O fantasma de Dick Cheney tem um plano para a guerra na Venezuela
Perry Mason
(1957-1966) – Dennis Patrick
O flirt
de Trump com a mudança de regime em Caracas apresenta semelhanças assustadoras
com o período que antecedeu a invasão do Iraque em 2003
O ex-vice-presidente Richard Cheney, que faleceu há poucos
dias aos 84 anos, fez um discurso numa convenção dos Veteranos das Guerras
Estrangeiras em agosto de 2002, no qual a frase mais marcante foi: “Não há dúvida de que Saddam Hussein possui agora armas de
destruição maciça”.
O discurso foi essencialmente o pontapé de saída da intensa
campanha da administração George W. Bush para vender uma guerra no Iraque, que
seria iniciada em março do ano seguinte. A campanha precisava de ser intensa,
pois estava a vender uma guerra de agressão — a primeira grande guerra ofensiva
que os Estados Unidos iniciariam em mais de um século. Esta guerra será para
sempre uma parte importante do legado de Cheney.
A escalada do confronto com a Venezuela por parte da
administração Donald Trump apresenta paralelos perturbadores com o período que
antecedeu a Guerra do Iraque. Em alguns aspetos em que as histórias parecem
divergir, as circunstâncias que envolvem Trump e a Venezuela são ainda mais
alarmantes do que no caso do Iraque.
Uma semelhança reside na corrupção da relação entre
inteligência e política. Em vez de os decisores políticos utilizarem a
inteligência como base para as suas decisões, tentaram utilizar fragmentos de
informação publicamente para justificar uma política pré-determinada. Esta
parte da história da Guerra do Iraque já foi detalhada noutro texto. 1
O discurso de Cheney à VFW precedeu e, na prática, impediu o trabalho da comunidade de inteligência numa estimativa confidencial, que se tornaria notória por si só, sobre os programas de armamento iraquianos. Quando Bob Graham, que faleceu no ano passado e em 2002 presidiu à Comissão de Inteligência Selecionada do Senado, se tornou um dos poucos membros do Congresso a dar-se ao trabalho de ler esta estimativa, ficou tão surpreendido com a discrepância entre as avaliações da comunidade de inteligência e o que o governo dizia publicamente, que votou contra a resolução que autorizava a guerra.
A administração Trump está a utilizar a mesma tática de
mensagens preventivas vindas de cima, independentemente do que as agências de
informação possam estar a dizer sobre a Venezuela, que a administração Bush
utilizou em relação ao Iraque. As declarações de Trump sobre o regime de
Nicolás Maduro têm um tom definitivo, semelhante à formulação categórica de
Cheney sobre os programas de armamento iraquianos.
Para além das armas de destruição maciça, a outra grande
questão que a administração Bush tentou atribuir ao regime iraquiano de Saddam
Hussein — capitalizando a indignação pública americana com o terrorismo após os
ataques de 11 de setembro — foi uma alegada “aliança”
entre o regime iraquiano e a Al-Qaeda. Tal aliança não existiu, e as
afirmações do governo sobre o assunto contradiziam as avaliações da comunidade
de inteligência.
O paralelo com a situação atual em relação à Venezuela é
especialmente claro, dadas as afirmações da administração Trump sobre a relação
entre o regime de Maduro e certos gangues ou cartéis de droga, que o governo
equipara a grupos terroristas. Trump declarou que o grupo mais frequentemente
mencionado, o Tren de Aragua, está a “operar sob o controlo de” Maduro. Esta
afirmação é contrariada pelos pareceres da comunidade de inteligência, tal como
incorporados num memorando que está agora disponível em versão editada. 2
A administração Bush não só ignorou os pareceres dos
serviços de informação que não apoiavam a sua justificação para a guerra, como
também tentou ativamente desacreditá-los, e o gabinete de Cheney fez parte
disso. Por exemplo, os decisores políticos tentaram dificultar a vida a um
antigo embaixador, Joseph Wilson, que, como resultado de uma pesquisa de campo
que realizou para a comunidade de inteligência, conseguiu
refutar uma afirmação do governo sobre o Iraque comprar urânio em África.
