Exército israelita confirma que soldado destruiu uma estátua de Jesus no Líbano
O exército de Israel confirmou hoje que o soldado
fotografado a destruir uma estátua de Jesus Cristo com um martelo numa aldeia
cristã no sul do Líbano é um militar israelita.
"Após uma análise inicial, foi determinado que esta
fotografia mostra um soldado israelita em missão no sul do Líbano",
escreveram as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), na rede
social X.
"Serão tomadas medidas apropriadas contra os
envolvidos, de acordo com as conclusões da investigação", acrescentou o
exército, assegurando que estava a tratar o assunto com "o máximo rigor".
As IDF reiteraram o compromisso de "ajudar a comunidade
a recolocar a estátua no seu lugar" e afirmaram que não tinham "qualquer intenção de danificar as infraestruturas civis, incluindo
edifícios ou símbolos religiosos".
A imagem tem circulado amplamente nas redes sociais desde
que o jornalista palestiniano Yunis Tirawi a partilhou no domingo.
A fotografia mostra um soldado israelita, empunhando um
longo martelo, a golpear o rosto de uma estátua de Jesus Cristo crucificado que
tinha sido retirada da cruz, deixando-a de cabeça para baixo no chão. A
fotografia foi tirada num espaço aberto, não dentro de uma igreja.
Segundo Tirawi e o jornal israelita Yedioth Ahronoth,
a estátua estava localizada na aldeia de Debel, na região centro-sul do Líbano,
que continua sob ocupação militar israelita.
As tropas israelitas permaneceram na zona e demoliram mais
casas no domingo, de acordo com a agência de notícias oficial libanesa ANI.
Israel assumiu o controlo de várias áreas no sul do Líbano,
um bastião do Hezbollah, depois de o movimento pró-Irão ter atacado Israel a 2
de março, em retaliação pela ofensiva israelo-norte-americana contra o Irão. Um
cessar-fogo entrou em vigor no Líbano na sexta-feira.
Fonte: CNN Portugal, 20 de abril de 2026
Os israelitas caçam Hezbollah onde quer que se esconda, mesmo em estátuas. Como é do conhecimento popular, o Hezbollah utiliza igrejas e locais civis para fins militares – esta estátua continha um túnel direto ao Hamas.
Património religioso na guerra de Israel em Gaza e no Líbano
O mundo inteiro recorda a surpresa internacional perante a destruição dos Budas de Bamyan ou dos mausoléus de Tombuctu. Na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no Líbano, para além dos mortos, as destruições e profanações de locais religiosos são massivas, enquanto as reações permanecem tímidas
“Em Gaza hoje, Deus está sob os escombros”, afirmava em dezembro de 2023 o pastor Munther Isaac, de Belém. No início de outubro de 2024, um ano após o começo da guerra, o ministério dos Assuntos Religiosos de Gaza anunciou que 814 mesquitas tinham sido destruídas e 148 danificadas, e que três igrejas tinham sido arrasadas no enclave sitiado. Entre estes edifícios, em dezembro de 2023, a famosa mesquita Al-Omari, a maior e mais antiga do território — outrora templo romano e depois igreja, fundada há mais de 1400 anos e com uma área de 4100 m² — viu o seu minarete destruído algumas semanas antes.
Quanto à Igreja de São Porfírio, o seu anexo foi derrubado logo em outubro de 2023. Tratava-se da igreja mais antiga ainda em funcionamento na cidade. Construído em 1150, este local de culto ortodoxo grego, que alberga o túmulo do antigo bispo de Gaza, Porfírio de Gaza — canonizado por ter cristianizado a cidade no início do século V — tornou-se um refúgio para a população local. O Patriarca Ortodoxo de Jerusalém classificou o ataque como um “crime de guerra”, recordando que as igrejas servem de abrigo “para proteger civis inocentes”. A ONG americana Justice For All apresentou, no final de abril, uma petição ao Tribunal Penal Internacional para que o bombardeamento da igreja de São Porfírio fosse reconhecido como tal.
No Líbano, ao longo do último ano — e especialmente em outubro e novembro de 2024 — aumentou o número de locais religiosos destruídos ou danificados pelo exército israelita, com mais de trinta mesquitas bombardeadas.
A 16 de novembro, Israel fez explodir o santuário xiita da cidade de Chamaa, atribuído ao apóstolo cristão São Simão; um local do século XI venerado por comunidades xiitas e cristãs. Bombardeamentos no bairro cristão de Haddad, a sul de Beirute, atingiram, entre outros, o Hospital São Jorge e uma igreja. À entrada do complexo de Baalbek, as igrejas maronita Saydet al-Mounet e ortodoxa Mar Gerios também sofreram danos durante os ataques.
