratar as Forças de Defesa de Israel como agindo deliberadamente de forma ilegal”.

“Esta é uma tentativa perigosa de nos privar da legitimidade para nos defendermos contra os piores dos nossos inimigos e, ao fazê-lo, representar um perigo real para os soldados e comandantes das Forças de Defesa de Israel”, continua Zamir. “Não permitiremos que os soldados das Forças de Defesa de Israel sejam transformados em alvos através de mentiras e calúnias de sangue. Perante tal tentativa, devemos agir com firmeza, utilizando todas as ferramentas ao nosso dispor: legais, de comando e de diplomacia pública”, acrescenta.

No final da reunião, Zamir ordenou a criação de uma “equipa multiorganizacional e multidisciplinar”, chefiada pela Direção de Planeamento, para “formular planos de ação e ferramentas para lidar com as falsas acusações contra as Forças de Defesa de Israel e os seus soldados, em cooperação com especialistas de Israel e de todo o mundo”.

Deu ainda instruções ao procurador-geral militar, Itai Ofir, para “examinar e encaminhar possíveis ações legais referentes ao filme e aos envolvidos no mesmo… devido à disseminação de falsas alegações contra soldados das Forças de Defesa de Israel e às suas possíveis implicações para a sua segurança pessoal e para a segurança do Estado”.

Por fim, Zamir instruiu a alta cúpula militar para examinar “os aspetos de segurança da informação e os possíveis indivíduos envolvidos na fuga de materiais confidenciais utilizados na produção do filme”.

Fonte: CNN Portugal, 14 de setembro de 2026

Netanyahu diz que documentário israelita "Naza" é "intolerável"

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu considerou "intolerável" o documentário israelita "Naza", que recebeu este fim de semana o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Veneza por mostrar a suposta estratégia do exército israelita para destruir a Faixa de Gaza.

"Ouvi falar disso (do documentário) e é absurdo. Lutamos contra a incitação antissemita globalmente, mas quando vem das nossas próprias fileiras, é simplesmente intolerável", disse Netanyahu num vídeo publicado na rede social X.

O documentário foi dirigido pelos israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor, que fizeram parte da equipa do vencedor do Oscar 'No Other Land' (2024).

Fonte: CNN Portugal, 14 de setembro de 2026

Como sempre, os arcessemitas propagam mentiras, para amplificar o antissemitismo, e terem ferramentas de propaganda e chantagem sobre os  líderes excecionalmente fracos mundiais.

Como Israel utiliza a IA em Gaza — e o que isso pode significar para o futuro da guerra

A guerra da IA ​​pode evocar imagens de robôs assassinos e drones autónomos, mas uma realidade diferente está a desenrolar-se na Faixa de Gaza. Aí, a inteligência artificial tem sugerido alvos na campanha de retaliação de Israel para erradicar o Hamas após o ataque do grupo a 7 de outubro de 2023. Um programa conhecido como "The Gospel" gera sugestões de edifícios e estruturas onde os militantes podem estar a operar. "Lavender" está programado para identificar suspeitos do Hamas e de outros grupos armados para assassinato, desde comandantes a soldados de infantaria. O sistema conhecido como “Where’s Daddy?alegadamente acompanha os movimentos dos alvos através da monitorização dos seus telemóveis, com o objetivo de os localizar — muitas vezes nas suas próprias casas, onde a simples presença é tida como confirmação da identidade. O ataque aéreo que se segue pode matar todos os membros da família do alvo, senão todos os habitantes do prédio.

Estes programas, que as Forças de Defesa de Israel (IDF) reconheceram estar a desenvolver, podem ajudar a explicar o ritmo da campanha de bombardeamentos mais devastadora do século XXI, na qual mais de 44 mil palestinianos foram mortos, segundo o ministério da Saúde de Gaza, gerido pelo Hamas, cuja contagem é considerada fiável pelos EUA e pela ONU. Nas guerras anteriores em Gaza, os veteranos militares israelitas dizem que os ataques aéreos ocorreram a um ritmo muito mais lento.

“Durante o período em que servi na sala de alvos [entre 2010 e 2015], era necessária uma equipa de cerca de 20 oficiais dos serviços de informação a trabalhar durante cerca de 250 dias para reunir algo entre 200 e 250 alvos”, disse Tal Mimran, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e antigo consultor jurídico das Forças de Defesa de Israel (IDF), à TIME. “Hoje, a IA vai fazê-lo em uma semana.”

Os especialistas em leis da guerra, já alarmados com o aparecimento da IA ​​em ambientes militares, dizem estar preocupados que a sua utilização em Gaza, tal como na Ucrânia, possa estar a estabelecer novas normas perigosas que podem tornar-se permanentes se não forem contestadas.

Os tratados que regem os conflitos armados não são específicos no que diz respeito às ferramentas utilizadas para gerar efeitos militares. Os elementos do direito internacional que abrangem a guerra — sobre proporcionalidade, precauções e distinções entre civis e combatentes — aplicam-se independentemente da arma utilizada ser uma besta ou um tanque — ou uma base de dados alimentada por IA. Mas alguns defensores, incluindo o Comité Internacional da Cruz Vermelha, argumentam que a IA requer um novo instrumento legal, referindo a necessidade crucial de garantir o controlo e a responsabilização humanos à medida que os sistemas de armas de IA se tornam mais avançados.

