Reino Unido vai rever acordo sobre Ilhas Chagos depois de Trump dizer a Burnham que é "terrível"
O Reino Unido vai voltar à
estaca zero no acordo para
devolver as ilhas Chagos às Maurícias, afirmou esta quarta-feira o ministro da
Defesa, Wes Streeting. A decisão surge um dia depois de o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, ter atacado o acordo durante o primeiro encontro
com o primeiro-ministro Andy Burnham.
Os dois líderes reuniram-se na terça-feira à margem da
Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. Com Burnham sentado ao seu
lado, Trump disse esperar que o líder britânico reconsiderasse o “acordo
terrível”. Burnham acenou com a cabeça e respondeu: “Sim”.
Burnham, que sucedeu a Keir Starmer em julho, disse mais
tarde aos canais de televisão que o Reino Unido iria “trabalhar arduamente”
para resolver a questão e que estava “confiante de que podemos chegar a uma solução em conjunto com os nossos
parceiros norte-americanos”.
Em declarações à BBC, Streeting afirmou que as objeções de
Trump “não são novidade para nós”. Mas acrescentou que as últimas declarações
do presidente “deixam absolutamente claro que a sua posição sobre este acordo
relativo a Chagos, tal como está redigido, não mudou”.
“Por isso, temos de trabalhar mais com os nossos aliados
americanos, com o presidente Trump e a sua administração, para levar o acordo a
um ponto em que o possamos apoiar”, disse.
Streeting confirmou ainda que o Reino
Unido não irá, “nesta fase”, efetuar os pagamentos anuais de pelo
menos 120 milhões de libras (139 milhões de euros) acordados com as Maurícias
para arrendar de novo a base militar em Diego Garcia.
EUA opõem-se há meses
O acordo, alcançado no ano passado entre Starmer e o governo
das Maurícias, previa a devolução do arquipélago do oceano Índico ao antigo
território colonial britânico. O Reino Unido passaria depois a arrendar a
estratégica base conjunta Estados Unidos–Reino Unido em Diego Garcia por 99
anos, com opção de prolongamento. Em abril, Londres anunciou que os planos
estavam suspensos.
Trump apoiou inicialmente o pacto,
mas acabou por se opor, classificando-o como “um ato de grande estupidez”,
e o tema tem provocado fricções com a sua administração há meses.
Starmer defendeu o acordo alegando que decisões de
instâncias jurídicas internacionais tinham posto em causa a reivindicação
britânica sobre as ilhas e que só um entendimento com as Maurícias poderia
garantir a continuação do uso da base pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.
O Reino Unido manteve as ilhas Chagos sob controlo quando as
Maurícias se tornaram independentes, na década de 1960. Expulsou milhares de
habitantes, que desde então intentaram várias ações de indemnização nos
tribunais britânicos. Em 2019, o Tribunal Internacional de Justiça concluiu que
o Reino Unido separou ilegalmente Chagos das Maurícias ao pôr fim ao domínio
colonial.
“Estratégia da avestruz”
James Cartlidge, porta-voz da Defesa dos conservadores da
oposição, afirmou que o acordo “devia ser pura e simplesmente rasgado”.
Streeting rejeitou essa posição. Disse à Times Radio:
“A estratégia da avestruz, de enfiarmos a cabeça na areia e esperarmos que o
problema desapareça, não é uma estratégia sensata quando está em causa um dos
ativos de segurança nacional mais sensíveis que temos em qualquer parte do
mundo.”
Jack Pannell, investigador sénior do grupo de reflexão
British Foreign Policy Group, disse à AFP que a prioridade de Burnham nas
conversas com Trump seriam “as grandes questões internacionais”, como a
regulação da inteligência artificial, a Ucrânia e o Médio Oriente.
“O sucesso para Burnham passa por evitar que este dossier se
transforme num peso à volta do seu pescoço enquanto persegue outras prioridades
de política externa e se concentra na agenda interna”, acrescentou Pannell. “As
hipóteses de um avanço neste tema são reduzidas, e isso poderá até convir ao
primeiro-ministro.”
Também na terça-feira, Trump assinou um acordo de segurança
com os líderes da Gronelândia e da Dinamarca que permitirá aos Estados Unidos
construir duas bases militares no sul e no leste da ilha.
Fonte: Euronews, 23 de
setembro de 2026

Comentários
Enviar um comentário