O dono da histórica loja Torpedo é um assaltante de bancos
Esta é a banda de Bertin, Camera Silens, em 1984. Bertin é o
vocalista, que está sem camisola
O
francês cabecilha de um grupo anarquista viveu escondido durante sete anos no
Barreiro e em Lisboa. Regressou agora ao seu país para ser julgado
Quem viveu em Lisboa no final dos anos 80, princípio da
década de 90, recorda-se de uma loja de discos emblemática que ficava no
Rossio. Chamava-se Torpedo e era daqueles lugares de culto, hoje praticamente
extintos. Foi ali que se escutaram os primeiros acordes de “Nevermind”, dos
Nirvana, onde se encontravam raridades que não existiam nas outras lojas, por
onde passou boa parte da movida rock e punk da capital. À semelhança de outros
espaços icónicos, como a Bimotor, a Torpedo teve o seu fim e nunca mais se
falou no assunto. Até hoje. A razão? Já lá vamos.
Atrás do balcão costumava estar um casal que aparentava ter pouco mais de 30 anos. Ninguém sabia muito bem quem eram, talvez franceses ou espanhóis, dizia-se. “Conhecia-os da loja, conversávamos ocasionalmente num bar ou num concerto, mas nunca passou disso. Até hoje achava que ele era espanhol. Até porque a Cecília, a rapariga que também trabalhava lá, era espanhola”, recorda à NiT um cliente habitual, músico, apanhado de surpresa ao ler hoje um artigo da BBC. O jornal trazia a história de um homem arrependido, há muito dado como morto, que tinha uma ligação a Portugal.
Gilles Bertin numa foto policial de 1988
Gilles Bertin, (19612019), assim se chama o francês, decidiu
entregar-se à justiça e prepara-se agora para enfrentar um julgamento. A razão?
Liderou um assalto a um banco em Toulouse, de onde saíram com 12 milhões de
francos, há mais de 25 anos. Fugido à justiça, escondeu-se em Espanha e
Portugal, e usou parte desse dinheiro para comprar o espaço onde viria a
funcionar a Torpedo, no andar superior da estação do Rossio. Quis passar
despercebido mas a loja acabaria por se tornar um lugar de culto. “Foi a loja
mais importante da cena alternativa de Lisboa durante muitos anos”, conta a
mesma fonte.
Não foi por acaso que a Torpedo ganhou nome no meio musical underground da capital. Bertin tinha sido vocalista de um dos maiores representantes do punk francês, os Camera Silens, com uma legião de fãs considerável.
Eram quase todos ligados a movimentos anarquistas e de
extrema-esquerda, considerados perigosos e violentos. “Foi uma espécie de líder
punk politizado na cena francesa dos anos 80 (…) Os gajos eram radicais de
esquerda, violentos. A cena punk francesa nessa época era lixada”, recorda à
NiT outro cliente, também músico, que privou várias vezes com Bertin.
Durante os 25 anos em que esteve desaparecido, Bertin terá
sido reconhecido várias vezes nas suas viagens a França. Em Portugal, onde
viveu durante pelo menos sete anos — teve casa no Barreiro e há quem diga que
também morou em Lisboa —, houve quem desconfiasse do seu passado. Símbolo do
punk francês mais hardcore, Gilles não era propriamente um rosto desconhecido,
nem mesmo em Lisboa, onde o punk ia já na segunda vaga. “Muita gente sabia
[quem ele era] mas a mulher dizia para não acreditarmos no que se dizia sobre
ele. Que era tudo mentira. Ele era um gajo muito calado, mesmo na loja era
preciso puxar por ele para dizer alguma coisa. Pouco falava português”,
acrescenta a mesma fonte.
O assalto
Quando a banda francesa se desmantelou, no final dos anos
80, os membros e muitos dos seus seguidores perceberam que não tinham grande
futuro pela frente. Muitos estavam infetados com doenças como o HIV, fruto de
excessos e drogas duras. Sem muito a perder, decidiram fazer um assalto a um
banco em Toulouse, que lhes renderia perto de dois milhões de euros. Foram
quase todos apanhados exceto o principal suspeito, Gilles Bertin, que acabaria
no entanto condenado a dez anos. Terá passado algum tempo em prisão
domiciliária e aproveitou para fugir.
Desapareceu do mapa e nem mesmo a família conhecia o seu
paradeiro. Foi dado como morto. Em Portugal vivia atormentado com a ideia de
ser apanhado e sempre que via um automóvel de matrícula francesa parar no
Rossio pensava que era por sua causa. Decidiu entregar-se depois de muitos anos
incógnito, sem poder ver sequer o filho, hoje com 30 anos. Contactou um
advogado francês e decidiu enfrentar a justiça.