“O ritmo da tecnologia está a ultrapassar largamente o ritmo do desenvolvimento de políticas”, afirma Paul Scharre, vice-presidente executivo do Center for a New American Security e autor de Army of None: Autonomous Weapons and the Future of War. “É bastante provável que os tipos de sistemas de IA que vimos até agora sejam bastante modestos, na verdade, em comparação com os que provavelmente surgirão num futuro próximo.”

Os sistemas de IA que as FDI utilizam em Gaza foram detalhados pela primeira vez há um ano no site de notícias online israelita +972 Magazine, que partilhou a sua reportagem com o The Guardian. Yuval Abraham, o jornalista e cineasta israelita por detrás da investigação, disse à TIME acreditar que a decisão de "bombardear casas particulares de forma sistémica" é "o principal fator para as vítimas civis em Gaza". Esta decisão foi tomada por humanos, sublinha, mas diz que os programas de segmentação por IA permitiram às FDI "pegar nesta prática extremamente mortífera e multiplicá-la a uma escala muito grande". Abraham, cuja reportagem se baseia em conversas com seis oficiais de inteligência israelitas com experiência direta em operações em Gaza após 7 de outubro, citou agentes de seleção de alvos que afirmaram ter-se visto a depender do programa Lavender, apesar de saberem que este gera sugestões de alvos incorretas em cerca de 10% dos casos.

Um oficial dos serviços de informação encarregado de autorizar um ataque recordou que dedicou cerca de 20 segundos a confirmar pessoalmente um alvo, o que poderia equivaler a verificar se o indivíduo em causa era do sexo masculino.

Em resposta ao relatório +972, o exército israelita afirmou que a sua utilização de IA é mal compreendida, afirmando numa declaração de junho que o Gospel e o Lavender apenas "ajudam os analistas de informações a rever e analisar a informação existente. Não constituem a única base para determinar alvos elegíveis para ataque e não selecionam alvos para ataque de forma autónoma". Numa conferência em Jerusalém, em maio, um alto responsável militar tentou minimizar a importância das ferramentas, que comparou a "fichas de trabalho Excel glorificadas", disseram Mimran e outra pessoa presente à TIME.

As FDI não contestaram especificamente o relato de Abraham sobre a taxa de erro de 10% do Lavender, ou que um analista poderia gastar apenas 20 segundos a analisar os alvos, mas numa declaração à TIME, um porta-voz disse que os analistas "verificam se os alvos identificados cumprem as definições relevantes de acordo com o direito internacional e restrições adicionais estipuladas nas diretrizes das FDI".

Converter dados em listas de alvos não é incompatível com as leis da guerra. De facto, um académico de West Point, avaliando os programas israelitas, observou que mais informação poderia resultar numa maior precisão. Segundo alguns relatos contemporâneos, este pode ter sido o caso da última vez que Israel entrou em guerra em Gaza, em 2021. Este breve conflito marcou, aparentemente, a primeira vez que as FDI usaram inteligência artificial numa guerra e, depois, o então chefe da UNRWA, a agência da ONU que fornece cuidados de saúde, educação e defesa aos palestinianos, comentou "uma enorme sofisticação na forma como os militares israelitas atacaram nos últimos 11 dias". Mas a ronda de combate de 2021, que resultou em 232 mortes de palestinianos, foi um tipo de guerra diferente. A operação foi travada ao abrigo das regras de combate israelitas, alegadamente destinadas a minimizar as baixas civis, incluindo "bater à porta" — lançar uma pequena carga para o telhado de um edifício para avisar os ocupantes de que estava prestes a ser destruído e deveria ser evacuado.

Na atual guerra, iniciada há mais de 14 meses para retaliar o pior ataque aos judeus desde o Holocausto, os dirigentes israelitas cortaram o fornecimento de água e energia a toda a Gaza, lançaram 6000 ataques aéreos no espaço de apenas cinco dias e suspenderam algumas medidas destinadas a limitar as baixas civis. "Desta vez, não vamos 'bater no telhado' e pedir-lhes que evacuem as casas", disse o ex-chefe dos serviços de informação militares israelitas, Amos Yadlin, à TIME cinco dias depois do 7 de outubro, alertando que as próximas semanas seriam "muito sangrentas" em Gaza. "Vamos atacar todos os operacionais do Hamas, especialmente os líderes, e garantir que pensarão duas vezes antes mesmo de considerar atacar Israel." Segundo Abraham, os oficiais de seleção de alvos foram informados de que seria aceitável matar entre 15 a 20 civis não combatentes para eliminar um soldado do Hamas (sendo que, em conflitos anteriores, o número permitido era zero), e até 100 civis para eliminar um comandante. As Forças de Defesa de Israel (IDF) não comentaram esses números.

