O 11 de Setembro podia ter sido evitado. Mas especialista diz que o maior erro veio depois
Per il gusto di uccidere / Cazador de recompensas (1966) -
Fernando Sancho
Ocidente
nunca compreendeu totalmente uma das características mais perigosas do
terrorismo: um ataque não termina quando acabam as explosões ou os tiros
Vinte e cinco anos depois dos atentados que fizeram quase
três mil mortos nos Estados Unidos e mudaram a política internacional, Greg
Barton não hesita na resposta. Havia sinais, existia informação sobre a
Al-Qaeda e houve vários momentos em que uma decisão diferente poderia ter
interrompido a preparação dos ataques.
Mas, para o especialista em política islâmica global, esse
nem sequer foi o maior erro.
O verdadeiro fracasso veio depois.
Numa análise publicada no The Conversation a
propósito dos 25 anos do 11 de Setembro, Greg Barton, professor e responsável
pela área de Política Islâmica Global no Alfred Deakin Institute for
Citizenship and Globalisation, da Deakin University, defende que o Ocidente
nunca compreendeu totalmente uma das características mais perigosas do
terrorismo: um ataque não termina quando acabam as explosões ou os tiros.
A resposta da vítima também faz parte dos seus efeitos.
E pode multiplicá-los.
“Podia ter sido evitado? Absolutamente”
Quando os aviões atingiram Nova Iorque e Washington, o mundo
assistiu a algo que parecia sem precedentes.
Não era um Estado a atacar outro Estado. O inimigo era uma
organização terrorista que durante anos fora subestimada e mal compreendida,
recorda Barton.
Ainda assim, a Al-Qaeda não era desconhecida.
“Podiam os ataques de 11 de Setembro ter sido previstos e
evitados? Absolutamente”, escreve o académico.
Barton recorda que, muito antes da publicação do relatório
da Comissão do 11 de Setembro, já eram conhecidos vários momentos de “se ao
menos”.
Se os alertas
tivessem recebido maior atenção. Se o
FBI e a CIA tivessem ultrapassado rivalidades e partilhado melhor aquilo que
sabiam. Se a ameaça representada pela
Al-Qaeda tivesse sido levada mais a sério.
Em qualquer um desses pontos, sustenta, os atentados
poderiam ter sido travados.
Um ataque semelhante seria hoje muito mais difícil.
A cooperação policial e entre serviços de diferentes países
evoluiu profundamente, assim como a capacidade de intercetar comunicações e
desmantelar conspirações ainda durante a fase de preparação.
O resultado é que uma grande proporção das conspirações
terroristas de larga escala é atualmente interrompida antes de chegar à
execução, salienta Barton.
Mas existe um reverso.
Os ataques protagonizados por um ou dois indivíduos, sem uma
célula ou rede que produza comunicações e movimentos detetáveis, continuam a
representar uma ameaça particularmente difícil de antecipar.
Quando ter a melhor informação não chega
Existe ainda uma limitação que nenhuma tecnologia resolve
sozinha.
“Os melhores sistemas de informações do mundo são apenas tão
bons quanto os enquadramentos políticos em que existem e os líderes que
servem”, alerta Barton.
Para o especialista, o ataque do Hamas contra Israel, a 7 de
outubro de 2023, mostrou novamente esse problema.
Barton sustenta que existiram múltiplos relatórios e avisos
antes do ataque e considera que o fracasso não pode ser explicado simplesmente
pela inexistência de informação. Aponta antes para a incapacidade das
lideranças de escutar devidamente os alertas, combinada com excesso de
confiança na tecnologia, problemas estruturais e fatores políticos.
É precisamente aqui que começa a parte mais desconfortável da análise.
Porque impedir o ataque é apenas metade do problema.
A outra metade começa quando o ataque já aconteceu.
O maior erro veio depois
Para Barton, uma das grandes consequências do 11 de Setembro
foi ter desencadeado uma “guerra ao terror” que se prolongaria durante décadas
sem um objetivo estratégico suficientemente claro ou um ponto final consensual.
Primeiro veio o Afeganistão. Depois, o Iraque.
E aquilo que deveria eliminar a ameaça acabou também por
criar condições para que ela assumisse novas formas.
“A Al-Qaeda nunca tinha sido tão eficaz como quando a
ocupação do Iraque deu origem ao Estado Islâmico”, escreve o académico.
Vinte anos de intervenção militar no Afeganistão terminaram,
por sua vez, com os talibãs novamente no poder.
É por isso que Barton formula uma conclusão particularmente
dura:
“O grande erro cometido não foi não termos conseguido
impedir os ataques de 11 de Setembro, embora isso devesse ter sido conseguido.
Foi não termos compreendido como o terrorismo consegue amplificar o seu impacto
através da nossa resposta à indignação.”
A ideia altera a forma de olhar para um atentado terrorista.
O número de mortos e a destruição provocada no momento são
apenas uma parte do resultado. Se conseguir levar o país atacado a tomar
decisões que provoquem guerras prolongadas, instabilidade, polarização ou novos
ciclos de radicalização, o alcance político do ataque torna-se muito maior.
Uma ameaça com raízes muito anteriores a Bin Laden
Barton considera que compreender o 11 de Setembro exige
recuar muito além de 2001.
Aponta para a repressão da Irmandade Muçulmana no Egito
durante a década de 1950 e para a execução de Sayyid Qutb, em 1966, como
momentos importantes no desenvolvimento das correntes ideológicas que, décadas
mais tarde, contribuiriam para o jihadismo salafista.
Parte dessas ideias acabaria por encontrar terreno no
Afeganistão e contribuir para o aparecimento da Al-Qaeda e de outras
organizações terroristas.
Essa longa cronologia leva-o também a rejeitar a ideia de
que a ameaça desapareceu simplesmente porque o Estado Islâmico perdeu o
território que chegou a controlar no Iraque e na Síria ou porque grandes
atentados se tornaram mais difíceis de executar em países com fortes sistemas
de segurança.
Barton chama particularmente a atenção para África, onde
organizações ligadas à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico continuam a expandir-se e
a evoluir em diferentes zonas de conflito.
Uma história que demorou 50 anos a chegar ao 11 de Setembro
E é precisamente a escala temporal que torna o seu aviso
final mais inquietante.
Se as forças ideológicas que desembocaram na Al-Qaeda e no
11 de Setembro levaram aproximadamente meio século a desenvolver-se, não existe
razão para imaginar que as consequências dos últimos 25 anos desaparecerão
rapidamente.
Pelo contrário.
Barton considera que as ideias jihadistas que ganharam
expressão através da Al-Qaeda continuam a representar uma ameaça duradoura e
teme que os erros cometidos desde 2001 alimentem novos ciclos de radicalização.
Talvez seja essa a parte mais difícil da herança do 11 de
Setembro.
Vinte e cinco anos foram suficientes para tornar muito mais
difícil repetir exatamente aquilo que aconteceu naquela manhã.
Podem não ter sido suficientes para aprender a evitar aquilo
que acontece depois.
Fonte: Executive Digest, 11 de setembro de 2026

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