“No final dos anos 70 e início dos anos 80 era um jovem
zangado, um niilista, um anarquista num caminho de destruição, revoltado com a
sociedade. Tem de se perceber o contexto de então.” Aos 57 anos, a enfrentar um
julgamento que o pode atirar 20 anos para a cadeia, Gilles é um homem
arrependido, que procura pacificar-se com o passado. (Em 2018 é condenado a 5 anos de pena suspensa).
Fonte: NiT, 7 de junho de 2018
O punk que voltou dos mortos - e se entregou
Um
julgamento começa esta quarta-feira, 6 de junho, na cidade de Toulouse, no sul
de França, envolvendo um assalto a um banco, o movimento punk que varreu a
Europa no início dos anos 80 e um homem que regressou dos mortos. Chris Bockman
relata um regresso improvável
Um dos mais conhecidos advogados criminalistas de França,
Christian Etelin, estava sentado à sua secretária, a altas horas da noite, em
novembro passado, a pensar em reformar-se, quando recebeu um telefonema que o
deixou atónito. Primeiro, porque o interlocutor tinha sido declarado morto há
anos - e segundo, porque envolvia um ousado assalto à mão armada ocorrido há
quase 30 anos.
A voz do outro lado da linha era a de Gilles Bertin - um
antigo cantor punk niilista de um grupo de Bordéus chamado Camera Silens, com
muitos seguidores entre anarquistas e jovens de extrema-esquerda que achavam
que não havia futuro, pelo menos para eles. A Grã-Bretanha tinha Sid Vicious e
os Sex Pistols – Gilles Bertin era o equivalente francês.
No final da década de 1980, o grupo e os seus associados
estavam na miséria, apesar do sucesso, e toxicodependentes. Vários tinham sido infetados
com o vírus VIH após partilharem seringas de heroína contaminadas.
Perceberam que não tinham muito tempo de vida, por isso
decidiram partir em grande estilo, realizar um assalto à mão armada de grandes
proporções e gastá-lo todo antes de morrer.
E foi exatamente isso que alguns dos membros da banda
fizeram – roubaram 12 milhões de francos (quase 2 milhões de euros) de um
armazém da Brinks em Toulouse – uma pequena fortuna na altura. Chegaram mesmo –
aparentemente – a ligar para o jornal local, gabando-se do feito. Ninguém ficou
ferido no assalto e a polícia percebeu logo que estava a lidar com amadores.
Todos foram detidos em menos de um ano, exceto um suspeito, Gilles Bertin.
Quase não foi recuperado dinheiro e alguns dos ladrões
anarquistas, já muito doentes, morreram devido a sintomas relacionados com a
SIDA.
Os outros, depois de passarem um breve período na prisão,
voltaram ao anonimato e a empregos convencionais.
Gilles Bertin recebeu uma pena de 10 anos à revelia e, com o passar dos anos, o roubo e o movimento punk desapareceram de vista. O cantor/ladrão armado condenado foi declarado morto. A sua família - incluindo o seu filho nascido durante aqueles anos turbulentos em Bordéus - nunca mais teve notícias dele.
E, no entanto, está bem vivo quando o encontro numa antiga
brasserie cheia de gente chamada Café de la Concorde para almoçar no coração de
Toulouse. Alto, de cabelo despenteado e cego de um olho - consequência de uma
hepatite provocada pelo consumo de drogas - é incrivelmente educado e tímido.
Conta-me um pouco sobre aqueles 28 anos foragido e por que razão regressou.
Após o roubo, carregava literalmente sacos de notas e foi
para Portugal, onde abriu uma loja de discos - tudo pago em dinheiro vivo,
claro. Ocasionalmente, algum fã de música francês em viagem reconhecia-o, mas
ele negava. Sempre que via um carro com matrícula francesa em frente à loja,
tinha a certeza de que estava a ser monitorizado ou seguido.
Depois de 10 anos a gerir a loja, achou que a polícia
francesa estava mesmo no seu encalço e foi para Barcelona com a sua namorada
espanhola. A família dela tinha um bar e ele tornou-se o barman. Tiveram um
filho. Só a namorada sabia do seu passado – para todos os outros, era um homem
sem passado.
Mas contou-me que, quando esteve à beira da morte por causa
de uma hepatite e foi salvo gratuitamente pelo pessoal do hospital de
Barcelona, sem perguntas, porque não tinha documentos, esse foi o ponto de
viragem – o momento de confrontar o seu passado e ser honesto com o filho. A sua vida tinha sido salva, enquanto não tinha
contribuído em nada para a sociedade.
"Percebi que precisava de contar a verdade e confessar
o meu passado", diz.
