Quem é Ulrich Siegmund, “o homem mais perigoso da Alemanha”?
Nasceu a 25 de outubro de 1990 em Havelberg, na
Saxónia-Anhalt. Aos 35 anos, é deputado no Landtag de Saxónia-Anhalt desde 2016
e, desde agosto de 2022, preside, juntamente com Oliver Kirchner, a bancada da
AfD no parlamento regional. Em 2025 foi escolhido como cabeça de lista da AfD
para as eleições regionais de 2026.
O percurso profissional não começou logo na política.
Concluiu uma formação em comércio grossista e externo. Depois estudou
psicologia económica e gestão de empresas, terminando com uma licenciatura.
Antes de entrar na política, ganhava
a vida com perfumes. Em 2014, aos 23 anos, criou uma empresa no setor de marketing olfativo. A firma
comercializava, entre outros, essências aromáticas, acessórios de fragrâncias e
tecnologia de aromatização e prestava consultoria em marketing e vendas. Os
estudos de psicologia económica e gestão de empresas tinham também ligação
direta ao negócio: a tese de licenciatura
analisou o impacto psicológico do marketing olfativo no comportamento de compra.
Em 2014, fundou, com um parceiro de negócios, a empresa
“Berlin duftet”. A ideia passava por utilizar fragrâncias ambientais de forma
dirigida para tornar mais agradáveis, entre outros locais, as estações de metro e
comboio urbano da BVG e da S-Bahn, reduzindo assim o stress, as agressões e o
vandalismo. Numa reportagem da WELT, na altura, explicou
que pensava, por exemplo, num aroma relaxante como o de lavanda.
Um dado curioso: à época, apontava para experiências feitas em Nova Iorque, onde estações
ferroviárias muito movimentadas são discretamente perfumadas com aroma de
baunilha. Baseava-se em estudos que indicam que cheiros agradáveis
podem melhorar o humor das pessoas.
Foi primeiro militante da CDU, antes de passar para a AfD.
Aos 24 anos, aderiu à AfD. Dois anos depois, entrou pela primeira vez no
Landtag da Saxónia-Anhalt.
Político das redes sociais
Atualmente, Siegmund é um dos políticos da AfD mais
conhecidos na Alemanha. Uma parte essencial do seu sucesso deve-se à estratégia
nas redes sociais. No Instagram tem hoje mais de 400 mil seguidores e, no
TikTok, com mais de 763 500 seguidores, é um dos políticos com maior alcance no
país.
Aparece muitas vezes com uma imagem amistosa, descontraída e
próxima das pessoas, posa para fotografias com apoiantes e aposta fortemente,
em campanha, em festas de família, diálogos com cidadãos e encontros pessoais.
A imprensa internacional descreve-o frequentemente como o “rosto radioso” da AfD. O Financial Times
caracteriza a sua campanha como deliberadamente orientada para a comunidade e
centrada na família.
Defende, entre outras medidas, uma política migratória muito
mais restritiva, deportações e uma mudança profunda na política regional.
Família e vida privada
É casado e tem uma filha. A mulher, Julia, também já
apareceu diante das câmaras de televisão, embora fora do contexto político.
Participou no programa de docu-reality sobre casamentos da VOX “Zwischen Tüll
& Tränen” ("Entre tule e lágrimas"), onde escolheu o vestido de
noiva para o casamento com Ulrich Siegmund.
Na comunicação política, recorre-se intensamente a conceitos
como pátria, segurança, família e mudança.
Em 2017, deixou a Igreja Católica. Diz levar “no coração” os
seus valores, mas rejeitar a instituição alemã que os representa. No seu
gabinete está pendurado um retrato de Otto von Bismarck, oriundo da vizinha
Schönhausen, sob o qual se lê a frase: “Um pensamento verdadeiro não pode ser
derrubado com mentiras para sempre.”
O irmão mais velho, sem filiação partidária, integra a
assembleia municipal de Tangermünde. A mãe morreu em 2019 num acidente.
Polémicas nos média
Em 2026, o pai de Siegmund, Andreas, esteve no centro das atenções por alegado “nepotismo”. Aos 66 anos, trabalha no gabinete parlamentar, em Berlim, do deputado da AfD Thomas Korell e já tinha prestado serviços a outros parlamentares da AfD. Siegmund defendeu, em termos gerais, a contratação de familiares e amigos do partido, sublinhando, entre outros argumentos, que é difícil para a AfD encontrar bons quadros, pois quem trabalha para o partido acaba estigmatizado.
Outra polémica amplamente noticiada, envolvendo Martin
Sellner e Ulrich Siegmund, teve origem num encontro realizado em novembro de
2023, perto de Potsdam. Siegmund participou nessa reunião, onde o extremista de direita austríaco Martin Sellner
falou sobre “remigração”. Sellner englobava neste conceito não só o retorno de
estrangeiros sujeitos à obrigação de saída, mas também medidas contra “cidadãos
não assimilados” com origem migrante.
Mais tarde, Siegmund qualificou a participação como privada
e afirmou, em síntese, que a simples presença numa conferência não implica
concordância com o conteúdo apresentado.