As dificuldades impostas a
Wilson envolveram a revelação, que pôs fim à carreira da sua mulher, que era
uma agente infiltrada dos serviços de informação. O assessor de Cheney,
I. Lewis “Scooter” Libby, foi condenado e sentenciado a pena de prisão por
obstrução à justiça e perjúrio em relação a este caso.
Cheney pressionou, sem sucesso, o presidente Bush para que
perdoasse Libby. Mas, numa ligação adicional com o presente, Trump concedeu um indulto a Libby em 2018.
A administração Trump é mais implacável do que a de Bush
alguma vez foi em dificultar a vida a qualquer pessoa que ouse questionar as
suas afirmações ou que, de alguma forma, atrapalhe os seus planos. Após a divulgação do memorando de inteligência que
contradizia as afirmações sobre a ligação entre o regime de Maduro e o Comboio
de Aragua, o chefe e o vice-chefe da unidade responsável pela
elaboração do memorando — que tinha sido coordenado por toda a comunidade de
inteligência — foram demitidos.
Um dos aspetos mais notáveis da decisão de Bush de entrar
em guerra no Iraque foi a ausência de um processo político que a antecedesse.
Não houve nenhum documento de opções ou reunião entre os principais membros da
administração que abordasse a questão de se iniciar uma guerra no Iraque seria
uma boa ideia.
A situação paralela na administração Trump envolve a desordem produzida por purgas políticas generalizadas e pelo próprio estilo de atuação impulsivo de Trump. Particularmente relevante tem sido o desmantelamento do Conselho de Segurança Nacional, 3 onde seria gerido um processo político ordenado. A desordem neste organismo tem sido corretamente apontada como responsável por recentes fracassos políticos noutras questões, como as concessões relacionadas com a segurança à China.
A mudança de regime no Iraque
era um sonho antigo dos neoconservadores americanos. O clima
militante pós-11 de setembro entre o público americano e a nomeação de
neoconservadores proeminentes para cargos importantes na administração Bush
tornaram finalmente este sonho alcançável.
O derrube dos regimes de esquerda na América Latina tem sido
um objetivo igualmente antigo de uma corrente de opinião cuja influência na administração Trump é representada
especialmente pelo Secretário de Estado Marco Rubio. O regime de Maduro na
Venezuela é o alvo imediato, mas esta corrente de opinião é impulsionada, pelo
menos em grande medida, pela fervorosa oposição ao regime de Cuba, país aliado
da Venezuela. Como chefe interino do Conselho de
Segurança Nacional e também Secretário de Estado, Rubio está numa posição privilegiada para impedir
qualquer processo político que possa travar o movimento em direção à mudança de
regime.
Após uma aparente falta de rumo claro durante os primeiros
meses do seu mandato, Bush encontrou um propósito como “presidente da guerra”.
Mesmo após um grande impulso nas sondagens depois do 11 de setembro, liderar a
nação numa guerra real com tiros, em vez de apenas uma metafórica "guerra
contra o terror", parecia ser a forma mais provável de sustentar o
propósito e a popularidade. Assim, Bush era suscetível de ser levado ao
imbróglio do Iraque pelos neoconservadores da sua administração e por
nacionalistas assertivos como Cheney e o então secretário da Defesa Donald
Rumsfeld.
Donald Trump, com as
sondagens em baixa, precisa ainda mais de um impulso e de uma distração da
situação económica que está por
detrás das suas baixas taxas de aprovação. E Trump favorece claramente a tática
de fazer coisas que distraiam a atenção. É também vulnerável a ser influenciado
menos por qualquer processo político do que pela última pessoa na sala, pelo
menos por certo tipo de pessoas, como é ilustrado pela notável influência da ativista
de direita Laura Loomer na sua administração.
