“Ficheiros Epstein” abalam confiança na democracia na Noruega. Parlamento cria comissão
A
divulgação dos "ficheiros Epstein” desencadeou uma crise de confiança nas
instituições democráticas da Noruega, levando o parlamento a criar uma comissão
independente para investigar ligações entre o antigo empresário norte-americano
e figuras do aparelho político e diplomático do país.
A Noruega enfrenta um dos
maiores testes à sua reputação democrática
após a revelação de documentos ligados a Jeffrey Epstein, que expõem
alegadas ligações entre o ofensor sexual e membros da elite política e
institucional norueguesa. A reação foi imediata, o parlamento aprovou por
unanimidade a criação de uma comissão independente para investigar o alcance e as implicações dessas
relações.
Segundo o jornal britânico The Guardian, a comissão,
formalmente lançada esta semana, terá um mandato alargado, recuando mais de
três décadas, incluindo o período que antecedeu
os Acordos de Oslo (1993-1995). O objetivo é apurar a natureza das
relações entre Epstein, a sua rede e políticos ou funcionários públicos
noruegueses, bem como avaliar se essas ligações tiveram impacto nos interesses
ou na segurança nacional.
Entre as áreas sob escrutínio estarão também as campanhas
norueguesas para cargos em organizações internacionais, assim como a atribuição
de ajuda ao desenvolvimento e outros financiamentos públicos. A investigação
poderá, ainda, colaborar com processos criminais em curso, encaminhando
informações relevantes para as autoridades policiais.
Per-Willy Amundsen, presidente da comissão parlamentar de
fiscalização que impulsionou o inquérito, reconhece o impacto profundo do caso
na perceção pública. “Sempre nos vimos como uma sociedade aberta, democrática e
funcional, sem corrupção. Mas estes ficheiros abalaram essa
confiança”, afirmou. Para o responsável, a única forma de restaurar a
credibilidade passa por uma investigação totalmente independente e
transparente.
Os documentos, divulgados pelo Departamento de Justiça dos
Estados Unidos em janeiro, provocaram várias reações no país ao mencionarem
figuras ligadas ao ministério dos Negócios Estrangeiros e até à família real.
Ainda assim, a comissão não investigará a
alegada ligação da princesa herdeira Mette-Marit a Epstein, uma vez
que a Constituição exclui a monarquia do escrutínio parlamentar.
O caso levanta também preocupações quanto à reputação
internacional da Noruega, tradicionalmente vista como mediadora em processos de
paz. “Esta situação pode alterar a forma como o país é visto no exterior”,
alertou Amundsen, sublinhando a necessidade de apurar toda a verdade.
O primeiro-ministro, Jonas Gahr Støre, já tinha admitido que
os documentos demonstram como riqueza e influência podem ser usadas para
contornar regras e exercer poder indevido. “Há questões legítimas sobre
possíveis violações legais e éticas que precisam de ser esclarecidas”,
declarou.
As conclusões da comissão poderão ter consequências
políticas significativas, em particular para o Partido Trabalhista,
historicamente dominante e com forte presença na diplomacia norueguesa. Mais do
que apurar responsabilidades, o desafio central será reconstruir a confiança
dos cidadãos nas instituições democráticas.
Fonte: 24 Notícias, 18 de abril de 2026

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