Quer envelhecer mais devagar? Cientistas analisaram 51 estudos e descobriram o que parece funcionar (e o que não faz diferença)
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Um novo
estudo, publicado na revista científica Nature Medicine e citado pelo Medical
News Today, analisou dados de 51 estudos longitudinais de intervenção e
mais de 110 biomarcadores de metilação do ADN relacionados com o envelhecimento
Envelhecer é inevitável. A velocidade a que o organismo
envelhece, porém, pode não ser exatamente a mesma para todas as pessoas — e
alimentação e exercício estão entre as intervenções associadas a alterações em
marcadores biológicos relacionados com um envelhecimento mais lento.
Um novo estudo, publicado na revista científica Nature
Medicine e citado pelo Medical News Today, analisou dados de 51
estudos longitudinais de intervenção e mais de 110 biomarcadores de metilação
do ADN relacionados com o envelhecimento.
Os resultados apontam para possíveis efeitos de determinados
padrões alimentares, exercício físico e alguns medicamentos. Já no caso dos
suplementos vendidos sem receita médica, os investigadores encontraram poucas
evidências de benefícios antienvelhecimento.
Há, contudo, uma ressalva fundamental: alterar estes
biomarcadores não significa que tenha sido demonstrado que uma pessoa está
efetivamente a envelhecer mais devagar ou que irá viver mais anos.
O que é afinal a idade biológica?
A idade indicada no cartão de cidadão conta simplesmente o
tempo decorrido desde o nascimento. A chamada idade biológica procura avaliar o
estado fisiológico do organismo e, dessa forma, fornecer informação sobre a
forma como uma pessoa está a envelhecer.
Uma das ferramentas utilizadas pelos investigadores são os
chamados relógios epigenéticos.
Ao longo da vida, determinados padrões de metilação do ADN
vão sofrendo alterações. Através da análise dessas modificações, os cientistas
desenvolveram biomarcadores destinados a estimar diferentes aspetos associados
ao envelhecimento biológico.
Neste trabalho, os investigadores harmonizaram os dados de
51 estudos e aplicaram o mesmo conjunto de 16 relógios epigenéticos e outros 94
biomarcadores de metilação do ADN.
Segundo Şebnem Ünlüişler, engenheira genética e Chief
Longevity Officer do London Regenerative Institute, que não participou no
estudo, a dimensão e a metodologia padronizada permitiram comparar de forma
mais sistemática a resposta dos diferentes biomarcadores às várias
intervenções.
Dieta e exercício estão entre as intervenções que mais se
destacam
Entre as alterações de estilo de vida, duas apresentaram
resultados favoráveis nos marcadores analisados: seguir uma alimentação
considerada saudável e praticar exercício regularmente.
Foram observados efeitos em padrões alimentares como a dieta
mediterrânica, dietas com baixo teor de hidratos de carbono e dietas com baixo
teor de gordura.
O exercício físico regular também esteve associado a uma
redução do envelhecimento epigenético medido pelos biomarcadores.
Segundo Ünlüişler, as intervenções relacionadas com
alimentação e estilo de vida tenderam a apresentar respostas mais consistentes
entre diferentes marcadores.
Os maiores efeitos médios, contudo, surgiram com algumas
intervenções farmacológicas.
Metformina e semaglutido tiveram efeitos nos marcadores, mas
há um aviso importante
Entre os medicamentos analisados estavam a metformina,
utilizada no tratamento da diabetes tipo 2, o semaglutido, um agonista do GLP-1
prescrito para diabetes tipo 2 e controlo do peso, e terapias anti-TNF
utilizadas para controlar processos inflamatórios.
Estas intervenções diminuíram significativamente a idade
medida pelos 16 relógios epigenéticos utilizados no estudo.
Isso não significa, porém, que pessoas saudáveis devam
recorrer a estes medicamentos para tentar retardar o envelhecimento.
Ünlüişler sublinha que os resultados são cientificamente
interessantes, mas “não devem ser interpretados como evidência de que estes
medicamentos devem ser tomados por pessoas saudáveis para retardar o
envelhecimento”.
Parte dos estudos foi realizada em populações com doenças
específicas. Assim, as alterações observadas poderão resultar, pelo menos
parcialmente, da melhoria da doença, da inflamação ou da saúde metabólica e não
de um efeito direto sobre o processo de envelhecimento.
E os suplementos antienvelhecimento? A evidência é fraca
Os resultados foram muito menos animadores para os
suplementos vendidos sem receita médica.
“A evidência para os suplementos foi limitada e
inconsistente”, explicou Raghav Sehgal, investigador da Yale University School
of Medicine e autor correspondente do estudo.
Isso não significa que todos os suplementos sejam inúteis.
Podem ser importantes quando existem deficiências específicas ou determinadas
necessidades médicas.
O problema está nas promessas de utilização generalizada
para retardar o envelhecimento.
“Para pessoas geralmente saudáveis, muitas alegações
antienvelhecimento estão à frente da evidência”, alertou Sehgal.
A recomendação é bastante menos espetacular do que muitas
das soluções comercializadas para a longevidade: alimentação, exercício, sono e
cuidados preventivos continuam a ter prioridade.
Um relógio biológico melhorar não significa que esteja
provado que envelhecemos mais devagar
Esta é a principal cautela necessária para interpretar o
estudo.
Os biomarcadores permitem detetar alterações biológicas ao
longo de meses ou anos, sem esperar décadas para perceber se determinada
intervenção reduziu doenças ou prolongou efetivamente a vida.
Mas são precisamente isso: marcadores. “Não substituem
estudos de longo prazo”, salienta Sehgal.
Será necessário demonstrar que as alterações registadas
nestes relógios epigenéticos se traduzem efetivamente em pessoas que permanecem
saudáveis durante mais tempo, mantêm melhor capacidade física e cognitiva,
desenvolvem menos doenças ou vivem mais anos.
“O ponto fundamental é que um biomarcador responder a uma
intervenção não é o mesmo que provar que a intervenção retarda o
envelhecimento”, reforçou o investigador.
Então, o que pode realmente fazer para envelhecer melhor?
A resposta final dos especialistas dificilmente poderia ser
menos revolucionária. “Não existe ainda uma única intervenção que tenha
demonstrado retardar amplamente o envelhecimento nos seres humanos”, afirmou
Sehgal.
As medidas com maior sustentação científica continuam a ser
não fumar, praticar exercício regularmente, ter uma alimentação equilibrada,
dormir adequadamente e controlar fatores como pressão arterial, colesterol e
diabetes.
Ünlüişler destaca igualmente o exercício aeróbico e de
resistência, uma alimentação equilibrada de padrão mediterrânico, manutenção de
um peso saudável, limitação do consumo de álcool e um sono suficiente e
regular.
Podemos não conseguir alterar a idade cronológica. Mas
existem comportamentos capazes de influenciar processos biológicos associados à
forma como envelhecemos.
E, pelo menos por enquanto, a conclusão dos investigadores
deixa pouco espaço para atalhos: esses hábitos comuns têm evidência muito mais
sólida para favorecer uma vida saudável do que qualquer suplemento isolado ou
alegado tratamento antienvelhecimento.
Fonte. Executive Digest, 3 de outubro de 2026

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