O Ocidente evangelizou a África. Agora os cristãos africanos estão redesenhando o mapa missionário
Há dois anos, o pastor nigeriano Jerry Eze chegou a Londres
para conduzir uma conferência de oração em Twickenham - o maior estádio de
râguebi do mundo - e perguntou-se imediatamente se teria escolhido o local
errado.
O evento ainda não tinha começado, e a arena com capacidade
para 82 mil pessoas parecia ainda maior do que tinha imaginado, com filas de
lugares vazios a estenderem-se diante dele.
Mas, à medida que a hora de início se aproximava, os fiéis
começaram a chegar, ocupando os lugares um a um. Pouco depois, o enorme estádio
estava lotado - não de adeptos de râguebi ou de espectadores de concertos, mas
de milhares de pessoas que tinham ido rezar com um pregador africano.
Quando Eze subiu ao palco e se deparou com a multidão, contou à CNN que sentiu uma mistura de nervosismo e gratidão - rezando para cumprir aquilo que acreditava ser o propósito de Deus para estar ali.
Eze chega a uma audiência global através de transmissões
diárias de orações no YouTube.
Para ele, o que aconteceu em Twickenham mostrou como o
cristianismo está a mudar em todo o mundo.
Durante gerações, a missão cristã partiu sobretudo da Europa
e da América do Norte em direção a África. Os missionários chegavam
frequentemente acompanhados por forças militares europeias, ligando
estreitamente a missão cristã ao domínio colonial aos olhos de muitos
africanos.
A sua presença continua a fazer-se sentir - os Estados Unidos continuam a ser, de longe, o país que mais
missionários envia para o estrangeiro, segundo a World Christian
Database. Ainda no mês passado, o missionário norte-americano Kevin Rideout foi
libertado após nove meses em cativeiro no Níger, onde trabalhava com a SIM
International, uma organização missionária cristã que opera no país há mais de
100 anos.
Mas agora o fluxo faz-se nos dois sentidos. Uma nova geração
de cristãos africanos está a desafiar esse padrão antigo, levando o evangelho
na direção oposta.
“Quando estava a crescer, a imagem habitual de um
missionário era a de um ocidental a vir para África”, contou Tshepang Basupi,
diretor para a África Austral da Africa Inland Mission, à CNN. “Hoje, temos
africanos a ir para outras partes de África, para a Ásia, para a Europa e para
a América do Norte.”
Basupi, que é do Botsuana, lidera mais de 100 missionários e
ajuda a recrutar africanos para o trabalho missionário intercultural.
Muitos estão a descobrir que o seu estilo de pregação é
muito popular entre a diáspora africana na Europa e na América do Norte, onde
respondem a uma procura por um tipo diferente de cristianismo. Em vez de
levarem uma nova religião a uma população, estes missionários estão a levar um
novo estilo de religião a lugares que consideram ter perdido o fervor que veem
no seu país de origem.
Eze descreve-se como “um missionário para o Ocidente” e afirma que esta influência resulta, em parte, da forma como os africanos praticam o cristianismo.
“Para nós, aqui em África, é o fervor e o entusiasmo com que
o fazemos. Há uma paixão e uma resistência africanas”, afirmou, acrescentando:
“O fogo está a desaparecer do Ocidente.”
De África para o mundo
Este movimento não é novo, mas tem crescido à medida que o
cristianismo se expande em África.
Em 2008, cerca de 18 400 missionários africanos tinham
trabalhado no estrangeiro, segundo uma estimativa. Embora não existam dados
mais recentes que permitam uma comparação direta, um relatório de 2024 do
Movimento de Lausanne, com base em dados da World Christian Database, concluiu
que a atividade missionária é agora muito mais global, com a Nigéria, por si só, a enviar cerca de 20 mil
missionários para o estrangeiro em 2020.
A CAPRO, uma organização missionária da Nigéria, afirma ter
mais de 800 missionários de mais de 27 países a trabalhar em 46 países em todo
o mundo, incluindo o Canadá, onde as suas equipas fazem evangelização junto de
comunidades indígenas.
Dondo Iorlamen, diretor internacional da CAPRO, considera
que África está bem posicionada para enviar missionários, uma vez que o
cristianismo está a ganhar força no continente. “África e a Ásia são as
principais regiões do mundo no envio de missionários”, afirmou.
A missão não consiste apenas em levar as pessoas de volta à
fé. Alguns cristãos africanos também veem esta atividade como uma forma de
recuperar valores cristãos que, na sua opinião, o Ocidente abandonou.
Harvey Kwiyani, um teólogo do Maláui radicado em Inglaterra
que estuda o cristianismo africano e o seu papel no Ocidente, afirmou que isso inclui posições conservadoras sobre a sexualidade,
bem como diferenças em relação ao quotidiano, como frequentar bares,
algo que alguns pentecostais africanos consideram incompatível com a vida
cristã.
“Os
africanos estão a chegar para voltar a evangelizar os ocidentais, para que
estes possam regressar àquilo que consideram ser valores cristãos”,
explicou à CNN.
Mas Kwiyani mostra-se cético quanto ao sucesso desse
esforço. Afirma que o Ocidente, em grande medida, “seguiu em frente em relação
ao cristianismo” e que muitas pessoas já não se consideram religiosas.
