BMW apreendido pela PJ andou cinco anos com ministros. Quando voltou ao dono, chumbou na inspeção


 César Boaventura, empresário de jogadores de futebol, envolvido no processo Malapata, apresentou uma participação criminal contra os responsáveis que através de um comodato cederam ao ministério da Administração Interna (MAI) um BMW que a PJ lhe apreendeu durante cinco anos.

No final do julgamento, o Tribunal Judicial da Comarca do Porto ordenou a devolução do BMW que, segundo acórdão, não foi produto de qualquer crime, nem usado para o cometer.

A viatura apreendida, requisitada pela PJ para ser usada em "fins investigatórios" - como se pode ler num documento dessa mesma polícia - acabou por fazer 38 quilómetros na Judiciária.

Os restantes 141 mil quilómetros foram percorridos ao serviço dos gabinetes de sucessivos ministros da administração interna, desde José Luís Carneiro até Luís Neves – atual ministro e diretor nacional da PJ quando a viatura foi cedida ao MAI.

Por quase cinco anos de uso de um BMW que custou 60 mil euros (usado), pouco antes de ser apreendido, o Estado quer pagar menos de 10 mil euros a César Boaventura, após lhe descontar as despesas com manutenções e peças desgastadas pelo uso do carro.

“Via ministros num carro igual ao meu”

O empresário de jogadores de futebol foi condenado, já este ano, a 3 anos de pena suspensa por um crime de fraude fiscal e dois de falsificação de documentos, além de ser obrigado a entregar 36 mil euros ao Estado.

A pena foi muito mais pequena do que a acusação do Ministério Público que pedia 8 a 10 anos de prisão, num processo que alegadamente, de início, envolvia mais de um milhão de euros de fraude fiscal e que levou César Boaventura a estar dois anos em prisão domiciliária.

Durante o tempo detido em casa, César Boaventura viu várias vezes na televisão um carro muito semelhante àquele que a PJ lhe tinha apreendido – um BMW com características pouco comuns.

A viatura conduzia ministros da Administração Interna, mas só há poucas semanas, quando o Tribunal Judicial da Comarca do Porto deu ordens para lhe devolverem o carro, é que foi informado que o BMW inicialmente requisitado pela PJ tinha estado quase sempre ao serviço de sucessivos governos.

Semelhante ao VW Golf de Luís Neves

Pela mesma altura, no verão, quando surgiu a decisão de lhe devolver o BMW, o Exclusivo da TVI revelou a situação do VW Golf GTD, conduzido pelo ministro Luís Neves, também apreendido e cedido pela PJ ao MAI.

Alguns peritos garantiam que essa cedência era ilegal tendo em conta que o julgamento ainda estava em curso e as viaturas nessas situações só podem ser usadas por órgãos de polícia criminal – como a PJ – e não por um gabinete governamental.

César Boaventura falou com o seu advogado que tem a mesma interpretação da lei e apresentou uma participação criminal contra quem autorizou a cedência do seu BMW ao MAI, esperando que o seu caso seja investigado no mesmo processo onde se avalia a situação do VW GOLF conduzido por Luís Neves – inquérito confirmado publicamente pelo procurador-geral da república, Amadeu Guerra.

A queixa enviada à Procuradoria-Geral da República pede que sejam investigados os crimes de peculato de uso e de abuso de poder.

9975 euros por 141 mil quilómetros num BMW

Ao todo, pelos 141 mil quilómetros conduzidos no carro, o Estado deveria pagar 24 mil euros (17 cêntimos por quilómetro), mas descontando peças a manutenções, no final, são 9.795 euros – valores que estão nas contas apresentadas pela Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública (ESPAP).

“Estragam-me um farol, metem-no no carro e descontam-me a mim? Metem-lhe pneus, descontam-me a mim? Tem problemas nas jantes, descontam-me a mim? Carregam o ar-condicionado, descontam-me a mim? Eu é que tenho de pagar tudo”, diz César Boaventura que vai para tribunal exigir pelo menos mais 50 mil euros de compensação ao Estado pelo uso do BMW.

Com o passar dos anos e mais 141 mil quilómetros, a viatura não valerá hoje, segundo afirma, mais de 25 mil euros. 

O Exclusivo da TVI fez há uma semana várias perguntas por escrito à PJ sobre este BMW e a cedência de viaturas a gabinetes ministeriais, mas até ao momento não recebeu qualquer resposta.

Chumbo na inspeção

Dias após a PJ lhe devolver o carro, César Boaventura foi parado pela GNR e recebeu uma multa por falta de inspeção. A inspeção tinha sido feita, mas numa altura em que o carro tinha uma outra matrícula, atribuída a viaturas apreendidas que estão cedidas a órgãos de polícia criminal.

O empresário diz que na PJ, quando lhe entregaram a viatura, apenas disseram que esta tinha inspeção, prometendo enviar o comprovativo mais tarde. 

De seguida, o proprietário do BMW levou-o à inspeção e este chumbou por falhas de segurança nos amortecedores e faróis com intensidades muito distintas. Até ser reparado e sujeito a nova inspeção, não pode circular com passageiros nem carga, apenas com o condutor.  

A estranheza de César Boaventura, no entanto, não se fica pela falta de inspeção e intervenções que lhe parecem demasiado caras e desnecessárias no carro.

Sem perceber porquê, o empresário de jogadores de futebol garante que o BMW lhe foi devolvido sem o limitador de velocidade – de 250 quilómetros por hora – obrigatório por lei em viaturas deste tipo que conseguem atingir os 280 quilómetros por hora.

Fonte: TVI Notícias, 2 de outubro de 2026

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Eva Vlaardingerbroek

Astrólogo Paulo Cardoso revela as previsões para 2026