Assim era o sentimento de impunidade daquela triste gente
“Quando eu era pequeno, em casa dos meus pais, habituámo-nos a viver com o facto de ter o telefone sob escuta da PIDE. Esse conhecimento obrigava-nos a ter uma permanente atenção e contenção naquilo que se dizia ao telefone e, às vezes mesmo, a avisar os interlocutores de que o telefone estava sob escuta, não fossem eles descaírem-se com qualquer frase que permitisse à polícia política de então concluir que estava em marcha qualquer ‘atividade subversiva’.
Havia, aliás, um lado de bravata no facto de, volta e meia, dizermos de
forma a ser bem entendidos pelo PIDE de escuta que sabíamos que ele estava ali.
E, como os meios técnicos eram então bem mais primitivos e a própria PIDE era
constituída por gente boçal e estúpida, não era raro que o ouvidor se
denunciasse a si próprio, produzindo sons que o traíam: houve mesmo um que
certa altura não se conteve e entrou a meio de uma conversa telefónica de uma
irmã minha, com um comentário ordinário.
Assim era o sentimento de impunidade daquela triste gente. Eu cresci assim
com um instinto de profundo nojo e repulsa pela atividade que consiste em ouvir
as conversas alheias, devassar a respetiva intimidade, retirar a alguém o
direito essencial a manter íntimo o que é seu e a manter secreta a sua
correspondência.”
Miguel Sousa Tavares, 2 de dezembro de
2005 - graças a Deus a intelectualidade portuguesa, passada a moda de ser
contra os métodos da PIDE, na era moderna, reconsideraram, e agora pugnam pelo
fim do secretismo da correspondência.
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