Nunca devemos perder de vista o quão colossal foi o erro da
Guerra do Iraque. As baixas americanas incluíram mais de 4400 mortos e quase 32
000 feridos. Os custos monetários, diretos e indiretos, ultrapassam os 3
biliões de dólares. A guerra deixou um Iraque devastado pela insurgência,
levando à criação do grupo terrorista que ficaria conhecido como Estado
Islâmico (ISIS) e que assumiria o controlo de grande parte do Iraque e da
Síria, além de fortalecer a influência iraniana. As repercussões negativas
ainda hoje se fazem sentir, como se reflete na recente declaração do primeiro-ministro
iraquiano de que não ocorrerá qualquer desarmamento das milícias influenciadas
pelo Irão até que os Estados Unidos se retirem completamente do Iraque.
Muitos americanos, tanto de direita como de esquerda,
depositaram esperança em Trump quando este falou sobre não querer mais guerras
no estrangeiro. Mas a trajetória atual não é tranquilizadora, e não se deve
confiar muito no seu recente comentário numa entrevista, no qual desvalorizou a
possibilidade de uma guerra americana na Venezuela.
Paul R. Pillar
Fonte: Responsible Statecraft, 10 de novembro de 2025
1. “Inteligência e política externa dos EUA: Iraque, 11 de setembro e reformas enganosas”
Uma carreira de quase três décadas na CIA e no Conselho Nacional de Informações mostrou a Paul R. Pillar que as reformas dos serviços de informação, especialmente as medidas implementadas após o 11 de Setembro, podem ser profundamente erradas. Ignoram frequentemente as fontes que sustentam políticas falhadas e interpretam erradamente a nossa capacidade de perceber as influências externas. Concebem também erradamente a relação entre a inteligência e a política externa e promovem mudanças que enfraquecem as operações de recolha de informações.
Neste livro, Pillar confronta os mitos da inteligência em que os americanos passaram a apoiar-se para explicar as tragédias nacionais, incluindo a crença de que a inteligência impulsiona as principais decisões de segurança nacional e pode ser corrigida para evitar futuros fracassos. Pillar acredita que estes pressupostos desperdiçam recursos críticos e criam políticas prejudiciais, desviando a atenção de reformas mais inteligentes e impedindo os americanos de reconhecerem os limites do conhecimento disponível.
Pillar revisita a política externa dos EUA durante a Guerra Fria e destaca o pequeno papel que a inteligência desempenhou nessas decisões, além de demonstrar o efeito insignificante que as falhas mais notórias da inteligência americana tiveram sobre a política e os interesses dos EUA. Em seguida, ele analisa em detalhes os eventos do 11 de setembro e a invasão do Iraque em 2003, condenando a comissão do 11 de setembro e o governo de George W. Bush por suas representações do papel da inteligência. Pillar oferece uma abordagem original para informar melhor a política dos EUA, que envolve isolar a gestão da inteligência da politização e reduzir a camada nomeada politicamente no poder executivo para combater perceções distorcidas das ameaças estrangeiras. Pillar conclui com princípios para adaptar a política externa às inevitáveis incertezas.
2.
3. O Conselho de Segurança Nacional (National Security Council, NSC) é um órgão do governo dos Estados Unidos responsável por assessorar o presidente em questões de segurança nacional, política externa e defesa.
Funções principais:
a) Coordenar as políticas de segurança e defesa entre as várias agências governamentais — como o Departamento de Estado, o Pentágono, a CIA e o Departamento de Segurança Interna.
b) Garantir que as decisões do presidente sejam implementadas de forma coerente e eficiente.
c) Reunir informação estratégica e preparar respostas a crises internacionais ou ameaças à segurança dos EUA.
Composição típica:
O presidente dos EUA (que preside o Conselho);
O vice-presidente;
O secretário de Estado (responsável pela política externa);
O secretário de Defesa;
O Conselheiro de Segurança Nacional, que coordena o trabalho diário do Conselho e serve de elo entre as agências e o presidente.