Em janeiro de 2024, no portal Abgeordnetenwatch, foi
questionado se se demarcava do “plano-mestre de remigração” de Sellner.
Respondeu: “As acusações devem ser rejeitadas.”
O Departamento Regional de Proteção da Constituição da
Saxónia-Anhalt, uma divisão do ministério do Interior liderado pela CDU,
classificou, em 7 de novembro de 2023, a estrutura regional da AfD na
Saxónia-Anhalt como “esforço comprovadamente extremista de direita”. Entre os
fundamentos apontados figuram declarações hostis aos muçulmanos, racistas e
antissemitas de dirigentes e eleitos da AfD.
A classificação é, contudo, contestada do ponto de vista
jurídico e está a ser examinada em tribunal. A AfD interpôs recurso e o
processo encontra-se atualmente suspenso.
O facto de a revista SPIEGEL o ter descrito na capa, em meados de agosto, como “o homem mais perigoso da Alemanha” foi aproveitado por Siegmund em seu benefício. Durante a campanha, autografou pilhas de exemplares da SPIEGEL com a sua fotografia, que são leiloados no eBay a valores muito elevados.
De deputado regional a potencial primeiro-ministro
A ascensão política de Siegmund ocorreu em poucos anos. Em
2016, entrou pela primeira vez no parlamento regional; em 2022, assumiu,
juntamente com Oliver Kirchner, a liderança da bancada da AfD. Em 2025, o
partido colocou-o em primeiro lugar na lista regional para as eleições de 2026.
Agora, em jogo está muito mais do que um novo mandato
parlamentar: Siegmund pretende tornar-se primeiro-ministro da Saxónia-Anhalt.
Já afirmou, contudo, que só quer governar se a AfD dispuser sozinha da maioria
necessária - o que não se veio a confirmar, de acordo com os resultados finais.
Fonte: Euronews, 7 de setembro de 2026
Musk, Trump ou o Kremlin. Com a Europa preocupada, a
vitória da AfD na Alemanha está a deixar muita gente contente
Enquanto na Europa cresce a preocupação com a primeira
vitória eleitoral da extrema-direita da Alemanha desde a Segunda Guerra
Mundial, para lá do oceano parece haver um contentamento generalizado.
Não admira, portanto, que uma das primeiras palavras do
grande vencedor da noite tenha ido para o
excêntrico dono da Tesla e da
SpaceX, Elon Musk.
Depois de ver confirmada a vitória nas eleições regionais de
Saxónia-Anhalt, mesmo que falhando por pouco a maioria absoluta, o candidato da
Alternativa para a Alemanha (AfD) decidiu agradecer diretamente ao homem mais
rico do mundo.
Uma reação que contrasta claramente com a posição que se espera que a Europa venha a tomar. Em França, por exemplo, um ministro avisou que estamos perante um “momento sério”, o que não estará desconectado das eleições presidenciais que se aproximam vertiginosamente para ficarmos a saber quem sucede a Emmanuel Macron.
Voltando atrás, Ulrich Siegmund foi até à “casa” de Elon
Musk para lhe agradecer. O mesmo é dizer que utilizou a rede social X,
propriedade do magnata, para lhe agradecer pelo “apoio e pela sua perspetiva
clara e extremamente importante sobre os desenvolvimentos políticos do nosso
tempo”.
"Acolheria com grande satisfação a oportunidade de uma
cooperação forte e construtiva", acrescentou o responsável, já depois de o
próprio Elon Musk ter parabenizado a AfD pela vitória, no caso junto de uma
publicação da líder do partido, Alice Weidel.
Confirmando que a posição de Elon Musk não é isolada, houve outra pessoa nos Estados Unidos que decidiu mostrar que estava a prestar atenção. Nada mais nada menos que o presidente, Donald Trump, que utilizou a sua Truth Social para partilhar uma imagem das projeções, sem acrescentar qualquer nota.
Curiosamente, quem aproveitou essa publicação foi Kirill
Dmitriev, enviado do presidente da Rússia e um dos homens do círculo próximo de
Vladimir Putin. O responsável notou aquilo que diz ser uma “vitória história
para a pragmática AfD”. Uma posição que não deverá estar dissociada da posição
pró-Kremlin que o partido alemão já adotou, tendo até já defendido o fim do
apoio da União Europeia à Ucrânia.
A contrastar com estas posições, o ministro delegado por
França para a Europa avisou que “o nacionalismo e a xenofobia nunca foram uma
solução”.
“Devemos ouvir com humildade a raiva, as
preocupações, os medos, e responder-lhes”, acrescentou Benjamin
Haddad. “Não podemos esquecer a nossa história. É esse o significado por detrás
das escolhas feitas pela França e pela Alemanha.”
De forma talvez até mais direta, o primeiro-ministro da
Polónia também confirmou a existência de uma cortina ideológica. Donald Tusk decidiu olhar
para dentro, num país que também atravessa uma grande vaga populista, para
dizer que “só
idiotas ou traidores podem rejubilar com o
triunfo da AfD na Alemanha”.
Fonte: CNN Portugal, 7 de setembro de 2026



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