PJ resiste a vendaval Luís Neves e só perde para Forças Armadas na confiança dos portugueses

Numa análise ao grau de confiança dos cidadãos em relação a treze instituições, a Polícia Judiciária obtém 59% de avaliações positivas. Governo é quem tem o pior resultado

A sucessão de casos que envolvem o ministro da Administração Interna, Luís Neves, e que remontam ao período em que este liderou a Polícia Judiciária (PJ) – de junho 2018 a fevereiro de 2026 –, fez soar alarmes em São Bento e em Belém sobre o potencial impacte negativo que estas polémicas poderiam ter na imagem da força policial e na credibilidade da instituição.

Contudo, mais de dois meses após as primeiras revelações (o caso das obras numa propriedade do governante em Odemira, noticiado pelo Nascer do Sol), uma sondagem da Aximage para o Diário de Notícias mostra que a maioria dos portugueses continua a creditar positivamente o trabalho desenvolvido pela PJ, com um grau de confiança que só é superado pelo atribuído às Forças Armadas.

Além dos três inquéritos de foro criminal que decorrem no Ministério Público (investiga-se as obras no monte alentejano de Luís Neves, realizadas pelo empreiteiro João Carvalho, dono da Construbarcelos; o caso do atrelado apreendido numa operação contra o tráfico de droga e que foi encontrado num armazém desta empresa; e a utilização por parte do ministro de um carro apreendido a um traficante), também o ministério da Justiça ordenou uma auditoria ao funcionamento da PJ.

A ministra Rita Alarcão Júdice justificou a decisão com a necessidade de “proteger a PJ e defender as instituições”. Uma preocupação alinhada com a do presidente da República, que já a expressou publicamente. “Todos temos responsabilidades, no âmbito das competências que a Constituição atribui aos órgãos de soberania, de preservar a dignidade das nossas instituições e os valores que fazem a nossa democracia e o nosso Estado de Direito”, afirmou António José Seguro, em agosto, pedindo ainda que “os inquéritos, auditorias e investigações que estão a ser feitas decorram o mais rapidamente possível”.

Ainda assim, apesar de todo o ruído à volta da PJ, 59% dos inquiridos na sondagem dizem ter um grau de confiança “muito grande” (15%) ou “grande” (44%) nesta força policial, contra os 37% que têm confiança “pequena” (27%) ou “muito pequena” (10%). O trabalho de campo da sondagem teve lugar nos dias 14 e 15 de setembro, com 500 entrevistas. Ou seja, já depois de revelados todos os casos que envolvem o ministro, já depois do chumbo da moção de censura do Chega ao governo por não demitir Luís Neves, e já depois de Carlos Cabreiro, atual diretor da PJ, ter sido denunciado por, alegadamente, mentir em tribunal no processo do hacker Rui Pinto (o MP confirmou a abertura de um inquérito precisamente no dia 14 de setembro). O que sugere que a imagem da PJ junto dos portugueses resistiu mesmo ao vendaval.

Forças policiais e militares dominam

No total, foram avaliadas na sondagem 13 instituições, sendo que apenas seis conseguiram ficar em terreno positivo no grau de confiança dos portugueses. Destas, cinco operam na área militar ou na segurança pública. As Forças Armadas são a instituição que maior confiança desperta nos portugueses, somando 62% de respostas positivas, divididas entre confiança “muito grande” (19%) e “grande” (43%). A PJ vem logo atrás, seguida pela NATO (55% na soma de confiança “muito grande” e “grande”). Depois surgem Polícia de Segurança Pública e Guarda Nacional Republicana. As duas conseguem um patamar positivo de 54%, com uma ligeira vantagem para a GNR, já que alcança 13% no grau de confiança “muito grande” – um ponto percentual acima da PSP.

A fechar o lote de seis instituições com avaliação positiva surge a União Europeia, cujo trabalho consegue recolher em Portugal 18% de confiança “muito grande” e 38% “grande”.

Governo é o mais castigado

No reverso da medalha, o governo é a instituição que, de acordo a sondagem, menos confiança inspira nos portugueses. Ao todo, 76% dos inquiridos dizem ter um grau de confiança “pequeno” (44%) ou “muito pequeno” (32%) no conjunto de ministros e secretários de Estado que formam o governo liderado por Luís Montenegro, contra 17% que têm confiança “grande” e apenas 4% cujo grau é “muito grande”. Olhando para os dados da sondagem, segmentados por eleitores (voto nas legislativas de maio de 2025), o Executivo escapa por apenas um ponto percentual a uma avaliação de confiança negativa dentro do próprio eleitorado da AD (51% vs. 50%).

