A bolacha Maria e o país terminal

 

Há sempre uma bolacha Maria à espreita em Portugal

Vai-se a uma escola: bolacha Maria. Vai-se a um lar: bolacha Maria. Vai-se a um hospital: bolacha Maria. Vai-se ao Instituto de Oncologia, onde uma pessoa imagina que a nutrição devia ser quase sagrada, e lá está ela, muito “tradicional”, a fazer-se passar por alimento.

Ela tem nome de avó, ar de catequese e reputação de santinha. Mas basta ler o rótulo para perceber que aquela inocência toda é teatro: farinha refinada, açúcar, gordura vegetal ou óleo refinado, xaropes, emulsificantes, aromas.

Não é comida a sério. É engenharia de prateleira. É um ultraprocessado barato, portátil, seco, inofensivo à vista e miserável no conteúdo.

A bolacha Maria é o símbolo perfeito do nosso país alimentar: uma nação muito velha e muito doente, onde se dá o pior aos mais frágeis e se chama a isso cuidado.

Portugal apresenta um dos perfis demográficos mais envelhecidos da Europa. Cerca de 25% da população tem 65 ou mais anos. Logo, no domínio cerebrovascular, Portugal apresenta indicadores preocupantes. Além disso, cerca de 13% da população portuguesa apresenta depressão crónica, o valor mais elevado da UE (média: 7,2%). Relativamente à ansiedade, 39,4% da população apresenta sintomas, incluindo 11,3% em níveis severos, contrastando com valores europeus de cerca de 5%.

Portugal apresenta o mais elevado consumo reportado de ansiolíticos, hipnóticos e sedativos entre os países da OCDE. No caso das benzodiazepinas, mais do dobro da média europeia.

Também o consumo de álcool contribui negativamente: cerca de 11,9 litros per capita, acima da média da OCDE (8,5 litros).

E apenas cerca de 17% dos adultos portugueses cumprem as recomendações mínimas de atividade física, valor significativamente inferior à média da UE.

A prevalência de obesidade em adultos situa-se igualmente acima da média europeia.

Bolacha Maria. A alimentação é o princípio de quase tudo: da prevenção, da energia, da recuperação, da cognição, da autonomia, da saúde metabólica, do envelhecimento com dignidade. Um país que dá comida fraca aos mais vulneráveis é um país que organiza a sua própria decadência.

Bolacha Maria.  Não importa se a pessoa precisa de proteína, de micronutrientes, de comida que reconstrua tecido, mantenha massa muscular.

Nos hospitais, a questão nutricional está longe de ser um detalhe. A Direção-Geral da Saúde reconhece que mais de 30% dos doentes internados estão em risco nutricional, e noutro enquadramento oficial admite prevalências de desnutrição hospitalar entre 20% e 50%.

Nos lares, a realidade também não consola. Um estudo nacional encontrou, entre idosos institucionalizados, 4,8% de desnutrição e 38,7% em risco de desnutrição. Quase quatro em cada dez em risco. Mas aparentemente a resposta civilizacional continua a caber num pacotinho de bolacha seca ao lado de um chá morno.

E nas escolas? Também aí o retrato desmente a propaganda. Há estudos a mostrar falhas na adequação nutricional das refeições escolares.

A bolacha Maria, portanto, não é “só uma bolacha”. É um programa político. Representa a cultura do desenrasca alimentar. A institucionalização da mediocridade. A caridade calórica. A ideia de que, para pobres, doentes, velhos e crianças, serve qualquer coisa desde que seja barata, mole, doce, dure meses e não dê trabalho.

Só que, como dizia Hipócrates, faz do alimento o teu remédio e do remédio o teu alimento.  Não era faz do alimento o teu veneno e do veneno o teu alimento, pois não?

Joana Amaral Dias

Fonte: SAPO, 22 de abril de 2026 

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