Nova bomba no caso Man City: Rui Pinto oferece-se para entregar mais documentos
Perry Mason
(1957-1966) – Sandra Warner, Zeme North
Abriu-se uma nova frente no caso do Manchester City. Rui
Pinto, o hacker autodidata que fundou o Football Leaks há uma década e
desencadeou a investigação da Premier League ao clube, deu a entender através do
The Guardian que está pronto a colaborar com as autoridades britânicas e
a entregar mais documentos sobre o processo do City, em troca de garantias
quanto à sua segurança.
A proposta surge na mesma semana em que uma comissão
independente considerou o City culpado de 114 das 115 acusações relativas às
épocas entre 2009-10 e 2017-18, concluindo que o clube tinha usado contratos
comerciais «fictícios» para inflacionar receitas em mais de 900 milhões de
libras e que tinha tentado «travar e dificultar» a investigação. O City
recorreu, classificando a decisão de errada e invocando «claros erros
materiais, de direito, de princípio e de facto». As sanções serão decididas
numa audiência separada.
A influência de Pinto não é apenas reputacional. Segundo a
reportagem do Guardian, continua a ter um conhecimento detalhado das
empresas, dos documentos e das pessoas no centro do processo e poderá ter
material que ficou por examinar numa primeira análise. Com 37 anos, já
colaborou pontualmente com investigadores em França, na Alemanha e na Bélgica;
o Reino Unido, caso aceite, juntar-se-á a essa lista.
«Uma situação que põe a minha vida em risco»
A oferta surge no momento em que o próprio Pinto perde a
proteção de que beneficiava em Portugal desde agosto de 2020. A 30 de setembro,
poucas horas depois do veredicto sobre o City, a comissão que gere o programa
português de proteção de testemunhas informou-o de que estava a ser retirado do
mesmo, com a sua cobertura policial a terminar a 10 de outubro. Foi agredido em
Lisboa em abril.
«A 30 de setembro de 2026, poucas horas depois do veredicto
que oficialmente confirmou a culpa do Manchester City, a comissão responsável
pelo programa de proteção de testemunhas de Portugal informou-me da sua decisão
de pôr fim à minha participação no programa e de retirar a minha proteção
policial, colocando-me assim conscientemente numa situação que põe a minha vida
em risco.»
Afirmou que foi forçado a esconder-se.
«Perante estas circunstâncias, não tenho outra alternativa
senão deslocar-me, nos próximos dias, para um local não revelado por tempo
indeterminado, devido às múltiplas ameaças de morte que recebi e ao grave risco
de uma tentativa de assassinato contra mim.»
A sua equipa jurídica acusou o Estado português de
«terrorismo de Estado» e apresentou recurso da decisão.
Do Football Leaks ao Etihad
Pinto, de 37 anos, é um hacker informático português natural
dos arredores do Porto. Fundou o Football Leaks em 2015 sob o pseudónimo «John»
e, entre 2016 e 2018, entregou mais de 70 milhões de documentos confidenciais a
um consórcio de jornais de investigação europeus. Esses ficheiros tornaram-se a
espinha dorsal das acusações da Premier League ao City, apresentadas pela
primeira vez em fevereiro de 2023.
O seu próprio historial judicial é complexo. Recebeu uma
pena suspensa de quatro anos em Portugal, em setembro de 2023, por crimes
informáticos, e uma pena suspensa de seis meses em França, no mesmo ano, pela
pirataria de emails de dirigentes do Paris Saint-Germain. Em abril, foi
absolvido de 241 acusações num segundo julgamento em Portugal, resultado que os
seus apoiantes apontam como uma reabilitação.
A pedir 3 milhões de euros ao público
Com o fim da proteção do Estado, Pinto virou-se para o
público. Lançou uma campanha de angariação de fundos a pedir 3 milhões de euros
para financiar a vida fora da cobertura da polícia portuguesa; até ao momento,
reuniu cerca de 27 mil euros.
«Por esta razão, acabei de lançar uma campanha no GoFundMe e
peço o apoio de todos para me ajudar a sobreviver a esta situação grave criada
pelo Estado português, que, como já afirmei, decidiu conscientemente colocar a
minha vida em risco.»
O governo britânico ainda não reagiu publicamente. O recurso
do Manchester City foi apresentado na passada quinta-feira e a data da
audiência sobre as sanções ainda está por marcar.
Fonte: Lente Desportiva, 7 de outubro de 2026


Comentários
Enviar um comentário