“O próprio cristianismo é uma religião muito exigente”,
afirmou. “Exige que, de certa forma, mudemos a nossa cultura para sermos
moldados por Deus em espírito, e a maioria dos ocidentais não quer realmente
lidar com isso neste momento.”
O movimento crescente de cristãos africanos para o Ocidente
é por vezes descrito como “missão inversa”. Mas Basupi rejeita essa ideia.
“‘Missão inversa’ parte do princípio de que a missão
pertence ao Ocidente e de que África está simplesmente a inverter a direção do
movimento missionário ocidental”, explicou. “A missão não é apenas para o
Ocidente; é para todos os crentes.”
Porquê o Ocidente?
Eze afirma que as missões africanas estão cada vez mais a
olhar para o Ocidente porque muitas igrejas estão a diminuir e há menos pessoas
que se identificam como religiosas.
O declínio é visível em toda a Europa. Um estudo da Pew de 2025
concluiu que 67% das pessoas na Europa eram cristãs em 2020, face a 75% em
2010. Na América do Norte, 63% eram cristãs em 2020, contra 77% em 2010.
Os Estados Unidos também registaram uma diminuição do número
de cristãos. O mais recente Religious Landscape Study, do Pew Research Center,
concluiu que 62% dos adultos norte-americanos se identificavam como cristãos em
2023-2024, enquanto 29% não tinham qualquer afiliação religiosa.
Na
África subsaariana, o número de cristãos cresceu 31% entre 2010 e 2020,
atingindo os 697 milhões, segundo o Pew. A região é agora aquela que
alberga a maior população cristã do mundo.
Eze vê estas mudanças como prova de uma necessidade
espiritual que os cristãos africanos podem ajudar a responder.
“Estas são as pessoas que nos mostraram Deus”, afirmou. “Mas
o cristianismo está a diminuir lá.”
Acredita que “o testemunho do
renascimento espiritual está agora em África” - e que o cristianismo
africano tem algo de que o Ocidente precisa.
“Deus deu-nos algo a que chamamos o miraculoso. É a nossa
moeda. É algo que eles procuram”, sublinhou, descrevendo a forte importância
que muitos cristãos africanos atribuem à oração, à cura e ao sobrenatural.
O pastor nigeriano William Kumuyi, cujas Cruzadas Globais
levaram o seu ministério a países de vários continentes, considera que essas
características são um traço mais amplo do cristianismo africano.
“O cristianismo em África
caracteriza-se por uma fé sem reservas, uma oração fervorosa e uma confiança na
intervenção sobrenatural de Deus”, afirmou, acrescentando que as
igrejas africanas podem oferecer às sociedades ocidentais “uma paixão renovada
pela autoridade das Escrituras, pela santidade da vida e pela expectativa de
milagres”.
Mas chegar ao Ocidente nem sempre significa chegar a grandes
números de ocidentais.
As igrejas africanas no Ocidente servem frequentemente
comunidades de migrantes. Um estudo de 2021 do Conselho Mundial de Igrejas
concluiu que a migração está a contribuir para o crescimento de igrejas
minoritárias em alguns países europeus.
“Elas não estão a crescer entre os brancos. Estão a crescer
entre os migrantes, sobretudo africanos”, afirmou Iorlamen.
Eze, cujo ministério tem igrejas nos Estados Unidos, no
Reino Unido e no Canadá, afirmou que muitos dos que participam nas suas
conferências são negros, mas que também há
alguns brancos.
Kumuyi explicou que o objetivo é chegar para além das
comunidades da diáspora.
“Embora as comunidades da diáspora proporcionem
frequentemente um ponto de entrada inicial, o nosso objetivo claro nunca é
criar enclaves étnicos”, sublinhou. “Nas cidades canadianas de Granby, Toronto
e Hamilton, bem como nas iniciativas em toda a Ásia e Oceânia, o foco está na
população local em geral.”
Uma missão em mudança, com velhos fardos
A mudança na direção da missão cristã está também a desafiar
a velha ideia do que é um “missionário”.
Iorlamen afirma que a palavra continua associada ao peso do
passado colonial de África.
“Algumas pessoas não gostam dela”, salientou. “Faz-lhes
lembrar o colonialismo e as ofensas cometidas por alguns missionários -
conspirando com os governantes coloniais para escravizar pessoas.”
Basupi afirma que o papel crescente dos cristãos africanos
na missão global não significa que os missionários ocidentais já não sejam
necessários em África.
“Há espaço para todos”, sublinhou. “Devemos vir como
parceiros iguais e companheiros de serviço, aprendendo uns com os outros e
contribuindo onde somos necessários.”
Dois anos depois de Twickenham, Eze prepara-se para regressar à Grã-Bretanha para uma conferência no estádio Old Trafford, em Manchester, com quase 100 mil pessoas inscritas, segundo o próprio.
Quer isso reflita um renascimento entre as populações
ocidentais ou a força da diáspora cristã africana, Eze vê nisso um novo
capítulo.
“Eles pregaram-nos Deus. Nós aceitámo-Lo e quisemos
conhecê-Lo. Agora, estamos a regressar para lhes mostrar aquilo que Ele pode
fazer.”


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