Especialistas alertam que, com a geração de alvos a cargo da inteligência artificial, o número de mortos pode aumentar ainda mais. Apontam para o fenómeno do “viés da automatização” — a presunção de que as informações fornecidas pela IA são corretas e fiáveis, a menos que se prove o contrário, em vez de se assumir o ceticismo como ponto de partida. Abraham afirma que as suas fontes relataram situações em que fizeram exatamente essa suposição. “Sim, há um ser humano no circuito”, diz Abraham, “mas se esse envolvimento ocorre numa fase tardia, depois de a IA já ter tomado as decisões, e serve apenas para carimbar formalmente o processo, então não é uma supervisão eficaz.”

O antigo chefe das Forças de Defesa de Israel (FDI), Aviv Kochavi, fez uma observação semelhante numa entrevista ao site de notícias israelita Ynet, seis meses antes de 7 de outubro. "A preocupação", disse, falando da IA ​​de forma ampla, "não é que os robôs assumam o controlo sobre nós, mas que a inteligência artificial nos suplantará, sem que nos apercebamos de que está a controlar as nossas mentes".

Adil Haque, editor executivo do blogue Just Security sobre direito da segurança nacional e autor de Law and Morality at War, descreveu a tensão em jogo: “A dinâmica psicológica aqui entra em choque com a norma legal”, afirma. “Do ponto de vista jurídico, parte-se do princípio de que não se pode atacar uma pessoa sem provas muito sólidas de que se trata de um alvo legítimo. Mas, psicologicamente, o efeito de alguns destes sistemas pode ser o de levar o utilizador a presumir que o indivíduo é um alvo legítimo — a menos que exista uma indicação muito evidente, obtida de forma independente, de que não o é.”

Israel está longe de ser o único país que utiliza inteligência artificial nas suas forças armadas. Dezenas de empresas de tecnologia de defesa operam na Ucrânia, onde o software desenvolvido pela empresa Palantir Technologies, de Silicon Valley, "é responsável pela maior parte dos alvos" contra a Rússia, disse o seu CEO à TIME em 2023, descrevendo programas que apresentam aos comandantes opções de alvos compiladas a partir de satélites, drones, dados de código aberto e relatórios do campo de batalha. Tal como em Israel, os especialistas observam que a utilização da IA​​pela Ucrânia tem uma "função predominantemente de apoio e informação" e que os tipos de tecnologia que estão a ser testados, desde sistemas de artilharia alimentados por IA a drones guiados por IA, ainda não são totalmente autónomos. Mas há muitas preocupações sobre o possível uso indevido, especialmente em questões relacionadas com a precisão e a privacidade.

Anna Mysyshyn, especialista em políticas de IA e diretora do Instituto de Governação Inovadora, uma ONG e órgão de supervisão do ministério da Transformação Digital da Ucrânia, disse à TIME que, embora as "tecnologias de utilização dupla", como o sistema de reconhecimento facial Clearview AI, desempenhem um papel importante na defesa da Ucrânia, ainda existem preocupações sobre a sua utilização para além da guerra. “Estamos a falar sobre… como equilibrar a utilização de tecnologias que têm vantagens no campo de batalha [com] a proteção dos direitos humanos”, diz ela, referindo que “a regulamentação destas tecnologias é complicada pela necessidade de equilibrar a necessidade militar com a proteção civil”.

Com os combates confinados em grande parte aos campos de batalha, onde as forças russas e ucranianas estão entrincheiradas, as questões que animam o debate em Gaza não estão em primeiro plano. Mas qualquer país com forças armadas avançadas — incluindo os EUA — irá provavelmente enfrentar em breve os problemas associados à aprendizagem automática.

“O Congresso precisa de estar preparado para colocar barreiras às tecnologias de IA — especialmente aquelas que colocam o direito internacional humanitário em causa e ameaçam os civis”, disse o senador Peter Welch, do Vermont, numa declaração à TIME. Em setembro, ele e o senador Dick Durbin, do Illinois, escreveram uma carta ao secretário de Estado, Antony Blinken, instando o Departamento de Estado a "se envolver proactiva e publicamente na definição de normas internacionais sobre a implantação ética da tecnologia de IA". Welch apresentou também a sua proposta de Lei de Responsabilidade e Avaliação de Riscos de Armas de Inteligência Artificial (AWARE), que, se aprovada, exigiria que o Departamento de Defesa catalogasse as implementações nacionais de sistemas de IA, os riscos associados às mesmas e qualquer partilha ou exportação estrangeira destas tecnologias.

“É necessária uma abordagem mais abrangente e pública para abordar o risco das armas de IA e manter a liderança dos Estados Unidos no desenvolvimento de tecnologia ética”, diz Welch, “bem como estabelecer normas internacionais neste espaço crítico”.

Pode parecer improvável que qualquer governo encontre incentivo para introduzir restrições que também limitem os avanços das suas próprias forças armadas no processo. “Já o fizemos antes”, contrapõe Alexi Drew, conselheiro de política tecnológica do CICV, apontando para tratados sobre desarmamento, munições de fragmentação e minas terrestres. “É claro que é um desafio muito complexo de alcançar, mas não é impossível.”

Fonte: TIME, 18 de dezembro de 2024

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