Daí o telefonema para o advogado. Atravessou a fronteira de
comboio para Toulouse e, com o seu advogado, entregou-se na esquadra.
Embora admita estar nervoso com a proximidade da data do
julgamento, sente que um peso lhe foi retirado dos ombros.
"Esta é a etapa final de uma longa provação pela qual
tenho de passar", diz. "No entanto, estou ansioso, só de pensar nisso
já me dá vertigens, principalmente porque sei que corro o risco de apanhar 20
anos de prisão.
Mas estou a fazê-lo pelo meu filho de sete anos. Ele ainda
não percebe bem o que fiz durante os meus quase 30 anos em fuga, mas precisa de
saber."
Esperando ser preso de imediato, para sua completa surpresa,
descobriu que poderia permanecer em liberdade até ao julgamento, onde se
declarará culpado. Diz que a decisão de não o
prender o deixou ainda mais irritado consigo mesmo pelo que fez.
Mas se algumas pessoas acham o seu passado romântico, ele
quer deixar claro que nunca mais desejaria voltar a ter a vida que teve.
"Não havia nada de romântico no que fiz", diz.
"Estar escondido, sem poder falar sobre mim ou com pessoas do meu passado,
incluindo o meu filho, constantemente em alerta, com medo de que as autoridades
me encontrassem – e, além disso, estava gravemente doente."
Durante três décadas, afirma ter vivido uma mentira, com
vergonha. Sentia-se constantemente como um animal caçado, vivendo em permanente
paranoia. Enquanto aguarda julgamento, escreve sobre a sua experiência como
fugitivo e até se reencontrou com o seu outro filho, agora com 30 anos.
Espera poder convencer o juiz de que mudou.
"No final dos anos 70 e início dos anos 80, eu era um
jovem revoltado, um niilista, um anarquista numa trajetória destrutiva e em
revolta contra a sociedade. É preciso compreender o contexto daquela
época", diz.
"Cometi erros, mas já não sou a mesma pessoa. Aos 57 anos, sou mais maduro e já não tenho nada a ver com esse período da minha vida."
Desde que regressou dos mortos, Bertin restabeleceu contacto
com alguns dos ex-membros da banda (e associados ao assalto à Brinks) que ainda
estão vivos – muitos já faleceram. Um deles conduz agora um autocarro, outro é
auxiliar de enfermagem num hospital. Ele ainda ouve as suas antigas músicas?
Faz uma careta e diz que a
sua música naquela altura era horrível – hoje em dia, ouve soul. Se
evitar a prisão, regressará a Barcelona, mas não viverá mais escondido.
"Espero poder explicar ao meu filho as escolhas que fiz
nessa altura."
Admite que acha o interesse dos média na sua vida "um
pouco avassalador".
Quando o assunto é o dinheiro do roubo da Brinks, insiste
que gastou tudo há muito tempo.
Quanto ao seu advogado de 74 anos, Christian Etelin, que
passou a vida a defender terroristas de extrema-esquerda, fanáticos islâmicos e
gangsters condenados, decidiu adiar a reforma. Este era um caso que ele
simplesmente não conseguia abandonar.
Fonte: BBC, 6 de junho de 2018
Cantava numa banda punk, assaltou um banco em França e
abriu uma conhecida loja de discos em Lisboa: a espantosa história de Gilles
Bertin
No
início da década de 90, a Torpedo, loja de discos localizada na Estação
Ferroviária do Rossio, foi ponto de passagem para uma geração de melómanos em
Lisboa. Ao balcão estava Cecilia, catalã de origem, e o seu parceiro, Gilles.
Aos olhos dos locais, o francês era reservado, mas a suposta timidez escondia o
seu cadastro – e uma tremenda história de vida, aqui recordada por quem o
conheceu
A27 de abril de 1988, um grupo formado por uma dúzia de
homens assaltou um depósito da Brink’s, uma empresa de gestão de valores, em
Toulouse, França, o culminar de um plano germinado quase dois anos antes. O
roubo, que se fez com recurso a disfarces e sem que se tivesse registado um
único disparo ou ferido, valeu-lhes uma verdadeira fortuna: 11 milhões, 751 mil
e 316 francos, cerca de 2 milhões e 600 mil euros.
No espaço de dois anos, quase todos seriam capturados pelas
autoridades, sem que, no entanto, se viesse a descobrir onde estava o dinheiro.
Ênfase no ‘quase’: um desses homens, Gilles Bertin, andou a monte durante três
décadas. No seu caso, pelo menos, sabe-se o que fez com uma parte do roubo:
abriu uma loja de discos em Portugal.
Fonte: Expresso, 23 de abril de 2026






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