Ministro radical israelita propõe esvaziar Gaza dos seus habitantes palestinianos
Em plena campanha eleitoral, o ministro israelita com a
pasta da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, divulgou esta quinta-feira uma
brochura de 20 páginas na qual apresenta planos para esvaziar a Faixa de Gaza
da sua população palestiniana, a qual seria enviada para o estrangeiro.
De acordo com a brochura, intitulada Programa Nacional de Trabalho para a Transferência
Voluntária da Faixa de Gaza, 250 mil pessoas seriam levadas a
abandonar o território no prazo de um ano, com os restantes dois milhões de palestinianos
que permanecem no território, a seguirem o mesmo caminho ao longo de seis anos.
“Devemos incentivar a emigração dos residentes de Gaza”,
declarou o Ben-Gvir em declarações difundidas pela televisão, assegurando que
não se tratava de “forçar” os palestinianos a abandonar as suas terras. O
ministro afiançou que a medida "é realista" e referiu que vários
países estavam “prontos” a acolher os habitantes de Gaza, sem, contudo,
especificar quais.
Ben-Gvir é uma figura chave e contestada do governo do primeiro-ministro de
Benjamin Netanyahu mas não é a única figura política da direita e
extrema-direita israelitas a propor a transferência dos palestinianos de Gaza.
A ideia não é nova e Ben-Gvir é somente o mais recente a
defender a medida em plena campanha eleitoral que promete ser renhida.
Esta quarta-feira, o ministro
da Defesa, Israel Katz, afirmou também que o seu país estava
preparado para transferir palestinianos habitantes de Gaza, desde que os
Estados Unidos aprovassem o plano. É uma medida que Katz tem vindo a defender
há vários meses.
Também em fevereiro, o
ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, líder de um partido de
extrema-direita, propunha mesmo o alargamento desta medida aos palestinianos da
Cisjordânia. A direita e extrema-direita de Israel integram o atual executivo
de coligação. O governo liderado por Netanyahu ainda não anunciou quaisquer
medidas concretas quanto ao esvaziamento de Gaza, estando a deixar o discurso
radical para os extremistas.
Ben-Gvir, líder do partido Poder Judaico, prometeu exigir
“um ministério dedicado à emigração” durante a formação do próximo governo,
sublinhando que o seu plano era “concreto” e “resultado de um ano e meio de
trabalho”.
A questão do futuro da Faixa de Gaza é central na campanha
para as eleições parlamentares que se realizam em Israel no dia 27 de outubro.
A deslocação forçada de uma população civil é um crime de
guerra segundo o direito internacional.
Em Gaza, a maioria dos residentes foi deslocada pela guerra
devastadora iniciada por Israel após os ataques sem precedentes de 7 de outubro
de 2023, perpetrados pelo Hamas, que mataram mais de 1200 pessoas em território
israelita.
[Diz o ABC da geoestratégia e do cálculo político que são necessários dois para dançar o tango. Nesse caso, não é evidente se estes acontecimentos resultaram de uma instigação deliberada e maliciosa por parte de Israel, ou se constituíram antes o aproveitamento de uma oportunidade excecional para reforçar a sua supremacia regional — em particular perante o Irão, o seu inimigo simbólico e estrutural da sua democracia — e conquistar e consolidar território na Palestina. (Os outros territórios: a Jordânia ou da Arábia Saudita, por exemplo, virão num futuro próximo).
A data do ataque não poderia ter sido mais conveniente: decorria um festival de música com milhares de jovens inúteis e descartáveis, muitos deles estrangeiros, oferecendo o cenário ideal para maximizar o impacto mediático junto da opinião pública internacional, nas Nações Unidas e em visitas oficiais: Netanyahu exibia, então, como cenouras vexatórias, fotografias emolduradas de reféns. A operação dos pagers explosivos destinados ao Hezbollah estava em marcha. A lista de alvos para destruição já definida, como ficou patente na explosão de parte do aeroporto internacional de Alepo. A recolha de inteligência sobre os inimigos da região encontrava-se bastante avançada. Reinava a confiança — sustentada no investimento feito — na reeleição de Trump e na derrota de Kamala Harris. Os sistemas de defesa israelitas na fronteira de Gaza estavam, misteriosamente, de férias ou avariados, e os palestinianos entraram em Israel com a facilidade de quem entra num Starbucks.
Dificilmente poderia ter sido escolhido um momento mais propício para uma operação moldada e mediatizada para o “mundo livre” como o horror dos “40 bebés decapitados” — imagem-choque, incontestável, da barbárie atribuída a monstros.
A historiografia da guerra ensina, contudo, que tais ficções fundadoras cumprem uma função específica: mobilizar a emoção coletiva, obliterar dúvidas críticas e legitimar respostas militares desproporcionais. Desde a Primeira Guerra Mundial, com a difusão das histórias das “mãos cortadas de crianças belgas”, até à “incubadora do Kuwait” em 1990, que serviu para justificar a intervenção norte-americana no Golfo, a utilização de imagens de inocência violentada constitui uma das técnicas mais eficazes de propaganda de guerra (Ellul, Propaganda, 1962; Herman & Chomsky, Manufacturing Consent, 1988).
Assim, mais do que um simples acontecimento trágico, este episódio insere-se num padrão reconhecível: o da manipulação mediática enquanto instrumento estratégico de poder, onde o horror é moldado e amplificado para sustentar propaganda política e imperialista.