Na comparação com outras instituições políticas, embora nenhuma atinja patamar positivo, o governo fica atrás da Assembleia da República (71% na soma de confiança “pequena” e “muito pequena”), presidida pelo social-democrata Aguiar-Branco, e da Presidência da República (53%), cargo atualmente desempenhado por António José Seguro, ex-secretário-geral do PS.

Na edição da última sexta-feira, o DN também avançou, no âmbito do barómetro DN/Aximage, que a maioria dos portugueses quer uma mudança de governo (64%) e que a AD recolhe apenas 21,9% nas intenções de voto, atrás do PS (29,1%) e do Chega (28,6%), ao mesmo tempo em que Luís Montenegro (19%) também fica atrás de André Ventura (27,4%) e José Luís Carneiro (27,1%) quando os inquiridos respondem sobre quem é a figura mais indicada para desempenhar o cargo de primeiro-ministro.

Pouca confiança na Justiça

O setor da Justiça também sai mal na fotografia. A ação dos tribunais e juízes fica pelos 31% de grau de confiança “muito grande” (5%) ou “grande” (26%), abaixo dos 33% de avaliações positivas ao trabalho do Ministério Público, com especial índice de fraca confiança vinda dos eleitores do Chega e da Iniciativa Liberal, os que mais penalizam os protagonistas judiciais.

Também em terreno negativo surgem os meios de comunicação social e os sindicatos, com, respetivamente, uma soma de 68% e 71% de grau de confiança “pequeno” e “muito pequeno”.

Mais dados

AD destaca-se no apoio às Forças Armadas: As Forças Armadas Portuguesas são a instituição que recolhe maior grau de confiança nos portugueses, entre as 13 analisadas, sendo que esse apoio é ainda mais expressivo junto dos eleitores que votaram nos partidos da AD (PSD e CDS) nas legislativas de 2025, atingindo os 77% de opiniões positivas, divididos entre os que têm confiança “muito grande” (22%) e “grande” (55%). Os três ramos das Forças Armadas estão sob tutela do ministério da Defesa, o único no atual governo que é liderado por um dirigente do CDS, no caso o próprio presidente dos centristas, Nuno Melo.

Segurança: AD e PS superam Chega: Olhando para os dados da sondagem segmentados por preferência eleitoral pode verificar-se que, entre os votantes nas três maiores forças políticas do parlamento, os do Chega ficam atrás dos da AD e dos do PS no grau de confiança que depositam nas três forças de segurança, embora todos tenham opinião maioritariamente positiva. Somando as respostas de confiança “muito grande” e “grande”, a PJ alcança 73% na AD, 66% no PS e 57% no Chega; a GNR consegue 65% n AD, 54% no PS e 53% no Chega; e a PSP obtém 63% na AD, 58% no PS e 52% no Chega.

Chega com pouca confiança na UE: A União Europeia é a única das seis instituições em terreno positivo na confiança dos portugueses que não atua, exclusivamente, nos setores da segurança ou da Defesa. A maioria dos eleitores do Chega (61%) têm um grau de confiança “pequeno” (36%) ou “muito pequeno” (25%) na UE, em contraste com o que acontece junto de quem votou na AD e PS.

FICHA TÉCNICA

Objetivo do Estudo: Sondagem de opinião realizada pela Aximage, Lda., para o DN relativa a barómetro político e temas da atualidade.

Universo: Indivíduos maiores de 18 anos eleitores e residentes em Portugal.

Amostra: Amostragem por quotas, obtida a partir de uma matriz cruzando sexo, idade e região (NUTSII), a partir do universo conhecido, reequilibrada por género (2), grupo etário (4) e região (4). A amostra consiste em entrevistas efetivas: 500 entrevistas CAWI; 245 homens e 255 mulheres; 100 entre os 18 e os 34 anos, 124 entre os 35 e os 49 anos, 136 entre os 50 e os 64 anos e 140 para os 65 e mais anos; Norte 182, Centro 107, Sul e Ilhas 67, Área Metropolitana de Lisboa 144.

Técnica: Aplicação online – CAWI (Com-puter Assisted Web Interviewing) – de um questionário estruturado, devidamente adaptado ao suporte utilizado, a um painel de indivíduos que preenchem as quotas pré-determinadas. O trabalho de campo decorreu entre 14 e 15 de setembro de 2026. Taxa de resposta: 95,60%.

Margem de erro: O erro máximo de amostragem deste estudo, para um intervalo de confiança de 95%, é de + ou - 4,4%

Responsabilidade do estudo: Aximage, Lda., sob a direção técnica de Ana Carla Basílio.

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Fonte: Diário de Notícias, 20 de setembro de 2026

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