De Amália à receita com cocaína. 40 anos, 40 factos da Coca-Cola em Portugal

 

O Estado Novo estranhou-a, a democracia entranhou-a e já lá vão quatro décadas. A Coca-Cola, a maior empresa de bebidas, celebra 40 anos em Portugal. Mas há 40 coisas que talvez não saiba sobre ela

Fernando Pessoa não nutria, digamos assim, grande amizade por Salazar. No seu último ano de vida, em 1935, numa carta dirigida a Óscar Carmona, o poeta português chegou mesmo a escrever que o ditador tinha afastado “o resto da inteligência portuguesa, que ainda o olhava com uma benevolência, já impaciente”. Muito antes, em 1927, as divergências já eram muito evidentes: foi nesse ano que Fernando Pessoa, na qualidade de publicitário, criou o slogan para a entrada da Coca-Cola em Portugal “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, que Salazar pôs um travão à marca norte-americana. Num Estado Novo de nacionalismo vincado não havia espaço para a marca americana que é hoje a maior companhia de bebidas do planeta — e a primeira a chegar ao espaço.

Nada nem ninguém demoveu Salazar de fechar as fronteiras portuguesas à Coca-Cola que, dizia ele, causava habituação. Nem mesmo Alexander Makinsky, príncipe russo residente em Paris que era relações públicas da marca na Europa. No dia em que Makinsky veio até Lisboa para visitar o então ministro das Finanças, a comissão que a marca ofereceu a Salazar para poder ser comercializada em Portugal não bastou: ele agradeceu a visita de Makinsky e depois pediu aos seguranças que o levassem de imediato ao aeroporto. A Coca-Cola ainda terá tentado derrubar o ditador, financiado a campanha de Humberto Delgado, a quem Álvaro Cunhal chamava “general Coca-Cola”. Sem êxito. Seria preciso esperar mais 50 anos para a marca entrar lugar em Portugal: em 1977, era vendida a primeira garrafa no país.

Mas a Coca-Cola cruza-se com a história de Portugal. Amália Rodrigues encontrou-se com Eddie Fisher no programa “Coca-Cola Time” para cantar um fado de Coimbra, levando o fado para o outro lado do oceano.

A Coca-Cola patrocinou o Euro 2004, o maior evento desportivo alguma vez organizado por Portugal. E até foi capaz de juntar Figo, Eusébio e Futre no mesmo anúncio em 2002.

Fonte: Observador, 5 de julho de 2017

Salazar escreveu a A. Makinsky, o responsável da multinacional para a Europa. Salazar explicou-lhe claramente os motivos da recusa:

"Sei perfeitamente que o se­nhor nada tem a ver com vinhos, nem com sumos de fruta e é bem por outra razão que – apesar das excelentes relações que mantemos, o senhor e eu, e que datam da época em que repre­sentava a Fundação Rockefeller e não sonhava sequer em fazer parte da Coca-Cola – sempre me opus à sua aparição no mercado português. Trata-se daquilo a que eu poderia chamar a nossa paisagem moral. Portugal é um país conservador, paternalista e – Deus seja louvado – atrasado, termo que eu considero mais lisonjeiro do que pejorativo. O senhor arrisca-se a introduzir em Portugal aquilo que eu detesto acima de tudo, ou seja, o modernismo e a famosa efficiency. Estremeço perante a ideia dos vossos camiões a percorrer, a toda a velocidade, as ruas das nossas velhas cidades, acelerando, à medida que passam, o ritmo dos nossos hábitos seculares."

Sendo comercializada apenas em colónias como Angola e Moçambique, a bebida só foi legalizada e começou a ser comercializada em Portugal continental a 4 de julho de 1977, já após o 25 de Abril.

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