Comissão Europeia apresenta pacote de seis medidas para combater efeitos da crise energética
Bruxelas
acredita que "a coordenação [entre Estados-membros] é a chave" para
ultrapassar mais um pico inflacionário motivado pela disrupção do mercado dos
combustíveis fósseis
A Comissão Europeia propôs esta quarta-feira um conjunto de
medidas de apoio que visam proteger os cidadãos europeus face à crise
energética provocada pela guerra no Irão e acelerar a transição para uma
energia limpa e produzida internamente.
Bruxelas lembra que "pela segunda vez em menos de cinco
anos, os europeus estão a pagar o preço da dependência da Europa em relação aos
combustíveis fósseis importados". O projeto agora apresentado, nominado de
AccelerateEU, é composto por um "conjunto de medidas da Comissão para
proporcionar um alívio imediato às famílias e indústrias europeias,
especialmente as mais vulneráveis, colocando simultaneamente a Europa numa
trajetória estável rumo à independência energética".
"Desde a escalada do conflito no Médio Oriente, a UE gastou mais 24 mil milhões de euros em importações de
energia devido aos preços mais elevados -
sem receber uma única molécula de energia adicional", pode ler-se no
comunicado da Comissão Europeia.
O projeto europeu é constituído por medidas a curto prazo e
alterações com efeitos estruturais que se vão refletir a longo prazo, mas todas
elas com o propósito único de "reduzir ainda mais a dependência dos
mercados voláteis de combustíveis fósseis e reforçar a resiliência da Europa
face a riscos futuros, com base em energia limpa produzida internamente e na
eletrificação".
"As escolhas que fazemos hoje irão determinar a nossa
capacidade de enfrentar os desafios de hoje e as crises de amanhã. A nossa
estratégia AccelerateEU trará medidas de alívio tanto imediatas como mais
estruturais aos cidadãos e às empresas europeias. Temos de acelerar a transição
para energias limpas produzidas internamente. Isto dar-nos-á independência e
segurança energéticas e significará que estamos mais bem preparados para
enfrentar tempestades geopolíticas", escreve Ursula von der Leyen.
As medidas propostas pela Comissão Europeia
No comunicado, a Comissão Europeia lista um conjunto de seis
medidas:
1. "A coordenação é a chave". A Comissão Europeia
quer assegurar que as medidas a nível dos Estados-Membros sejam tomadas em
plena coordenação, sendo que isto inclui "o reabastecimento das reservas
subterrâneas de gás, o recurso a flexibilidades nas regras de enchimento ou
quaisquer libertações excecionais de reservas de petróleo". Os grupos de
coordenação do petróleo e do gás reúnem-se frequentemente para garantir uma
plena consciência da situação entre os Estados-Membros. As medidas de
emergência nacionais e as medidas destinadas a garantir a disponibilidade de
combustível para aviões (jet fuel) e gasóleo, incluindo a disponibilidade de
capacidades de produção das refinarias de petróleo, devem ser coordenadas de
perto.
2. Bruxelas anuncia ainda a criação de um novo Observatório
dos Combustíveis para acompanhar a produção, as importações, as exportações e
os níveis de reservas de combustíveis para transportes na UE. Isto permitirá a
identificação rápida de potenciais situações de escassez e, no caso de
libertações de reservas de emergência, orientar medidas específicas para manter
uma distribuição equilibrada de combustível. Para atenuar o impacto dos preços
elevados dos combustíveis a Comissão Europeia vai ainda clarificar as
flexibilidades existentes no quadro da aviação da UE.
3. Medidas oportunas, específicas e temporárias. A proteção
dos consumidores, incluindo a indústria, contra picos de preços pode incluir
regimes de apoio ao rendimento específicos, vales de energia e regimes de
locação social, bem como a redução dos impostos especiais sobre o consumo de
eletricidade para os agregados familiares vulneráveis. A Comissão adotará um
Quadro Temporário de Auxílios Estatais, que proporcionará flexibilidade
adicional aos governos nacionais, incluindo medidas de emergência para apoiar
os setores económicos mais expostos.
4. Acelerar a transição para a energia limpa produzida
internamente, a fim de substituir o petróleo, o gás e os combustíveis fósseis
para transportes. Até ao verão, a Comissão vai apresentar um Plano de Ação para
a Eletrificação. Este incluirá uma meta ambiciosa de eletrificação e medidas
para eliminar os obstáculos à eletrificação dos setores industrial, dos
transportes e da construção. A rápida implementação do Plano de Investimento em
Transportes Sustentáveis é fundamental para acelerar a implantação de combustíveis
sustentáveis para a aviação.
5. Reforçar o sistema de redes. A eletrificação deve ser
acompanhada por uma rede elétrica que seja adequada ao seu propósito. Os
primeiros passos consistem em garantir que a legislação atual seja plenamente
aplicada e que as negociações sobre o Pacote Europeu das Redes sejam concluídas
rapidamente. Maximizar as infraestruturas de energia renovável existentes é
outra ação. A rápida repotenciação de grandes parques eólicos e centrais
renováveis, incluindo parques eólicos offshore e centrais hidroelétricas, pode
proporcionar rapidamente o alívio adicional tão necessário, considera Bruxelas.
A Comissão apresentará uma proposta legislativa sobre as tarifas de rede e a
tributação, garantindo, entre outros aspetos, que a eletricidade seja tributada
menos do que os combustíveis fósseis.
6. Impulsionar os investimentos. Estão disponíveis recursos
significativos a nível da UE, tais como os do Mecanismo de Recuperação e
Resiliência (RRF: 219 mil milhões de euros) e os fundos da política de coesão.
Na crise atual, a rapidez e o impacto são fundamentais. A Comissão ajudará os
Estados-Membros a tirar o máximo partido do financiamento da UE disponível. No
entanto, os fundos públicos, por si só, não cobrirão as necessidades de
investimento significativas (660 mil milhões de euros por ano até 2030) para a
transição energética. Para mobilizar investimentos privados, a Comissão adotou,
por conseguinte, uma Estratégia de Investimento em Energia Limpa em março de
2026. A Comissão organizará uma Cimeira de Investimento em Energia Limpa que
reunirá o setor dos serviços financeiros, incluindo grandes investidores
institucionais, líderes industriais e promotores de projetos e aos
financiadores públicos para acelerar o financiamento privado.
A Comissão Europeia esclarece, por fim, que esta será uma
"resposta dinâmica" e que vai continuar a "evoluir à medida que
a situação se desenvolver", lembrando que estas medidas serão discutidas
pelos líderes da UE no Conselho Europeu informal em Chipre, nos dias 23 e 24 de
abril.
Fonte: CNN Portugal, 22 de abril de 2026

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