Durante a administração Trump, o Conselho de Segurança Nacional — tradicionalmente o coração organizativo da política externa e de defesa dos Estados Unidos — sofreu um processo de desmantelamento interno sem precedentes. Criado em 1947, o NSC tinha como função principal coordenar a segurança nacional, articulando as posições do Departamento de Estado, do Pentágono, da CIA e de outras agências num processo racional e hierarquizado de tomada de decisão.
Sob Donald Trump, esse mecanismo foi deliberadamente enfraquecido por meio de purgas políticas, centralização impulsiva de poder e substituição de diplomatas e analistas experientes por assessores leais, mas inexperientes. Trump, célebre pelo seu estilo de gestão personalista e imprevisível, via o NSC como um obstáculo burocrático à sua autoridade. O órgão, que deveria garantir continuidade e consistência estratégica, passou a funcionar de forma errática e subordinada à vontade momentânea do presidente. Reuniões eram frequentemente dispensadas, relatórios técnicos ignorados e decisões tomadas via Twitter ou em conversas improvisadas com líderes estrangeiros.
O “esvaziamento” do Conselho de Segurança Nacional — através de cortes de pessoal, marginalização de especialistas e centralização de decisões no círculo íntimo da Casa Branca — teve consequências diretas na coerência da política externa norte-americana. Esse processo, iniciado sob John Bolton e consolidado por Robert O’Brien, eliminou os mecanismos de coordenação interagências que tradicionalmente garantiam a consistência estratégica da ação dos Estados Unidos.
O resultado foi uma política externa cada vez mais fragmentada, dependente do impulso presidencial e das dinâmicas mediáticas do momento.
A guerra comercial com a China, por exemplo, tornou-se uma sucessão de medidas unilaterais sem respaldo técnico ou diplomático. As tarifas eram impostas e retiradas sem consulta às agências económicas, transformando um instrumento de pressão em espetáculo político.
Na Coreia do Norte, a diplomacia transformou-se em encenação televisiva. Após uma escalada inicial de ameaças — com trocas de insultos diretos entre Trump e Kim Jong-un —, seguiu-se uma súbita inversão: uma série de encontros pessoais entre ambos, apresentados como eventos históricos. Depois de o primeiro encontro ter sido anunciado e cancelado num curto intervalo de semanas, Trump e Kim reuniram-se finalmente em Singapura, em junho de 2018, e depois em Hanói, em 2019. Contudo, apesar do espetáculo mediático e da promessa de “paz inédita”, nenhuma das cimeiras resultou em acordos concretos sobre a desnuclearização da península coreana.
A retirada improvisada das tropas da Síria — anunciada via Twitter e sem qualquer consulta ao NSC ou aos aliados — foi outro reflexo desse colapso institucional. A decisão abriu espaço para a intervenção da Rússia e da Turquia e expôs o vazio de coordenação dentro da própria administração.
Mesmo a política para o Irão oscilou entre confrontação militar e apelos ocasionais ao diálogo, sem coerência estratégica. O assassinato do general Qassem Soleimani em 2020 foi decidido fora do processo habitual de avaliação de riscos, ilustrando o grau de desarticulação a que o sistema tinha chegado.
Com o NSC reduzido a uma estrutura decorativa, a política externa americana passou a refletir o temperamento presidencial, e não uma estratégia de Estado — uma rutura inédita desde a criação do Conselho em 1947. O resultado foi uma política externa de impulsos, onde o cálculo estratégico cedeu lugar ao instinto e à necessidade de gerar impacto mediático.
O esvaziamento do Conselho não foi apenas administrativo — foi simbólico: marcou o colapso da racionalidade institucional da política externa norte-americana em favor de um presidencialismo de espetáculo, mais preocupado com perceções momentâneas de força do que com resultados de longo prazo.










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