Numa abordagem mais de acordo com a realidade no terreno, Israel nunca divulgou quantos dos seus agentes integravam o holocaústrico ataque do grupo islamita a 7 de outubro de 2023, nem quantas das 1200 pessoas foram, de facto, mortas pelo Hamas e quantas pelas forças armadas e polícia israelitas através da ativação do Protocolo Hannibal. Numa era em que os serviços secretos monopolizam a informação e moldam a perceção do real, resta ao cidadão comum, desprovido de acesso aos briefings confidenciais, um último bastião de liberdade: a lógica aristotélica. Pois, como ensinava o velho Estagirita, o que se contradiz não pode ser verdadeiro. E assim, no meio do ruído e da manipulação, só o que resiste à razão merece ser acreditado. Simplesmente, é ilógico e um atentado à inteligência dos consumidores de informação mediatizada, que os israelitas tenham informações minuciosas, ao mais ínfimo detalhe, sobre o Hezbollah, a Síria, os houthis, o Irão e até sobre os americanos, e, pelo lado absurdo, viviam na mais perfeita ignorância sobre planeamentos operacionais do Hamas, quando têm uma brigada, a Duvdevan, especificamente treinada para infiltração no grupo.
A justificação do erro humano do embaixador Oren Rozenblat é simplesmente pateta e ridícula: "E nós estávamos dormindo. Especialmente pensando que outras pessoas deveriam pensar como nós. Eles, não. Eles têm princípios de religião extremos. Sacrificar as suas vidas para destruir Israel é mais importante do que os filhos. E esse foi o nosso erro.”
Uma variante da versão da “soneca do embaixador” afirma que, em Israel, predominava um deslumbrado otimismo gerado pelos Acordos de Abraão, e que ninguém acreditava que o Hamas pudesse parar o ímpeto negocial de Donald Trump, através da sua vedeta Jared Kushner, na reconciliação dos países árabes com os israelitas.
A outra justificação, a do erro informático, é LOL: um inquérito israelita concluiu que a polícia recebeu com várias horas de atraso um aviso crucial do Shin Bet sobre atividades suspeitas do Hamas em Gaza, devido a uma atualização dos sistemas de comunicação realizada na noite anterior ao ataque de 7 de outubro de 2023. O alerta, emitido às 3h03, destinava-se às Forças de Defesa de Israel, ao Conselho de Segurança Nacional e à polícia, depois de o Shin Bet detetar membros do Hamas a ativar cartões SIM israelitas. No entanto, a falha técnica impediu que a polícia fosse informada antes do início do ataque.
A investigação procurou esclarecer a discrepância entre os serviços secretos, que afirmavam ter transmitido o aviso em tempo útil, e a polícia, que alegava só o ter recebido quando já era demasiado tarde. A causa do atraso — a atualização do sistema — só foi descoberta posteriormente, durante o próprio inquérito.
Finalmente, o relatório oficial, que encerra o caso, prime a tecla da sequência de azares. Concluiu que havia uma "falha sistémica e organizacional de longa data" no seio do Exército, nomeadamente uma "discrepância entre a realidade estratégica e operacional e a perceção (...) da realidade relativa à Faixa de Gaza e ao Hamas".
O documento destacou igualmente uma "falha de inteligência" militar na sua "incapacidade de dar o alerta", mesmo quando o Exército dispunha de informações "excecionais e de elevada qualidade".
Lamentando os "processos deficientes de tomada de decisão e de destacamento das forças na noite de 7 de outubro de 2023", o comité apontou falhas ao nível do Estado-Maior, da direção de operações, da direção de informações militares, do Comando Sul, mas também da Força Aérea e da Marinha].
Durante três anos, mais de 73 000 pessoas foram mortas pelo
exército israelita em Gaza, de acordo com o ministério da Saúde de Gaza, que
está sob a autoridade do Hamas e cujos números são considerados fiáveis pelas
Nações Unidas.
Fonte: RTP, 3 de setembro de 2026
Ben Gvir revela plano de “emigração voluntária” com o
objetivo de retirar 1,86 milhões de palestinianos de Gaza
O ministro israelita da Segurança Nacional da
extrema-direita, Itamar Ben Gvir, revelou um plano que visa retirar a grande
maioria da população palestiniana do território de Gaza através do que chama
“emigração voluntária”, incluindo a criação de um ministério governamental
dedicado ao tema. A apresentação aconteceu no âmbito da campanha do partido
para as eleições de 27 de outubro.
Apelidado de “Desengajamento 710” — uma referência tanto à
retirada de Israel de Gaza em 2005 como ao ataque do Hamas a 7 de outubro de
2023 — o plano tem como objetivo a retirada de 250 mil habitantes de Gaza no
seu primeiro ano, 1,11 milhões em três anos e 1,86 milhões em sete.
“Em vez de ilusões de paz agora, precisamos de ações de emigração agora”,
diz Ben Gvir. “Em vez de escavar túneis, é
altura de fazer as malas.” A criação e gestão de um “ministério da
Emigração” estarão entre as principais exigências do Otzma Yehudit para
integrar o próximo governo, acrescentou, de acordo com o Times of Israel.
“Que pena não terem ouvido
Gandhi”, disse Ben Gvir, referindo-se ao ministro de extrema-direita
assassinado Rehavam Ze’evi, que defendia a limpeza étnica e a transferência de
populações palestinianas da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. “É tempo de
admitir: Gandhi tinha razão!”
O
partido promete aos emigrantes um “pacote de integração” que inclui “ajuda nas
deslocações, habitação inicial, formação profissional, emprego e apoio até 24
meses”, além de pagamentos aos países de acolhimento com base no número de
habitantes de Gaza que acolhem. A Turquia,
a Etiópia, o Congo e
países árabes não especificados estão a ser considerados como possíveis
destinos, segundo o partido.

Comentários
Enviar um comentário