Trump diz ao PM irlandês que "gostaria de ver a Irlanda unificada" e promete irritar Londres
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no sábado que uma Irlanda unificada seria “fantástica”, entrando assim num assunto complexo e politicamente sensível durante uma visita de dois dias à Irlanda, sob pretexto de um importante torneio num campo de golfe de que é proprietário.
Numa reunião com o primeiro-ministro irlandês, Micheál
Martin, em Dublin, Trump disse que gostaria de ver a reunificação da República
da Irlanda com a Irlanda do Norte, parte do Reino Unido.
“Não quero causar problemas, mas adoraria vê-la unificada”,
afirmou Trump quando um jornalista lhe pediu a opinião sobre o assunto. “Vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Mais vale
acontecer agora".
“Acho que seria algo fantástico”, afirmou, acrescentando que
“o Reino Unido terá obviamente algo a dizer sobre isso.” Esta é a segunda vez
em pouco tempo que Trump dirige provocações ao governo de Andy Burnham, depois
dos seus comentários sobre as Malvinas.
Antes desta gafe, Trump tinha já ameaçado abanar as relações
com Londres, ao dizer que "poderia rever a posição dos Estados Unidos face
às Malvinas", no seguimento da nova reivindicação do território feita pelo
presidente argentino Javier Milei, seu aliado próximo. A este propósito, Trump
disse que o Reino Unido "é hoje um país muito diferente" do que era
em 1982, quando Margaret Thatcher ordenou a intervenção militar que fez recuar
a invasão argentina das ilhas controladas pelo Reino Unido desde há vários séculos.
Visões divergentes sobre a Irlanda do Norte – se é irlandesa
ou britânica – alimentaram décadas de violência que causaram cerca de 3600
mortos. Anteriores presidentes dos EUA evitaram comentar diretamente o tema,
mesmo aqueles, como Joe Biden, com fortes ligações ancestrais e afetivas à
Irlanda.
Quando a Irlanda, durante muito tempo dominada pelo seu
vizinho maior, se tornou há um século um país de maioria católica romana com
autogoverno, uma região de seis condados no norte, de maioria protestante,
manteve-se parte do Reino Unido.
A Irlanda do Norte ficou dividida entre duas grandes
comunidades: os nacionalistas – na maioria católicos – que desejavam a união
com o resto da Irlanda, e os unionistas, maioritariamente protestantes, que
queriam continuar britânicos.
As tensões acabaram por explodir no período conhecido como
"troubles", desencadeando três décadas de violência envolvendo grupos
paramilitares de ambos os lados e tropas britânicas.
Um acordo de paz alcançado em 1998, em cuja mediação
Washington teve um papel decisivo, pôs em grande medida fim à violência, mas
deixou em aberto o estatuto final da Irlanda do Norte.
O acordo de paz prevê a
realização de um referendo sobre a unificação se parecer provável que a maioria
da população vote a favor.
O recém-nomeado primeiro-ministro britânico, Andy Burnham,
afirmou de forma contundente, na quarta-feira, que não haverá outro referendo
sobre a reunificação enquanto não existir um desejo claro nesse sentido: “Não
tenho conhecimento de que exista apoio maioritário na opinião pública para um
novo referendo e, enquanto isso não mudar, não haverá referendo”, disse
Burnham.
Trump manteve também contactos, este sábado em Dublin, com a
sua homóloga irlandesa, Catherine Connolly, e deverá discursar perante
dirigentes empresariais dos EUA e da Irlanda na residência oficial do
embaixador norte-americano, antes de seguir para o seu campo de golfe à
beira-mar em Doonbeg, do outro lado do país, para assistir ao torneio Irish
Open.
Connolly é uma política de
esquerda que integrou os
protestos aquando da visita de Trump à Irlanda em 2019, durante o seu primeiro
mandato. É agora chefe de Estado eleita da Irlanda, um cargo em grande medida
simbólico e cerimonial.
Defensora da causa
palestiniana, criticou no passado a política dos EUA no Médio
Oriente e descreveu o presidente republicano
como um “bully” nas relações com
outros Estados, pela forma como exerce pressão sobre eles e pela sua abordagem
à política externa e às relações bilaterais.
A presidente irlandesa recebeu Trump no final de uma
passadeira vermelha na sua residência oficial em Dublin. Os dois apertaram as
mãos e conversaram brevemente antes de entrarem. Poucos minutos depois, Trump
saiu sozinho, saudou enquanto uma banda das Forças de Defesa irlandesas tocava
o hino nacional dos EUA e inspecionou uma guarda de honra do exército irlandês.
Trump critica aliados europeus
Durante a conferência de imprensa conjunta com Martin após o
encontro, o presidente dos EUA atacou também os aliados europeus, criticando o
que diz ser um declínio acentuado das suas sociedades.
“Custa-me ver o que está a acontecer à Europa. Custa-me ver o que está a
acontecer no comércio, na energia e na imigração”, afirmou. “Ah… essa
imigração, o que estão a fazer a vocês próprios, estão simplesmente a
destruir-se.”
Criticou ainda a relação de Washington com os aliados
europeus por ser “dececionante”, após a recusa de muitos países em apoiar o
presidente republicano nos esforços de guerra contra o Irão e o caos provocado
pelo encerramento de uma via marítima estratégica, o estreito de Ormuz.
Ainda assim, o presidente dos EUA assegurou que o país
mantém uma relação de trabalho com todos os aliados no continente.
A visita de Trump é o mais recente exemplo da forma como
combina funções oficiais com interesses pessoais.
Trump joga golfe quase todos os fins de semana em campos que
possui na Florida, em Nova Jérsia e na Virgínia. A sua presença no Irish Open
dá continuidade ao hábito de marcar presença em grandes eventos desportivos e
de participar na organização de alguns deles, de
forma a beneficiar o negócio da família.
Os seus campos em Doral, na Florida, e em Bedminster, em
Nova Jérsia, acolheram este ano torneios profissionais de golfe.
O Open da Irlanda é o segundo torneio do circuito europeu a
realizar-se este ano numa propriedade de Trump. O Nexo Championship teve lugar
no mês passado no campo de golfe de Trump em Aberdeen, na Escócia.
No ano passado, Trump deslocou-se à Escócia durante cinco
dias para jogar golfe no seu clube em Turnberry e mais tarde inaugurou um novo
campo de golfe Trump em Balmedie, Aberdeenshire.
Durante essa visita, reuniu-se com o então primeiro-ministro
britânico, Keir Starmer, e com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von
der Leyen, para discutir a sua controversa política global de tarifas
‘recíprocas’.
Fonte: Euronews, 12 de setembro de 2026

Comentários
Enviar um comentário