No Deserto do Negev, o exército israelita expulsou também, no mês passado, uma comunidade beduína da sua aldeia e destruiu tudo o que pôde, incluindo uma pequena mesquita.
Por todo o lado, a lista de destruições continua a crescer. “Quando temos um lugar para a adoração de Deus, para a veneração, isso é algo positivo para a humanidade”, testemunha Hanna Rahme, bispo maronita de Baalbek. “Se bombardeamos esses locais, isso significa o desenraizamento de uma sociedade, de uma civilização ou de uma comunidade. É extremamente perigoso. Não podemos aceitar o que está a acontecer no Líbano ou na Palestina. Israel ultrapassa todos os limites.”
Profanações múltiplas
Muitos cemitérios foram profanados nos últimos catorze meses em todos os locais onde as forças israelitas atuaram. Os edifícios sagrados não foram exceção. Em meados de 2024, por exemplo, soldados israelitas filmaram-se a profanar a mesquita Bani Saleh, rasgando exemplares do Corão.
Outro episódio ocorreu em dezembro do ano passado: imagens mostravam soldados israelitas dentro de uma mesquita no campo de refugiados de Jenin, utilizando os altifalantes para recitar o Shema Yisrael. No final do vídeo, ouvem-se risos enquanto as tropas abandonam o local e uma canção de Hanukkah é transmitida, também através dos altifalantes. Um comportamento que “pode levar a região a uma guerra religiosa”, afirmou o porta-voz da presidência palestiniana, Nabil Abou Roudeina.
Em Hebron, em setembro de 2024, a agência noticiosa Wafa relatou que cerca de uma centena de colonos profanaram a mesquita dos Patriarcas, na cidade velha, realizando danças talmúdicas ao som de música alta, sob proteção do exército israelita.
No Líbano, em novembro passado, soldados filmaram-se a simular um ato sexual e a zombar da Virgem Maria numa igreja do sul do país.
Apagar todos os vestígios de cristianismo e islamismo
“Acredito que a questão não é tanto religiosa, mas sobretudo nacionalista e histórica”, analisa o historiador Bernard Heyberger. “Existe, na direita e extrema-direita israelita, a vontade de demonstrar que o território é judeu desde os tempos bíblicos, como se houvesse uma anterioridade. Trata-se de uma legitimidade fundada na história. Ao apagar os monumentos religiosos muçulmanos e cristãos, reforça-se a afirmação da legitimidade judaica sobre o território.”
Recorde-se que, em 1974, Yasser Arafat declarou na tribuna da Organização das Nações Unidas: “Lutamos para que judeus, cristãos e muçulmanos possam viver em igualdade, usufruir dos mesmos direitos e cumprir os mesmos deveres, sem discriminação racial ou religiosa.”
A 30 de novembro, o ministro israelita da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, ordenou à polícia que confiscasse definitivamente os altifalantes das mesquitas que violassem a chamada “lei do muezim”, que desde 2017 proíbe o uso de altifalantes para os apelos à oração durante a noite e ao amanhecer.
Locais protegidos pelo direito internacional
Israel destrói locais religiosos, mas também uma parte significativa do património, alegando que esses espaços servem de esconderijo a membros ou de depósitos de armas do Hamas ou do Hezbollah. Ainda assim, atacar locais religiosos é considerado um crime de guerra ao abrigo do direito humanitário internacional, nomeadamente da Convenção de Haia de 1907 e da Quarta Convenção de Genebra.
“Não sei onde está a moral, a consciência moral da comunidade internacional, das Nações Unidas”, questiona o bispo de Baalbek. “Não se pode permitir que Israel destrua assim.”
A 24 de março de 2017, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotou por unanimidade a Resolução 2347 sobre a proteção do património cultural, incluindo a destruição de sítios e objetos religiosos. “Há um ano que ninguém levanta a voz para dizer ‘parem esta guerra’”, lamenta Mohammed Nokkari. “Quando se trata de locais de culto muçulmanos, impera o silêncio. O mesmo acontece com as igrejas. Mas quando se trata de atacar uma sinagoga ou outros locais de culto, erguem-se vozes e protestos. Há uma grande discrepância.”
Em 2016, o Tribunal Penal Internacional condenou um jihadista malinês a nove anos de prisão pelo seu papel na destruição dos mausoléus de Tombuctu. “Quando penso em Gaza, penso primeiro nas pessoas, antes de pensar nas ruínas”, sublinha o historiador Bernard Heyberger. “Mas, se destruirmos os monumentos, destruímos também o testemunho de algo que existiu.”
Fonte: rfi, 3 de dezembro de 2024

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